Persona 3 e Fallout New Vegas lideram a lista dos jogos que definem a nova geração progressista

O que faz de um jogo verdadeiramente progressista em 2026? A discussão vai muito além da mera inclusão de personagens diversos ou de bandeiras coloridas nas opções de personalização. Em um episódio recente do podcast Aftermath, que encerrou a “Woke Week”, especialistas e criadores de conteúdo mergulharam em uma análise profunda para definir o cânone dos jogos “Woke 2”. O termo, ressignificado dentro de comunidades progressistas, se afasta da caricatura feita pela direita e do marketing vazio de corporações, apontando para obras que questionam estruturas de poder de forma genuína e complexa.

O debate que separa Woke 1 e Woke 2 na cultura dos games

A conversa, que contou com a participação do podcaster Michael Hobbes, de “If Books Could Kill” e “Maintenance Phase”, partiu de uma distinção crucial. Enquanto o “Woke 1” é frequentemente associado a uma abordagem mais superficial, focada em representatividade como fim em si mesma e por vezes adotada de forma performática por grandes estúdios, o “Woke 2” representa uma evolução. Trata-se de uma postura que busca mudanças sistêmicas e narrativas que não se limitam a colocar uma mulher no cargo de CEO em uma história distópica, mas que efetivamente desafiam o status quo e exploram a complexidade das relações humanas e das estruturas sociais.

Persona 3 é citado como exemplo perfeito da nova filosofia

Entre os primeiros nomes levantados, Persona 3 se destacou como um arquétipo do “Woke 2”. Os participantes do debate elogiaram a abordagem do jogo, que, em sua essência, é sobre a mortalidade e a importância das conexões humanas. “Persona 3, porém, realmente é só sobre ‘Ei, todo mundo vai morrer; vá fazer alguns amigos'”, resumiu a apresentadora Gita. Essa reflexão existencialista, que coloca o valor das relações acima de hierarquias ou conquistas materiais, foi apontada como um contraponto direto a narrativas mais individualistas e competitivas que dominam o mercado.

Em contraste, Persona 5 foi rapidamente descartado do cânone progressista devido a elementos trans fóbicos presentes em seu conteúdo, um exemplo claro de como a representatividade mal executada ou contraditória não se qualifica. Já a franquia Dark Souls, especificamente o primeiro título, foi defendida por apresentar uma escolha filosófica fundamental: perpetuar um mundo moribundo e decadente (acender a Chama) ou abraçar uma nova era de incerteza e potencial (a Era das Trevas). Essa narrativa sobre deixar para trás sistemas falidos, mesmo sem saber exatamente o que virá depois, foi considerada profundamente alinhada com a ideia de buscar mudanças reais.

Fallout New Vegas e a rejeição definitiva do nacionalismo americano

O consenso no debate apontou Fallout: New Vegas como possivelmente o maior expoente do “Woke 2” na história dos videogames. A análise vai além da sua reputação de RPG profundo e cheio de escolhas. O jogo foi celebrado por seu tema central: o fim definitivo dos Estados Unidos. “É o mais perto que Fallout chegou de dizer ‘A América acabou. Está terminada. Nunca haverá outra América. As pessoas que estão tentando trazer a América de volta são todas tolas. Não vai funcionar a longo prazo'”, argumentou Gita.

Nessa perspectiva, New Vegas não é apenas um pano de fundo pós-apocalíptico, mas uma crítica feroz ao nacionalismo, ao excepcionalismo e à ideia de que velhas estruturas de poder podem ou devem ser restauradas. Facções como a NCR (New California Republic) e o César’s Legion são mostradas como falhas e corruptas, cada uma à sua maneira, tentando impor um novo sistema baseado em ideologias falidas do passado. A mensagem subjacente é de que o futuro precisa ser construído sobre algo radicalmente novo, não sobre a nostalgia de um império em ruínas.

