Rússia e China vetam resolução da ONU para reabertura do Estreito de Ormuz

Em uma decisão com profundas implicações para a segurança energética global e a geopolítica do Oriente Médio, Rússia e China exerceram seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, bloqueando uma resolução que pedia a coordenação de esforços defensivos para reabrir o estratégico Estreito de Ormuz. A proposta, apresentada pelo Bahrein e apoiada pelos Estados Unidos, obteve 11 votos a favor, mas foi derrubada pela oposição de dois dos cinco membros permanentes do órgão. O veto ocorre em meio a uma crise que já dura seis semanas, na qual o Irã mantém o fechamento da principal via navegável para exportações de petróleo e gás natural liquefeito, provocando a disparada dos preços da energia e tensões militares crescentes. Este artigo analisa detalhadamente o veto, as motivações geopolíticas por trás dele, as ameaças iminentes feitas pelo então presidente dos EUA, Donald Trump, e as consequências econômicas e humanitárias do bloqueio de um canal que transporta cerca de um quinto do petróleo mundial.

O Veto e o Contexto da Votação

A votação no Conselho de Segurança das Nações Unidas foi o desfecho de dias de intensas negociações e significativa pressão diplomática exercida por várias nações do Golfo Pérsico, ansiosas para restaurar a livre navegação pelo estreito. O texto da resolução, uma versão suavizada de uma proposta inicial mais contundente, incentivava os países a “coordenar esforços, de natureza defensiva, proporcionais às circunstâncias”, com o objetivo de garantir a segurança marítima na região. A tentativa de amenizar a linguagem, removendo menções explícitas à autorização do uso da força, foi um esforço estratégico do Bahrein para evitar os vetos que, no fim, se materializaram.

A sessão do Conselho ocorreu em um momento de extrema urgência, cerca de oito horas antes de um prazo final imposto unilateralmente pelo então presidente americano, Donald Trump. Ele havia exigido que o Irã reabrisse o Estreito de Ormuz até às 20h de terça-feira (horário local), ameaçando ordenar ataques aéreos contra infraestrutura civil iraniana em caso de descumprimento. O veto da Rússia e da China, portanto, não foi apenas um ato de discordância política, mas uma intervenção direta em um cenário de ultimato militar.

A Posição dos Estados Unidos e a Retórica da Crise

Imediatamente após a derrota da resolução, o embaixador dos Estados Unidos na ONU na época, Mike Waltz, discursou de maneira contundente e ameaçadora. Ele comparou diretamente o bloqueio do Estreito de Ormuz à crise de reféns americanos em Teerã, em 1979, afirmando que “o primeiro ato do regime iraniano foi fazer dezenas de americanos reféns”. Em seguida, declarou: “Agora, está fazendo do Estreito de Ormuz um refém — e com isso, tentando fazer da economia mundial um refém. Bem, colegas, este pode ser o seu último ato. Veremos.”

Essa fala refletia a postura maximalista da administração Trump, que via o conflito não apenas como uma disputa regional, mas como um choque existencial com a República Islâmica. A retórica foi acompanhada por ações concretas; os EUA, em conjunto com Israel, já haviam conduzido ataques que deram início à guerra aberta contra o Irã no final de fevereiro, evento que precipitou o bloqueio iraniano do estreito como medida de retaliação. A votação fracassada na ONU deixou claro que Washington e seus aliados não teriam um mandato formal internacional para uma ação coordenada, embora isso não impedisse a possibilidade de atos unilaterais.

A Justificativa do Veto Russo e Chinês

A Rússia, um aliado histórico e estratégico do Irã, havia sinalizado sua oposição dias antes da votação. O ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, argumentou que a aprovação da resolução destruiria “chances muito frágeis de negociações”, indicando que Moscou preferia uma solução diplomática e via a medida como um aval para a escalada militar. No plenário do Conselho de Segurança, o embaixador russo Vasily Nebenzya foi mais direto e detalhado em sua crítica.

Nebenzya afirmou que a resolução, mesmo em sua forma diluída, criaria um “precedente perigoso” e concederia uma “carta branca” para a continuação da agressão e da escalada contra o Irã. Ele conectou explicitamente sua preocupação com as declarações públicas de Trump: “Especialmente em um momento em que ouvimos declarações do presidente dos EUA sobre a prontidão para destruir o Irã se o Estreito de Ormuz não for aberto.” Para a Rússia, o veto foi um movimento para proteger seu parceiro regional de uma potencial ação militar legitimada pelo órgão de segurança internacional, além de um claro posicionamento contra a influência americana no Oriente Médio.

