Reino Unido ameaça bloquear compra da Warner pela Paramount

Secretária Lisa Nandy sinaliza intervenção no megacontrato que uniria Warner, Paramount e CNN sob risco à pluralidade jornalística.

Fusão de US$ 111 bilhões entre Warner e Paramount pode ser barrada por reguladores britânicos.
Destaques
  • O Reino Unido pode bloquear a fusão de US$ 111 bilhões entre Warner Bros. Discovery e Paramount.
  • Lisa Nandy quer garantir pluralidade na propriedade de mídia e independência jornalística.
  • A CNN é o principal ponto de tensão por seu histórico editorial crítico ao governo Trump.

A aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramountaaaa/Skydance Media, avaliada em impressionantes US$ 111 bilhões (aproximadamente R$ 578,5 bilhões), pode ter seu desfecho longe de ser uma formalidade. Depois de enfrentar escrutínio na União Europeia, o processo agora corre o risco de ser bloqueado ou substancialmente alterado pelo Reino Unido. A secretária de Cultura britânica, Lisa Nandy, sinalizou ao Parlamento que a intervenção do governo é provável, colocando em xeque a criação de um dos maiores conglomerados de mídia e entretenimento do planeta. O cerne da questão não é apenas o valor da transação, mas o impacto na pluralidade da informação e na concorrência em um mercado já dominado por gigantes.

A mega-operação, que uniria franquias colossais como Harry Potter, DC Comics, Game of Thrones, Star Trek e Missão: Impossível sob o mesmo guarda-chuva, carrega um histórico complexo. A fusão original que criou a Warner Bros. Discovery, sob o comando de David Zaslav, gerou uma dívida astronômica de cerca de US$ 32,46 bilhões. A tentativa desesperada de cortar custos incluiu a remoção de conteúdos para evitar pagamentos de residuais e a venda de partes do negócio. A Netflix chegou a oferecer US$ 82,7 bilhões pelos estúdios e pelo HBO Max, mas a Paramount, apoiada por David Ellison e seu pai Larry (cofundador da Oracle e aliado de Donald Trump), conseguiu superar a oferta em uma negociação que contou com forte pressão política da Casa Branca para que o negócio fosse fechado com aliados.

O ponto crítico: a CNN e o controle da narrativa jornalística

Se a vasta biblioteca de propriedades intelectuais é o carro-chefe do acordo, a inclusão da CNN no pacote é o elemento que acendeu todos os alertas dos reguladores, especialmente no Reino Unido. Enquanto a Paramount, sob a nova gestão, já demonstrou disposição para alinhar sua linha editorial ao governo Trump — resultando no fim do Late Show com Stephen Colbert na CBS —, a CNN sempre teve uma postura editorial crítica à administração republicana.

O governo americano, por meio da FCC, já vem utilizando seu poder regulatório para pressionar emissoras como a Disney, ameaçando revisar licenças de transmissão. Nesse contexto, a transferência do controle da CNN para Larry Ellison, um aliado político de Trump, é vista por analistas e autoridades como um risco à independência jornalística. O temor é que a rede de notícias perca seu viés editorial crítico, repetindo o que ocorreu com o Washington Post, que sob Jeff Bezos passou a restringir a opinião de seus próprios colunistas. A secretária Lisa Nandy foi clara ao afirmar que a intervenção visa “garantir suficiente pluralidade na propriedade de companhias de mídia” e a “manutenção de pluralidade em visões jornalísticas” no país.

Pressão regulatória em duas frentes: Reino Unido e União Europeia

O governo britânico não está sozinho na desconfiança. A Comissão Europeia já havia iniciado um processo de investigação e exigiu compromissos antitruste da Paramount para aprovar a fusão no bloco. A Paramount já concordou em acatar uma série de “remédios”, embora os detalhes não tenham sido divulgados publicamente. Além disso, a participação do Fundo Público de Investimentos (PIF) da Arábia Saudita na transação também está sob escrutínio regulatório.

No Reino Unido, a situação é particularmente delicada. A Paramount já controla o Channel 5, enquanto a Warner possui o TLC e versões locais da CNN e do Cartoon Network, além dos serviços de streaming HBO Max e Paramount+. A concentração desses veículos nas mãos de um único grupo é o que preocupa a ministra. O termo usado por Nandy, “minded to” (propensa a intervir), é o primeiro passo formal antes da abertura de uma investigação completa, que pode ser conduzida pelo OFCOM (órgão regulador de mídia) e pela CMA (autoridade de concorrência), que já iniciaram um processo próprio em abril de 2026.

Qual o possível desfecho para a compra da Warner pela Paramount?

O cenário mais provável, caso a intervenção britânica e europeia prossiga, não é o cancelamento total do negócio, mas a imposição de condições severas. Isso pode incluir a venda forçada de determinados ativos, como a CNN, o Canal 5 ou o TLC, para reduzir a concentração de mídia no mercado local. A Paramount já demonstrou, no Brasil, que buscará aprovação sem restrições, argumentando ao CADE que não pretende vender canais esportivos como a TNT Sports. No entanto, a realidade no Velho Mundo é diferente: a pressão política e antitruste pode forçar a empresa a abrir mão de algumas de suas joias jornalísticas para ver o negócio bilionário consumado.

Enquanto as autoridades britânicas e europeias ampliam suas investigações, o futuro deste megaconglomerado de entretenimento permanece incerto. O que está em jogo vai além de franquias de cinema e séries de streaming; a disputa envolve o controle da narrativa e a saúde democrática da informação em um dos maiores mercados de mídia do mundo.

Compartilhar este artigo
Canal oficial de conteúdo do portal Overcentral. A Equipe Central produz notícias, guias e análises com foco em credibilidade e relevância, garantindo que você receba o melhor conteúdo editorial diariamente.