Prefeitura de Nova York investe em desenvolvedores independentes de jogos para fortalecer cena local

Quando se pensa em polos norte-americanos de desenvolvimento de jogos, nomes como São Francisco, Los Angeles, Seattle ou Austin vêm à mente com facilidade. Nova York, tradicionalmente, não é a primeira opção. Embora a Rockstar mantenha um pequeno escritório na cidade e a Avalanche, desenvolvedora de Just Cause, tenha operado até 2024, a presença de estúdios triple-A é limitada. No entanto, a indústria de games é muito mais do que seus grandes nomes, e uma instituição parece entender isso melhor do que muitas: a Prefeitura de Nova York, através do seu Escritório de Mídia e Entretenimento (MOME).

O caminho do MOME para os jogos começou antes do “prefeito gamer”

Apesar de alguns terem apressadamente batizado Zohran Mamdani como o primeiro “Prefeito Gamer” de NYC, a verdade é que a cidade vem liderando iniciativas relacionadas a jogos desde antes de Eric Adams assumir o cargo. A expansão do portfólio do MOME para incluir os games aconteceu ainda em 2018, sob a administração de Bill de Blasio. Desde então, a pasta produziu uma série de programas, incluindo subsídios, programas educacionais, um estudo detalhado sobre o impacto econômico multibilionário dos jogos na cidade e, a partir de 2023, o programa de crédito de marketing “Made in NY”, que impulsionou a visibilidade de títulos como Skate Story. Nos últimos três anos, a cidade investiu um total de US$ 3 milhões na indústria de videogames.

Foco estratégico migra dos grandes estúdios para os desenvolvedores independentes

Inicialmente, os esforços do MOME concentraram-se em atrair grandes estúdios triple-A para a cidade. Um conselho foi estabelecido em 2022, durante a gestão Adams, com representantes de empresas como Take-Two, Zynga, Epic e Rockstar. No entanto, essa estratégia mostrou-se pouco frutífera. Naomi Clark, diretora do departamento de design de jogos do NYU Game Center e membro do conselho, descreveu a iniciativa como um “nada-burger”, típico de conselhos empresariais de política local para uma indústria menor. A virada estratégica veio com a percepção de que o verdadeiro potencial estava na base já existente.

Mais de 7 mil desenvolvedores independentes formam a nova base da indústria local

“Desde então, realmente nos voltamos para reforçar quem está aqui agora: os desenvolvedores independentes”, afirmou Alia Jones-Harvey, comissária associada do MOME para desenvolvimento de força de trabalho e educação. “Temos mais de 7.000 desenvolvedores independentes na cidade”. A decisão foi catalisada também pelo programa de crédito fiscal de cinco anos e US$ 25 milhões do estado de Nova York, anunciado em 2022, que é mais adequado para projetos de menor escala do que para produções triple-A, que poderiam consumir sozinhas a cota anual de US$ 5 milhões em um único ano.

Incubadora Game Design Future Lab oferece mentoria e espaço físico

O novo foco materializou-se no NYU Game Design Future Lab, uma incubadora estabelecida como parte de um investimento de US$ 1 milhão do MOME e da NYC Economic Development Corporation (NYCEDC). A iniciativa oferece mentoria personalizada, workshops específicos, acesso a investidores, novas tecnologias e networking profissional. A primeira turma é composta por seis empresas, incluindo a CYBRLICH Studios, que desenvolve um shooter de animação manual, e a Sapient Technology, focada em ferramentas de IA generativa integradas à Unreal Engine. Mitu Khandaker, professora do NYU Game Center e diretora associada do Future Lab, enfatiza que o programa busca desafiar o modelo padrão de startups do Vale do Silício, apoiado por capital de risco, que nem sempre é o mais adequado.

O papel polêmico da IA generativa na estratégia da cidade

O apoio a uma empresa como a Sapient Technology coloca a cidade no centro de um debate crucial da indústria: o uso da inteligência artificial. Jones-Harvey acredita que a cidade pode facilitar a liderança de pensamento sobre como a indústria mudará com a IA. “Acho que não seremos capazes de parar o uso da IA no início do processo de codificação e design. Acho que esse trem já partiu”, disse ela, reconhecendo que a ferramenta pode acelerar drasticamente o desenvolvimento, transformando ciclos de cinco anos em dois, ou de dois em um. Khandaker, por sua vez, defende uma visão mais moderada, argumentando que ferramentas responsáveis podem reduzir custos de iteração e apoiar os desenvolvedores, em vez de substituí-los. “A questão real não é a rapidez com que você pode substituir pessoas, mas quanto tempo você pode continuar construindo sem ficar sem dinheiro ou esgotar sua equipe”, afirmou.