A China, por sua vez, ao lado da Rússia, também exerceu seu veto. Embora sua argumentação pública tenha sido menos explícita, sua posição é guiada por princípios de não-intervenção e por seu interesse central na estabilidade do fornecimento energético. Como o maior importador de petróleo do mundo, a China depende criticamente do fluxo seguro através de rotas como o Estreito de Ormuz. No entanto, Pequim tradicionalmente se opõe a resoluções que possam autorizar o uso da força sem o explícito consentimento do Estado soberano envolvido, no caso, o Irã. O veto chinês reflete essa doutrina, bem como sua aliança estratégica em ascensão com a Rússia e seu relacionamento comercial importante com o Irã.

O Impacto Econômico e Energético do Bloqueio

O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã desde o final de fevereiro provocou um choque imediato nos mercados globais de energia. Esta via navegável, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e aos oceanos, é um gargalo crítico para o comércio mundial de hidrocarbonetos, normalmente transportando aproximadamente 20% das exportações globais de petróleo e uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL). A interrupção forçada desse fluxo causou uma disparada abrupta nos preços do petróleo e do gás, impactando economias em todo o planeta.

Os efeitos foram sentidos de maneira mais aguda pelas nações importadoras de energia, especialmente aquelas em desenvolvimento com menos resiliência financeira. O Secretário-Geral da ONU na época, António Guterres, havia alertado sobre essa consequência na semana anterior ao veto. Ele defendeu a liberdade de navegação, afirmando de maneira vigorosa que “quando o Estreito de Ormuz é estrangulado, os mais pobres e vulneráveis do mundo não conseguem respirar”. Sua declaração destacou a dimensão humanitária da crise, indo além das questões geopolíticas e de segurança.

Além do impacto no mercado global, o bloqueio intensificou as tensões dentro da própria região do Golfo. O Irã não apenas mantinha o estreito fechado, mas também tinha imposto um sistema de taxas para qualquer navio que tentasse passar e continuava a conduzir ataques contra infraestrutura energética em nações vizinhas, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Essa estratégia de pressão múltipla aumentava o custo da inação para os países árabes sunitas e para a comunidade internacional.

O Papel dos Países do Golfo e a Ameaça de Expansão do Conflito

Diante do agravamento da situação, países como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita chegaram a considerar abertamente a possibilidade de se juntarem à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Relatórios da época, citados pela Bloomberg, indicavam que essa era uma opção real em discussão nos gabinetes de Abu Dhabi e Riade. A semana anterior ao veto foi marcada por um apelo formal dos Emirados Árabes Unidos à ONU para que autorizasse “uma série de medidas — incluindo a força —” com o objetivo de reabrir o Estreito de Ormuz.

A apresentação da resolução pelo Bahrein, um aliado próximo da Arábia Saudita e dos Emirados, foi a materialização desse apelo no âmbito formal do Conselho de Segurança. O fato de o texto ter sido proposto por uma nação árabe, e não por um membro permanente ocidental, foi uma tentativa de lhe conferir maior legitimidade regional. O veto, portanto, foi um revés não apenas para Washington, mas também para os esforços coordenados do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para enfrentar a ameaça iraniana por meio de um mecanismo internacional.

Consequências e Perspectivas Após o Veto

A rejeição da resolução pelo Conselho de Segurança criou um vácuo de autoridade internacional formal para lidar com a crise. Com a ONU incapacitada pela divisão entre suas grandes potências, o caminho para a ação militar unilateral ou por meio de coalizões ad hoc ficou mais aberto. A ameaça explícita de Trump, que em suas redes sociais chegou a declarar que uma “civilização inteira morrerá esta noite” se o Irã não capitulasse, ganhou um novo contexto: ela não seria contida por um consenso diplomático global.

Para o Irã, o veto representou uma significativa vitória diplomática. Ele garantiu um escudo político no Conselho de Segurança, isolando ainda mais os Estados Unidos e seus aliados regionais no âmbito multilateral. No entanto, essa proteção não eliminava o risco de um ataque militar direto americano, que dependia da vontade política de Washington, não de uma resolução da ONU. O regime iraniano se via, assim, em uma posição paradoxal: seguro no papel do Conselho de Segurança, mas sob a mira direta do ultimato mais explícito já feito por um presidente americano em décadas.

Para o mundo, o episódio serviu como um doloroso lembrete da vulnerabilidade das cadeias de abastecimento energético globalizadas a pontos de estrangulamento geográficos e a conflitos regionais. Além disso, evidenciou a paralisia do principal órgão de segurança coletiva do mundo quando os interesses geopolíticos fundamentais de seus membros permanentes entram em conflito direto. O Estreito de Ormuz permaneceu no centro de uma tempestade perfeita, onde energia, estratégia militar e diplomacia de grande poder se chocavam, com as populações mais pobres do mundo, como alertou Guterres, pagando o preço mais alto pela asfixia de uma artéria vital da economia global.

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