O mercado de renda fixa bancária passou por um ajuste significativo em fevereiro, com as taxas dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) apresentando queda generalizada em comparação com janeiro, especialmente nos títulos prefixados. Apesar do movimento de baixa, os papéis atrelados à inflação continuam oferecendo juro real acima de 8% ao ano, enquanto os pós-fixados exigem prazos cada vez mais longos para superar a barreira dos 100% do CDI. Os dados são de levantamento exclusivo da Quantum Finance realizado para o InfoMoney, que analisou as emissões entre 1º e 28 de fevereiro.
Queda generalizada nos retornos dos prefixados
Os números revelam um cenário de desaceleração clara nos retornos oferecidos pelos CDBs prefixados. Em janeiro, os títulos com vencimento em 36 meses pagavam, em média, 13,83% ao ano. Já em fevereiro, essa taxa média caiu para 13,06%. Para o vencimento em 24 meses, a redução foi de 12,86% para 12,32%. Mesmo nos prazos mais curtos houve ajuste: os CDBs de seis meses recuaram de 13,96% para 13,62% na média. A Facta Financeira ofereceu a maior taxa do período para vencimento em 36 meses: 15,60% ao ano, enquanto o ABC Brasil liderou as emissões de 6 e 24 meses.
Fatores que explicam a redução das taxas
Segundo Mario Leonetti, sócio-fundador da Private Investimentos, o movimento de queda nas taxas está diretamente ligado à precificação de um cenário de redução da taxa Selic pelo mercado. “O mercado antecipa esse movimento e ajusta a curva de juros. Mas também vejo um ambiente de maior liquidez e competição entre instituições financeiras por captação”, explica o especialista. Guilherme Almeida, Head de Renda Fixa da Suno Research, complementa que “os títulos públicos prefixados também são utilizados como referência para a precificação dos títulos corporativos e bancários. Como eles apresentaram uma redução nos retornos ofertados ao longo de fevereiro, isso necessariamente se reflete em um custo menor de captação para os bancos”.
Riscos locais contribuem para o cenário
Paulo Monteiro, head da Gravus Capital, ressalta que eventos recentes no mercado de crédito também influenciaram o movimento. “A liquidação de algumas instituições financeiras menores contribuiu para reduzir a agressividade das taxas oferecidas”, afirma. Esse fator de risco local, somado à expectativa de queda dos juros básicos, criou um ambiente de cautela entre os emissores, que passaram a oferecer remunerações menos atrativas para captar recursos.
Resistência dos títulos atrelados à inflação
Enquanto os prefixados perdem fôlego, os CDBs indexados ao IPCA seguem pagando prêmios elevados. A média para os títulos de 24 meses recuou apenas de 7,64% para 7,37% acima da inflação, mantendo-se em patamares historicamente altos. Para vencimentos de 12 meses, a taxa média ficou em 8,47% IPCA+, com o Haitong Brasil oferecendo a maior remuneração: 9,17% acima da inflação. Nos prazos de 36 meses, a média foi de 7,49% IPCA+, com máxima de 8,28%.
Dinâmica de oferta e demanda mantém taxas elevadas
Almeida explica que grandes investidores institucionais, como fundos de pensão, já atingiram suas cotas de alocação no fim do ano passado. “Com a demanda menor e uma oferta elevada pelo Tesouro Nacional, as taxas reais se mantêm nas alturas”, detalha. Paulo Monteiro destaca ainda a composição híbrida desses papéis: “Em um momento em que o IPCA está em níveis mais baixos em comparação ao período pós-pandemia, parte do retorno precisa ser compensada na parcela prefixada do título”.
