Juros futuros recuam com acirramento eleitoral e desaceleração

Curva de juros futuros cai no Brasil mesmo com alta dos yields americanos, impulsionada por desaceleração e avanço de Bolsonaro nas pesquisas.

Juros futuros brasileiros recuam enquanto Treasuries sobem: mercado precifica desaceleração e risco fiscal menor com disputa eleitoral.
Destaques
  • O DI para janeiro de 2029 fechou a 13,840%, recuando mais de 4 pontos-base em meio ao acirramento eleitoral.
  • A XP Investimentos reduziu a projeção de crescimento do PIB para 2026 de 2% para 1,7%, antecipando ritmo mais lento.
  • Pesquisas DataFolha e Quaest mostraram redução na vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno.

A curva de juros futuros no Brasil apresentou um movimento de recuo generalizado nesta sexta-feira (4), contrariando a tendência de alta observada nos títulos do Tesouro norte-americano, os Treasuries, durante a maior parte da sessão. Enquanto os yields americanos subiam impulsionados por dados de emprego mais fortes que o esperado, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) fecharam em queda em todos os prazos, refletindo dois vetores principais: a desaceleração da economia doméstica e o acirramento da disputa eleitoral.

O movimento de baixa nos juros futuros brasileiros surpreendeu analistas ao destoar do cenário externo. A taxa do DI para janeiro de 2027, de curtíssimo prazo, encerrou a 13,575%, ante 13,567% do ajuste anterior, uma queda de 12 pontos-base. Já o contrato para janeiro de 2029, de médio prazo, fechou a 13,840%, recuando mais de 4 pontos-base na comparação com os 13,883% do fechamento anterior. No longo prazo, o DI para janeiro de 2036 cedeu 8,5 pontos-base e terminou o dia a 14,200%, ante 14,285% registrados na última quinta-feira.

Por que os juros futuros no Brasil recuaram enquanto os Treasuries subiram?

A resposta está na combinação de fatores domésticos que têm moldado as expectativas do mercado. De um lado, a percepção de que a economia brasileira está desacelerando — com preocupações adicionais sobre o crédito, que pode acentuar esse movimento — pressiona as taxas futuras para baixo. De outro, o noticiário político-eleitoral ganhou peso como principal driver da curva a termo, segundo André Shiokawa, gestor de renda fixa e moedas da Asset1.

O cenário de desaceleração foi corroborado por uma leitura da XP Investimentos, que reduziu a projeção de crescimento do PIB brasileiro para 2026 de 2% para 1,7%, antecipando um ritmo mais lento do que o inicialmente esperado para o próximo ano. Esse movimento indica que o mercado começa a precificar uma atividade econômica mais fraca, o que naturalmente reduz as pressões inflacionárias e abre espaço para uma trajetória de juros mais baixos.

O papel das pesquisas eleitorais no movimento dos juros

As pesquisas de intenção de voto atuaram de forma decisiva na queda dos juros futuros ao longo da semana. Felipe Garcia, chefe da mesa de operações do C6 Bank, observa que o candidato da oposição Flávio Bolsonaro (PL) é percebido pelo mercado como ligeiramente mais fiscalista do que o atual governo. Quando as sondagens mostram um acirramento na disputa, os agentes financeiros passam a precificar um risco fiscal menor no horizonte, o que abre espaço para a redução das taxas.

Na quinta-feira (3), a Pesquisa DataFolha apontou que a distância entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro no segundo turno caiu de quatro para dois pontos percentuais desde agosto. Na mesma semana, a Quaest mostrou que a vantagem do petista foi reduzida de três para um ponto percentual, e a Pesquisa PoderData/Aya revelou Bolsonaro à frente de Lula pela primeira vez no segundo turno, com 45% a 44% das intenções de voto.

Além do cenário eleitoral, números de inflação corrente mais baixos e expectativas relativamente estáveis também contribuíram para o arrefecimento da curva a termo, de acordo com Garcia. Em outras palavras, o mercado está digerindo um cenário de atividade mais fraca, inflação controlada e maior probabilidade de uma política fiscal mais austera dependendo do desfecho eleitoral.

E o exterior? Payroll forte aperta o Fed

Nos Estados Unidos, os Treasuries avançaram após a divulgação do relatório de empregos (payroll) de agosto, que mostrou a criação de 162 mil vagas, bem acima das projeções do mercado. A taxa de desemprego permaneceu estável em 4,1%, reforçando a percepção de que a economia americana segue resiliente, apesar das tarifas comerciais impostas por Donald Trump e do choque nos preços do petróleo causado pela guerra no Irã.

O dado forte elevou a probabilidade de uma alta nos juros pelo Federal Reserve (Fed) em setembro, conforme a ferramenta FedWatch do CME Group, que subiu de cerca de 50,4% para 58%. Isso significa que o mercado já precifica mais de 50% de chance de um aperto monetário adicional na próxima reunião do banco central americano, em linha com a visão de que a inflação ainda não foi domada.

Para Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital, o payroll confirma que a economia americana continua crescendo a despeito dos eventos de volatilidade. “Uma economia forte e resiliente”, resume. Esse cenário externo de juros mais altos nos Treasuries, no entanto, não contaminou o mercado brasileiro, que operou ancorado nas dinâmicas locais.

O que esperar da curva de juros nos próximos meses?

A divergência entre os movimentos domésticos e externos deve continuar sendo um tema central. Enquanto no Brasil a desaceleração e o fator eleitoral pressionam as taxas para baixo, nos EUA a força do mercado de trabalho mantém a porta aberta para novos aumentos. O mercado brasileiro parece estar precificando que, a despeito do cenário global, os riscos fiscais e a atividade local são fatores mais determinantes para os juros futuros.

A queda dos DIs verificada nesta sexta-feira reflete, portanto, uma aposta combinada de que o próximo governo terá maior compromisso fiscal e que a economia desacelerará de forma mais intensa. Caso as pesquisas continuem a mostrar um acirramento, especialmente com a possibilidade de vitória da oposição, é provável que os juros futuros mantenham trajetória de baixa. Por outro lado, um payroll americano consistentemente forte pode, em algum momento, contaminar os ativos brasileiros, especialmente se o Fed sinalizar que está disposto a elevar juros de forma mais agressiva.

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