Hades 1 versus Hades 2: uma metáfora para a evolução do pensamento progressista

A comparação entre os dois jogos da Supergiant Games serviu como um estudo de caso perfeito para a discussão. Hades, o original, foi amplamente considerado “Woke 2”. Nele, o protagonista Zagreu não apenas desafia a autoridade de seu pai, Hades, mas, através de suas repetidas fugas, efetivamente transforma as relações dentro da Casa de Hades. Personagens como Orfeu e Eurídice, Aquiles e Pátroclo, e até mesmo o próprio Hades e Perséfone, têm seus arcos narrativos significativamente alterados e evoluídos pelas ações do jogador.

Hades 2, em sua fase inicial de acesso antecipado, já foi criticado por representar um retrocesso para o “Woke 1”. A análise publicada pelo Aftermath e citada no debate aponta que, apesar de a protagonista Melinoé ser uma “agente de mudança”, suas interações com os personagens secundários muitas vezes resultam em eles aprenderem a aceitar suas circunstâncias injustas, em vez de buscar transformá-las. Essa diferença sutil, entre mudar sistemas e aprender a se adaptar a eles, foi vista como o cerne da distinção entre as duas “ondas” do pensamento progressista aplicado às narrativas.

A representatividade queer sutil e o caso de Warframe

A discussão também abordou como a representatividade LGBTQIA+ é tratada. Warframe foi citado como um exemplo positivo de “Woke 2” por sua abordagem considerada orgânica e sutil. Os Warframes, os exoesqueletos biomecânicos controlados pelos jogadores, brincam com ideias de gênero e identidade de uma forma que não é explícita ou didática, mas integrada à sua estética e lore. Além disso, a desenvolvedora Digital Extremes tem um histórico público de apoio a causas progressistas, alinhando sua prática corporativa com os valores que podem ser lidos em seu jogo.

Street Fighter 6 entrou na lista de forma humorística, mas com um ponto sério por trás. A piada sobre representar “primos que se relacionam” foi uma forma satírica de destacar que o “Woke 2”, em sua acepção mais ampla e comunitária, pode ser inclusivo até de formas absurdas ou tabu, focando na aceitação sem julgamento. O humor, neste caso, serviu para desconstruir a seriedade excessiva que às vezes cerca o debate.

O perigo de banalizar o termo e a importância da ação sobre o símbolo

O próprio Michael Hobbes alertou para um risco inerente à discussão. “Acho que da mesma forma que os direitistas usam ‘woke’ para significar qualquer coisa que acham ruim, nós estamos usando ‘woke 2’ para significar qualquer coisa que achamos boa. Sanduíche de pasta de amendoim e geleia? Isso é woke 2, baby”, brincou. Esse momento de autorreflexão destacou que qualquer termo pode se esvaziar de significado se for aplicado de forma muito ampla e pouco crítica.

No entanto, o debate conseguiu estabelecer parâmetros mais concretos. A conclusão implícita foi que um jogo “Woke 2” é aquele que não se contenta em adicionar diversidade superficial a uma fórmula narrativa conservadora. Ele deve, em sua mecânica, tema ou consequências narrativas, convidar o jogador a questionar hierarquias, imaginar futuros pós-capitalistas ou pós-nacionalistas, valorizar o coletivo e o cuidado, e entender a mudança sistêmica como um processo complexo e contínuo, não um final feliz simples. São jogos que, como Fallout: New Vegas, nos convidam a deixar velhos mundos para trás e, como Persona 3, a encontrar significado não no poder, mas nas pessoas ao nosso redor.

A definição de um cânone progressista para os jogos vai além de criar uma lista de favoritos. Ela serve como um mapa crítico para entender como a mídia interativa pode refletir e moldar aspirações por um mundo mais justo. Em um cenário onde o termo “woke” é constantemente atacado e cooptado, essa releitura feita pela comunidade aponta para um futuro onde o progressismo nos games é medido não pela quantidade de bandeiras, mas pela profundidade de sua crítica e pela coragem de suas proposições. A jornada do “Woke 1” para o “Woke 2” é, em última análise, a jornada do símbolo para a substância, e esses jogos são os marcos dessa estrada.

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