O que vem depois do ‘woke’: de consciência a ação na política contemporânea

Quando o videoclipe de “This Is America” de Childish Gambino foi lançado em 2018, ele foi recebido como um manifesto artístico da realidade americana. A brutalidade policial contra pessoas negras, tema central da obra, já havia galvanizado uma nova onda de ativismo desde os casos de Eric Garner e Tamir Rice em 2014, dando origem ao movimento Black Lives Matter. A sensação era de que a arte estava capturando e amplificando uma consciência coletiva que estava se formando. Quatro anos depois, em 2020, durante os protestos massivos que eclodiram em meio à pandemia de COVID-19, essa consciência atingiu seu pico de visibilidade pública, mas também começou a expor suas contradições internas.

A origem e a evolução do termo “woke”

A ideia de “woke” emerge diretamente da cultura negra americana. Significa estar desperto, não caminhar sonambulamente pela vida, consciente das realidades políticas e sociais que moldam a existência, especialmente das estruturas de injustiça racial. É um conceito simples em sua essência: um estado de alerta. No entanto, o termo não carrega, por si só, uma instrução sobre o que fazer com essa consciência adquirida. É um diagnóstico, não um plano de tratamento. Essa lacuna entre perceber o problema e agir para solucioná-lo tornou-se o ponto crítico da primeira fase do “wokeness”, frequentemente chamada agora de “woke 1”.

A transformação do “woke” em símbolo de consumo cultural

Com o tempo, “woke” se associou a uma série de outras expressões como “correção política”, “DEI” (Diversidade, Equidade e Inclusão) ou “justiça social” em sua aceitação popular. O significado para muitos se tornou: “coisas que pessoas liberais fazem ou dizem que são irritantes”. Tornou-se um marcador de grupos, uma forma de identificar quem estava dentro ou fora de um certo círculo de valores. Empresas adotaram a linguagem, promovendo treinamentos de bias inconsciente e lançando linhas de produtos com mensagens progressistas. A consciência, paradoxalmente, se transformou em um produto a ser demonstrado e consumido, frequentemente divorciado de ações concretas.

Os limites da consciência como fim da ação

O movimento Black Lives Matter, com seu design descentralizado e sem líderes formais, dependia fortemente do ecossistema digital, especialmente do Twitter, para organização e difusão. Essa estrutura permitiu uma democratização da voz, mas também criou um ambiente onde a observação muitas vezes substituiu a participação. Muitos, como o autor do texto original, acompanhavam os protestos em Ferguson via Periscope, absorvendo a realidade através de uma tela. Essa experiência gerava conhecimento, mas também ansiedade e uma sensação de impotência. A consciência, quando não canalizada para ação, pode se tornar uma carga.

A vulnerabilidade a figuras públicas e interesses corporativos

A ausência de uma estrutura hierárquica formal não impediu o surgimento de figuras públicas dentro do movimento. Este espaço, por vezes, foi ocupado por indivíduos que, posteriormente, foram acusados de desviar recursos ou agir com interesses conflitantes. Casos como o da diretora executiva do Black Lives Matter em Oklahoma City, indiciada por peculato em 2025, ou as controvérsias persistentes sobre o destino de doações administradas por certos organizadores, revelaram uma vulnerabilidade. A confiança inicial em empresas e celebridades que endossavam publicamente os valores do movimento também foi testada. A Target, por exemplo, anunciou em 2021 um investimento de 2 bilhões de dólares em negócios negros, mas em 2025, após a reeleição de Donald Trump, reverteu muitas de suas iniciativas de DEI, incluindo esse programa.

A era em que o discurso se tornou barato

Em 2026, a lição aprendida é que o discurso público de consciência é de custo baixo. Pessoas e corporações que demonstram vigorosamente seu conhecimento dos problemas sociais não estão, necessariamente, alinhando suas operações práticas com esses valores. O “wokeness” como performance social—mostrar aos outros o quanto você está “acordado”—criou um ecossistema onde a virtude era a própria demonstração de conhecimento. Isso levou, em alguns círculos, a disputas por pureza ideológica e debates intermináveis sobre representação cultural, muitas vezes em detrimento de foco em mudanças materiais.

Do conhecimento à ação prática: exemplos de um novo caminho

O boicote espontâneo e majoritariamente grassroots contra a Target ilustra uma transição potencial. A ação tem um objetivo claro e mensurável: demonstrar ao conglomerado que ele perdeu a fidelidade de seus consumidores negros devido ao retrocesso em suas políticas. Não há um líder centralizado; é uma resposta coletiva e orgânica a uma decisão corporativa. O impacto é econômico e direto—causar perdas financeiras—uma linguagem que empresas compreendem sem ambiguidade. Quando um pastor tentou cancelar o boicote após um ano, a comunidade negra em massa continuou. A ex-senadora estadual Nina Turner relatou que, mesmo em reuniões com executivos da Target, a hostilidade à DEI persistia, e ela planejava escalar a organização contra a marca. Não é um movimento para mudar o mundo, mas para exercer poder coletivo de forma tangível.

Encontrando espaços para ação local e concreta

Outra via é o engajamento em organizações políticas locais que oferecem caminhos para transformar conhecimento em pressão prática. A participação em grupos como os Socialistas Democratas da América (DSA), motivada por campanhas eleitorais municipais concretas como a de Zohran Mamdani em Nova York, oferece recursos e estrutura para influenciar políticas locais. Este caminho reconhece que o electoralismo não é a solução completa, mas pode ser uma ferramenta dentro de um conjunto maior de ações. Paralelamente, há um movimento de abandonar a necessidade de *demonstrar* consciência para outros. A prioridade passa a ser a ação, mesmo que pequena e interpersonal, em vez do debate performático.

Ação coletiva no nível micro: o caso da campanha para Stella

Um exemplo pessoal citado é a campanha de crowdfunding para ajudar uma amiga, Stella, que foi fraudada por um desenvolvedor de games. A ação não foi um movimento nacional; foi uma live stream de algumas horas, mobilizando principalmente amigos e vizinhos. O resultado foi a coleta de quase 13 mil dólares, uma diferença material na vida de uma pessoa. A consciência do problema foi divulgada, mas o objetivo central foi a solução prática, não a amplificação do discurso. Isso exemplifica uma possível direção: focar em criar espaços de apoio e amor dentro de comunidades específicas, realizando mudanças tangíveis no nível onde elas são mais viáveis.

A jornada desde 2014 até 2026 mostra uma mudança fundamental. A esperança inicial era que a consciência extrema—estar profundamente “woke”—por si só, geraria liberdade e justiça. A experiência revelou que a consciência é apenas o primeiro passo. O que pode vir depois, um “woke 2”, não precisa ser uma ideologia grandiosa com um objetivo mundial definido. Pode ser, simplesmente, uma oportunidade de retribuir às comunidades que oferecem apoio, de criar espaços de cuidado em um mundo frequentemente indiferente, e de canalizar o conhecimento da injustiça em ações, pequenas ou grandes, que fazem uma diferença real e mensurável. O foco se desloca da mudança do mundo para a realização do bem possível.

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