Seguro cyber evolui com cláusulas para ataques de IA e deepfake

Com o avanço da IA e deepfakes, seguradoras criam cláusulas específicas e promovem a governança como critério de subscrição.

Relatório revela economia de US$ 1,7 milhão com IA, mas ataques com deepfake exigem novas cláusulas nos seguros cibernéticos.
Destaques
  • Pesquisa indica que IA generativa foi usada em mais de 50% dos ataques recentes contra empresas brasileiras.
  • Prejuízos globais com ataques cibernéticos impulsionados por IA devem chegar a US$ 10,5 trilhões em 2025.
  • Ferramentas de SOAR oferecidas por seguradoras podem reduzir o tempo de resposta a incidentes em até 95%.

O crescimento do uso de inteligência artificial nos processos de segurança cibernética tem gerado uma economia média anual de US$ 1,7 milhão para as empresas, segundo o relatório 2025 EY Global Cybersecurity Leadership Insights. No entanto, a mesma tecnologia que reduz custos também potencializa ataques: uma pesquisa da Manage Engine revela que a IA Generativa já foi utilizada em mais de 50% das ofensivas recentes contra empresas brasileiras. Globalmente, a Cybersecurity Ventures estima que os prejuízos com ataques cibernéticos impulsionados por IA cheguem a US$ 10,5 trilhões em 2025. Esse cenário duplo — benefício e risco — está transformando o mercado de seguros cibernéticos no Brasil, com a criação de cláusulas específicas para cobrir ataques com IA e deepfake.

O impacto da IA nos ataques cibernéticos e a resposta das seguradoras

Enquanto a IA acelera a detecção e resposta a incidentes, ela também torna as ameaças mais sofisticadas. “Muitos hackers utilizam agentes de IA que identificam vulnerabilidades e disparam malwares de forma independente, sem intervenção humana constante”, explica Daniel Nogueira, diretor de tecnologia da Wiz Co. Os deepfakes — vídeos e áudios sintéticos — são usados para enganar executivos em fraudes de identidade, desafiando as apólices tradicionais que cobrem engenharia social. Além disso, há o risco de corrupção dos dados de treinamento de modelos proprietários de IA, criando falhas invisíveis de segurança. Nogueira ressalta que o erro interno, como alucinações e vieses dos sistemas, também pode gerar prejuízos financeiros cobertos pelo seguro.

Diante dessa complexidade, a governança de uso da IA tornou-se um critério relevante na subscrição de apólices. As empresas precisam monitorar o uso não autorizado de ferramentas (Shadow AI), implementar Autenticação de Múltiplos Fatores (MFA) e Gestão de Acessos Privilegiados (PAM), acompanhar a evolução da computação quântica e treinar equipes para identificar phishing gerado por IA. “O fator humano continua sendo o elo mais fraco”, alerta Nogueira.

O que as empresas precisam verificar na apólice de seguro cyber em tempos de IA

Ao contratar ou renovar um seguro cibernético, o executivo da Wiz Co destaca quatro pontos críticos que as empresas devem avaliar:

Reclassificação de engenharia social

Muitas apólices antigas limitam a cobertura para fraudes que envolvem intervenção humana direta. Com o uso de deepfakes (voz e vídeo), as seguradoras estão criando cláusulas específicas. A empresa precisa verificar se a apólice cobre fraudes cometidas por agentes sintéticos ou se exige processos de verificação humana em duas etapas para validar o sinistro.

Cobertura para Shadow AI e erros de modelo

Se um funcionário insere dados sensíveis em uma IA generativa pública e ocorre um vazamento, a seguradora pode alegar negligência grave. É essencial verificar se a apólice cobre vazamentos originados em ferramentas de terceiros (SaaS de IA) e se há cobertura para Erros e Omissões (E&O) caso a IA da própria empresa forneça uma orientação incorreta que cause prejuízo a um cliente.

Manutenção da higiene cibernética como condição de cobertura

As apólices não são mais estáticas; muitas contêm cláusulas de garantia de controle. Se a empresa declarar que usa IA para monitoramento de rede e, no momento do ataque, essa ferramenta estiver desligada ou desatualizada, a seguradora pode recusar o pagamento da indenização. A higiene cibernética torna-se uma condição contratual.

Extensão para danos de reputação

A IA permite ataques de desinformação em massa. Algumas apólices inovadoras já oferecem cobertura para gerenciamento de crise de imagem caso a marca seja alvo de campanhas difamatórias geradas por deepfakes ou bots de IA.

Inovações que as seguradoras estão incorporando às apólices

As seguradoras deixaram de ser meras pagadoras de indenização para se tornarem parceiras tecnológicas, segundo Daniel Nogueira. Entre as inovações, destacam-se:

  • Subscrição em tempo real: as seguradoras usam modelos de IA para analisar o risco das empresas de forma contínua.
  • Resposta automatizada a incidentes: oferecem ferramentas de SOAR (Security Orchestration, Automation and Response) que podem reduzir o tempo de resposta a incidentes em até 95%.
  • Precificação dinâmica: o valor do prêmio (o valor pago pelo segurado) pode variar conforme a postura de segurança da empresa em tempo real.
  • Serviços de prevenção proativa: inclusão de varreduras de vulnerabilidades gratuitas e monitoramento de Deep Web como parte do pacote do seguro.

O que considerar na contratação do seguro cyber

Diante desse cenário, as empresas brasileiras devem avaliar as apólices com atenção redobrada. É fundamental verificar se as cláusulas cobrem especificamente ataques com IA e deepfake, se há exigências de manutenção de controles de segurança (como MFA e PAM) e se a apólice oferece suporte proativo, como monitoramento de vulnerabilidades. A governança interna de IA e o treinamento das equipes são pré-requisitos tanto para a contratação quanto para a validade da cobertura. Como o mercado segurador acompanha a evolução tecnológica, revisar periodicamente as condições da apólice com um corretor especializado é a melhor forma de garantir que a proteção esteja alinhada aos riscos reais.

Compartilhar este artigo
Canal oficial de conteúdo do portal Overcentral. A Equipe Central produz notícias, guias e análises com foco em credibilidade e relevância, garantindo que você receba o melhor conteúdo editorial diariamente.