PF apura fraude de R$ 390 milhões na previdência do Amazonas com compra de títulos do Banco Master

A Polícia Federal (PF) desvendou um esquema de gestão fraudulenta e corrupção que colocou em risco R$ 390 milhões dos cofres da Amazonprev, fundação responsável pela previdência dos servidores do estado do Amazonas. As investigações, que resultaram na operação Sine Consensu, apontam para uma rede de propina e movimentações financeiras atípicas que envolveram a compra de letras financeiras do Banco Master e de outros três bancos privados com recursos dos segurados.

Decisão de investimento de R$ 50 milhões foi tomada em menos de três horas

De acordo com documentos da PF, um dos episódios mais graves ocorreu em 5 de junho de 2024. O comitê de investimentos da Amazonprev recebeu um pedido de cotação para a compra de letras financeiras do Banco Master no valor de R$ 50 milhões às 14h02. Aproximadamente duas horas e quarenta minutos depois, às 16h43, a ordem de aquisição já havia sido emitida. A velocidade da transação, sem a devida análise de risco e fora dos padrões de governança, levantou imediatas suspeitas dos investigadores.

Operações ficaram ocultas da fiscalização por meses

A corporação policial constatou que essas transações não foram registradas nas atas oficiais do comitê de investimentos, permanecendo escondidas dos órgãos de controle interno e externo. O conselho fiscal da Amazonprev só tomou conhecimento formal das aplicações em outubro de 2024, quatro meses após o primeiro desembolso. “Somente em outubro de 2024 houve a primeira referência formal às aplicações, com posterior ciência do comitê de investimentos”, destaca o relatório da PF, evidenciando um grave rombo nos processos de transparência.

Fundação reconheceu irregularidades após pressão das investigações

Confrontada com as evidências, a própria Amazonprev foi obrigada a admitir, em registros formais, a ocorrência de irregularidades na gestão dos recursos. A PF alerta que segurados e dependentes enfrentaram um “risco sistêmico” com as operações, já que o dinheiro destinado a pagar aposentadorias e pensões foi direcionado para investimentos de alto risco e sem lastro adequado.

Operação Sine Consensu afasta servidores e busca provas do esquema

Na sexta-feira, 6 de março de 2026, a PF deflagrou a Operação Sine Consensu, cumprindo mandados de busca e apreensão em endereços de Manaus e Niterói, no Rio de Janeiro. A ação resultou no afastamento cautelar por 90 dias de servidores suspeitos de envolvimento no esquema. As investigações se concentram nos gestores Claudinei Soares, Cláudio Marins de Melo e André Luis Bentes de Souza, apontados como os principais articuladores das aplicações irregulares.

Empresa fantasma movimentou R$ 620 mil para suspeitos no período dos investimentos

Um dos achados mais reveladores da PF foi o rastro de dinheiro deixado pela empresa Alfa A. Nos mesmos seis meses em que a Amazonprev realizou os aportes de R$ 390 milhões nos bancos privados, a Alfa A repassou R$ 620,1 mil para os três gestores investigados. A movimentação financeira da empresa, no entanto, não condizia com sua capacidade operacional declarada. “As transferências apresentam padrão típico de circulação rápida de recursos, com entradas e saídas simultâneas e ausência de lastro”, descreveu a polícia, caracterizando indícios fortes de pagamento de propina.

Amazonprev afirma colaborar e ter afastado os envolvidos

Em nota oficial, a Amazonprev declarou que está colaborando integralmente com as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público. A fundação informou ainda que já determinou o afastamento de todos os servidores citados nas investigações, garantindo que novas medidas de controle e compliance estão sendo implementadas para evitar a repetição de casos semelhantes. A defesa dos gestores ainda não se manifestou publicamente sobre as acusações.

O caso expõe uma falha crítica nos mecanismos de proteção do dinheiro público, especialmente da previdência estadual, e deve gerar uma série de ações judiciais para tentar recuperar os recursos desviados. Enquanto a PF segue aprofundando as investigações para mapear toda a rede e identificar outros possíveis beneficiários, milhares de servidores do Amazonas aguardam respostas sobre a segurança de seus benefícios futuros.

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