Parcerias concretas e apoio financeiro direto a desenvolvedores

Além da incubadora, o apoio do MOME se manifesta através de parcerias e subsídios diretos. Cat Small, diretora executiva da Game Devs Of Color Expo, destacou a parceria previsível com a prefeitura, que resultou em subsídios anuais para desenvolvedores de jogos de cor baseados em NYC. Entre 2022 e 2025, desenvolvedores como Geneva Heyward (Skate & Date), Daniel Lowe (Parkour Legends), Chris James e Sri Kankanahalli receberam financiamento que variou de US$ 14 mil a US$ 15 mil. Sam Eng, criador de Skate Story, foi beneficiário do crédito de marketing “Made in NY”, que colocou anúncios do jogo em LinkNYC e abrigos de ônibus. Para ele, o valor foi mais de prestígio do que de vendas diretas, mas alinhou-se perfeitamente com a estética nova-iorquina do jogo.

A cena de jogos de NYC é vasta, diversa e carente de espaços físicos acessíveis

Sam Eng, que também cofundou o coletivo indie GUMBO, descreve a cena de jogos de Nova York como “crescente a uma taxa exponencial massiva”, mas observa que, apesar da efervescência criativa, poucos estão realmente lucrando. Ele identifica a falta de um “terceiro espaço” acessível – um local físico para a comunidade se organizar – como um dos maiores obstáculos. “Sempre senti que a principal coisa que Nova York – e muitas pessoas – está perdendo é esse terceiro espaço”, disse Eng, que já pediu ao MOME, sem sucesso, um pequeno escritório para a comunidade. Jones-Harvey reconhece a necessidade, afirmando que o feedback recebido aponta para a criação de mais oportunidades de incubação em diferentes partes da cidade.

Esports, educação e a busca por um modelo sustentável

O MOME também tem outros fronts além do apoio a indies. A cidade lançou recentemente o NYC Collegiate Esports Circuit, visando capitalizar os US$ 4 milhões anuais em gastos com turismo relacionados a esports, conforme identificado em seu Relatório de Jogos Digitais de 2021. Paralelamente, programas educacionais em instituições como o NYU Game Center, o City College of New York (CCNY) e a New York Film Academy (NYFA) são fundamentais para construir um pipeline de talentos. Harold Goldberg, do New York Video Game Critics Circle, destaca a importância do apoio da cidade a programas como “Playing with Purpose”, que oferece estágios para jovens em situação de vulnerabilidade.

A expectativa em torno do prefeito Zohran Mamdani e a questão da acessibilidade

Com a posse do prefeito Zohran Mamdani, conhecido por sua paixão por jogos como Sim City 3000 e FIFA 2003, há uma expectativa renovada. No entanto, a burocracia ainda está em fase de transição, com o novo comissário do MOME, Rafael Espinal, assumindo o cargo recentemente. Apesar da falta de comunicados oficiais, Jones-Harvey está otimista, acreditando que o trabalho do MOME está alinhado com a ênfase de Mamdani em tornar a cidade mais acessível. “Se pudermos tornar Nova York mais acessível e tornar o design de jogos em Nova York mais atraente e acessível, as pessoas vão projetar jogos em Nova York”, afirmou. Mitu Khandaker ecoa o sentimento, identificando oportunidades de financiamento, subsídios e qualquer coisa que torne a permanência na cidade mais acessível como a necessidade mais urgente.

O ecossistema de jogos de Nova York é um mosaico complexo e em expansão, composto por estudantes, coletivos independentes, desenvolvedores de arcade, streamers e entusiastas de esports. O desafio para o MOME e para a nova administração é conciliar essas diversas necessidades com recursos limitados, em uma cidade notoriamente cara. O sucesso não será medido pela riqueza individual dos desenvolvedores, mas pela criação de um ambiente onde a criatividade possa florescer de forma sustentável, transformando Nova York não apenas em um cenário para histórias digitais, mas em um berço genuíno para elas. A trajetória, que começou com uma tentativa de atrair gigantes, redirecionou-se para nutrir a base – e é nessa base diversificada e resiliente que reside o futuro dos jogos na cidade que nunca dorme.

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