O dilema estratégico entre IPCA+ e prefixado
Na hora de escolher entre as modalidades, não existe um papel fundamentalmente melhor, segundo os especialistas. Monteiro resume a dinâmica: “Os títulos IPCA+ são considerados mais defensivos por protegerem o poder de compra no longo prazo, enquanto os prefixados assumem um caráter mais direcional, podendo performar melhor se os juros continuarem caindo, mas também trazendo mais risco caso a curva volte a abrir”. A decisão, portanto, depende do perfil do investidor e de sua visão sobre a trajetória da inflação e dos juros.
Pós-fixados exigem prazos longos para superar 100% do CDI
Nos CDBs atrelados ao CDI, os dados mostram que, em média, o pequeno investidor só consegue superar a marca de 100% do CDI em emissões mais longas, de 24 ou 36 meses. Para vencimento em 24 meses, a taxa média foi de 100,17% do CDI, com o Banco Mercantil oferecendo até 107%. Já para 36 meses, a média ficou em 100,22%, com o ABC Brasil pagando 102,30%. Nos prazos mais curtos, as taxas ficaram abaixo da referência: 99,85% para 6 meses e 99,17% para 12 meses.
Risco de crédito versus liquidez
Vale a pena travar o capital por tanto tempo por uma margem tão estreita? Para Paulo Monteiro, não. “CDBs que pagam taxas acima de 100% do CDI costumam ser emitidos por instituições menores. Essa diferença de taxa está muito mais relacionada ao risco de crédito do emissor do que a qualquer outro fator de mercado. Para o pequeno investidor, não compensa abrir mão de liquidez para obter essa ligeira margem”, afirma. No entanto, o pós-fixado segue como a âncora de segurança da carteira. Guilherme Almeida pondera que “um CDB de grande banco a 100% do CDI com liquidez diária é ideal para reserva de emergência”.
Março começa com abertura da curva de juros
Para março e os próximos meses, o cenário exige estômago. Embora Mario Leonetti veja espaço para estabilidade e até uma leve queda nas taxas caso a inflação fique sob controle, o peso do noticiário começa a fazer preço. Tanto Guilherme Almeida quanto Paulo Monteiro alertam para a abertura da curva de juros sentida logo nos primeiros dias de março. “O próprio início de março já trouxe movimentos de alta nas taxas, influenciados, entre outros fatores, pela escalada do conflito no Oriente Médio, que fez o preço do petróleo subir de forma relevante. Esse movimento é naturalmente inflacionário para a economia global”, explica Monteiro.
Fatores de risco para o restante do ano
Os especialistas destacam que 2026 reserva turbulências com causas internas e externas. Além da tensão geopolítica e seus impactos nos preços de commodities, fatores domésticos como a evolução do risco fiscal e a trajetória da inflação devem influenciar o comportamento das taxas. A combinação desses elementos cria um ambiente de maior volatilidade, onde movimentos bruscos na curva de juros podem se tornar mais frequentes.
Estratégias para o investidor em um cenário volátil
Diante da perspectiva de maior instabilidade, os especialistas recomendam diversificação e atenção aos prazos. Para quem busca proteção contra a inflação, os IPCA+ continuam oferecendo boas oportunidades, especialmente em prazos mais longos. Já os investidores com apetite por risco e que acreditam na continuidade da queda dos juros podem encontrar nos prefixados oportunidades interessantes, desde que estejam dispostos a assumir a direcionalidade da aposta. Os pós-fixados, por sua vez, mantêm seu papel estratégico como parte da reserva de liquidez, mas exigem análise cuidadosa quando oferecem prêmios acima do CDI.
O mercado de renda fixa brasileiro entra em uma fase de transição, onde a tradicional estabilidade dá lugar a um ambiente mais dinâmico e sensível a notícias macroeconômicas e geopolíticas. Nesse contexto, a capacidade de analisar não apenas as taxas oferecidas, mas também os riscos por trás dessas remunerações, se torna crucial para construir uma carteira resiliente. A combinação entre prazos adequados, diversificação de emissores e atenção aos movimentos da curva de juros será o diferencial para navegar com sucesso pelos desafios que se anunciam para os próximos meses.
