O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu início à divulgação dos bens declarados pelos candidatos à Presidência e Vice-Presidência para as eleições de 2026, e um dado salta aos olhos: apenas um dos postulantes registrou Bitcoin como parte do patrimônio. O candidato a vice-presidente pelo PRTB, Leonardo Avalanche, concentra mais de 99% dos seus R$ 495,2 milhões declarados diretamente em Bitcoin (BTC), um movimento que contrasta radicalmente com o perfil ultraconservador de seu cabeça de chapa, Pablo Marçal, e com a maioria dos demais concorrentes. Essa concentração não apenas posiciona Avalanche como o maior detentor declarado de criptomoedas entre os políticos brasileiros, mas também acende um debate sobre a adoção de ativos digitais como reserva de valor no meio político nacional.
O fenômeno Bitcoin na política: Leonardo Avalanche e os 99%
Dos R$ 495,2 milhões declarados por Leonardo Avalanche ao TSE, impressionantes R$ 491 milhões (mais de 99,1%) estão alocados em Bitcoin. A fatia remanescente se divide entre obras de arte (R$ 2,2 milhões), joias (R$ 1,2 milhão) e 100% das cotas societárias do Avalanche Bank Ltda. O perfil do vice do PRTB é um outlier completo no espectro das declarações: enquanto a maioria dos candidatos aposta em renda fixa, imóveis ou participações empresariais, Avalanche escolheu o ativo digital mais volátil e descentralizado do mercado como carro-chefe de seu patrimônio. Essa escolha levanta perguntas sobre a visão de longo prazo do candidato em relação à economia digital e à tokenização de riqueza, além de servir como um termômetro da penetração das criptomoedas no alto escalão político brasileiro.
Para contextualizar, Pablo Marçal, cabeça da chapa PRTB/PRTB, possui a maior fortuna entre todos os candidatos, com R$ 7,4 bilhões, mas com perfil oposto: a esmagadora maioria está em CDBs e RDBs no Banco Itaú (R$ 6,79 bilhões), um terreno em Santana de Parnaíba (SP) de R$ 490 milhões e holdings. Enquanto Marçal representa o investidor tradicional de altíssimo patrimônio, Avalanche encarna a aposta no ecossistema cripto. A chapa, portanto, simboliza a convivência — e o contraste — entre o dinheiro analógico e o digital dentro de uma mesma corrida eleitoral.
| Chapa | Presidenciável – Patrimônio | Vice – Patrimônio | Destaque |
|---|---|---|---|
| PRTB/PRTB | Pablo Marçal – R$ 7,4 bi | Leonardo Avalanche – R$ 495,2 mi | 99,1% do vice em Bitcoin |
| Avante/Avante | Augusto Cury – R$ 242,2 mi | Julio Delgado – R$ 3,5 mi | Vice 100% em imóveis e veículo |
| NOVO/NOVO | Romeu Zema – R$ 178,7 mi | Eduardo Girão – R$ 34,1 mi | Girão com US$ 1,8 mi no exterior |
| PSD/PSD | Ronaldo Caiado – R$ 52,5 mi | Gilberto Kassab – R$ 20,9 mi | Kassab 94% em quotas empresariais |
| Democrata/Democrata | Wilson Grassi – R$ 50 mi | Suêd Haidar – R$ 460 mil | Grassi em bloco genérico “Outros Bens” |
| PL/PL | Flávio Bolsonaro – R$ 8,1 mi | Alfredo Gaspar – R$ 564 mil | Gaspar 85% em dois carros seminovos |
| PT/PSB | Lula – R$ 4,7 mi | Geraldo Alckmin – R$ 3,2 mi | Ambos em previdência VGBL e renda fixa |
| DC/DC | Clariana Barao – R$ 1,8 mi | Fabiana Torquato – R$ 2,2 mi | Torquato 95% em imóveis em Goiás e DF |
| Missão/Missão | Renan Santos – R$ 795 mil | Coronel Medina – R$ 1,5 mi | Medina com medalhas e espada militar |
| PCB/PCB | Edmilson Costa – R$ 454 mil | Cleusa Santos – R$ 1,7 mi | Cleusa com R$ 1,5 mi em apartamentos |
| PSTU/PSTU | Hertz Dias – Sem bens | Vanessa Portugal – R$ 280 mil | Vanessa 100% em terra em MG |
| PCO/PCO | Rui Costa Pimenta – Sem bens | Antônio Carlos – R$ 110 mil | Onix e 50% de imóvel |
| UP/UP | Samara – R$ 33 mil | Raquel Bricio – Sem bens | Samara: Uno Vivace 2016 e poupança |
Como os demais candidatos distribuem seus patrimônios
Avante/Avante: Augusto Cury e Julio Delgado
O escritor e médico Augusto Cury declarou R$ 242,2 milhões, com liderança de um empréstimo mútuo de R$ 121,1 milhões à sua própria empresa Filadélfia Nature, além de fatias na Fictor Invest (R$ 31,5 milhões), BDRs (R$ 25,8 milhões) e ações do Bradesco (R$ 7 milhões), completando com fazendas, prédios e terrenos. Seu vice, Julio Delgado, é o oposto: 100% dos R$ 3,5 milhões estão em bens físicos em Minas Gerais — um imóvel histórico em Ouro Preto (R$ 1,5 milhão), um apartamento em Belo Horizonte (R$ 1,5 milhão), metade de um imóvel em Juiz de Fora (R$ 400 mil) e um veículo (R$ 120 mil).
NOVO/NOVO: Romeu Zema e Eduardo Girão
Romeu Zema estrutura sua fortuna via holding familiar (R$ 94,4 milhões), fundos multimercado (R$ 56,2 milhões), quotas financeiras e seguros. Eduardo Girão, por sua vez, apresenta portfólio internacionalizado: depósitos e ações no exterior somam mais de R$ 10 milhões, incluindo US$ 1,8 milhão em conta americana. No Brasil, distribui capital em contratos de mútuo (R$ 5,8 milhões), renda fixa (R$ 4,1 milhões), cotas empresariais (R$ 4,2 milhões) e múltiplos imóveis no Ceará.
PSD/PSD: Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab
Caiado finca seu patrimônio no agronegócio: R$ 36,2 milhões em imóveis e fazendas rurais, R$ 10,4 milhões em semoventes (rebanho bovino) e R$ 4,2 milhões em títulos isentos. Gilberto Kassab, vice, é o completo oposto: 94% dos seus quase R$ 21 milhões estão em quotas de empresas limitadas nacionais privadas, com um apartamento em São Paulo (R$ 743 mil) e poupança (R$ 422 mil).
Democrata/Democrata: Wilson Grassi e Suêd Haidar
Wilson Grassi declarou R$ 50 milhões em um único bloco genérico, consolidando direitos sobre imóveis financiados e participações societárias. Suêd Haidar possui exatos R$ 460 mil concentrados no Rio de Janeiro: 65% em uma casa na Pavuna (R$ 300 mil), joias (R$ 100 mil) e um Etios 2018 (R$ 60 mil).
PL/PL: Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar
Flávio Bolsonaro concentra mais de 75% no imobiliário do DF: uma casa no Lago Sul de R$ 6,22 milhões. O restante inclui fundo multimercado (R$ 1,09 milhão), contas e poupança (R$ 670 mil), um carro e sua sociedade de advocacia (R$ 10 mil). Alfredo Gaspar, vice, tem 85% do patrimônio em dois carros — Jeep Compass 2024 (R$ 158 mil) e VW Passat (R$ 120 mil) — e uma casa em Marechal Deodoro (R$ 95 mil), o restante em direitos de espólio em Alagoas.
PT/PSB: Lula e Geraldo Alckmin
Lula destina a maior parte à previdência complementar: R$ 3,3 milhões em dois planos VGBL (Brasilprev/Bradesco). Seus imóveis em São Bernardo do Campo somam cerca de R$ 739 mil, além de fundos conservadores, fundos imobiliários e direitos a receber. Alckmin segue a mesma tônica: R$ 1 milhão em VGBL, R$ 1,4 milhão em CDBs e LCAs, debêntures de Eneva, Raízen e CTEEP, um apartamento em SP e terras em Pindamonhangaba.
Demais chapas: do patrimônio modesto à declaração zero
Clariana Barao (DC/DC) tem R$ 1,8 milhão em imóveis e SUV Land Rover; sua vice Fabiana Torquato concentra R$ 2,2 milhões em sítio em Alexânia (GO) e apartamento no Plano Piloto. Renan Santos (Missão) declarou R$ 795 mil sem imóveis ou veículos — apenas créditos e poupança vinculados. Coronel Medina, vice, tem R$ 1,5 milhão, com 77% em imóveis no Sul e R$ 222 mil em numismática e objetos militares. Edmilson Costa (PCB) tem R$ 454 mil, metade de um apartamento de R$ 350 mil; sua vice Cleusa Santos tem R$ 1,7 milhão, com R$ 1,5 milhão em apartamentos em Santos, Ribeirão Preto e Rio. Hertz Dias (PSTU) declarou zero; Vanessa Portugal tem R$ 280 mil em terra em Boa Esperança (MG). Rui Costa Pimenta (PCO) também não possui bens; Antônio Carlos tem R$ 110 mil em um Onix e 50% de imóvel. Samara (UP) tem R$ 33 mil — um Uno Vivace 2016 e poupança; Raquel Bricio declarou zero.
O que a declaração de Avalanche significa para o mercado de cripto no Brasil
A concentração de 99% do patrimônio de um candidato a vice-presidente em Bitcoin não é apenas uma curiosidade eleitoral. Ela sinaliza que, mesmo em um ambiente político tradicionalmente conservador em termos de alocação de ativos, há espaço para posições extremas em criptomoedas. Para investidores brasileiros, o movimento de Avalanche pode ser interpretado como um voto de confiança na tese de que o BTC funciona como reserva de valor de longo prazo, ainda que sujeito a alta volatilidade. Além disso, a declaração pública e oficial ao TSE cria um precedente para que outros políticos passem a declarar criptoativos de forma transparente, algo que ainda é raro no país. Se Avalanche vencer, seu perfil patrimonial poderá influenciar debates sobre regulação tributária e incentivo à economia digital. Se perder, fica o registro histórico de que, nas eleições de 2026, um vice-presidenciável apostou todas as suas fichas — ou quase todas — no Bitcoin.
