O Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu não interferir no leilão de capacidade de energia marcado para esta quarta-feira, após análise técnica concluir que um atraso na contratação aumentaria significativamente o risco de blecautes no país. A recomendação dos auditores especializados do tribunal foi enviada ao ministro relator Jorge Oliveira, sustentando que medidas imediatas da corte poderiam comprometer a segurança do sistema elétrico nacional nos próximos anos.
Questionamentos sobre preços-teto não impedem realização do leilão
A decisão do TCU ocorre mesmo após a própria auditoria do tribunal ter identificado fragilidades na metodologia usada pelo Ministério de Minas e Energia para definir os preços-teto do certame. O governo, inicialmente, divulgou valores para termelétricas a gás que foram amplamente criticados por empresas do setor e pelo mercado financeiro. Dois dias depois, em um movimento considerado errático, o ministério de Alexandre Silveira admitiu a necessidade de “correção” e praticamente dobrou os preços, aumentando-os em até 100%.
Alerta técnico sobre risco de insuficiência no sistema elétrico
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apresentou ao TCU um relatório técnico alarmante sobre as consequências de não realizar o leilão. Segundo o órgão, o “risco implícito de insuficiência de oferta de potência” no sistema elétrico brasileiro atingiria 27% já em 2026, saltando para 44,7% em 2027, 74% em 2028 e impressionantes 93% em 2029. Esses números indicam uma situação crítica de desequilíbrio entre oferta e demanda de energia nos horários de pico.
Horário de verão como medida emergencial considerada
Diante do cenário de risco, o ONS chegou a recomendar ao TCU a implementação do horário de verão em 2026 como uma das alternativas para reduzir a pressão sobre o sistema elétrico nos períodos de maior consumo. No entanto, o próprio operador reconheceu que a medida teria “impacto em vários setores econômicos” e não resolveria o problema estrutural de falta de capacidade instalada para atender aos picos noturnos de demanda.
Leilão histórico deve contratar até 20 gigawatts em capacidade
O certame desta quarta-feira promete ser o maior já realizado na história da indústria brasileira de energia, com projeções de que os projetos contratados possam somar até 20 gigawatts em capacidade. Esse volume representa quase o dobro da potência da hidrelétrica de Belo Monte, que tem 11 gigawatts e era, até então, a recordista em volumes contratados em licitações públicas para novos projetos de geração.
Diversificação de fontes no leilão de capacidade
O leilão vai contratar energia de termelétricas a gás natural e carvão mineral, além de projetos de expansão de usinas hidrelétricas existentes. Empresas como Eneva, Âmbar, Petrobras, AXIA Energia, Engie e Copel estão entre as participantes. Na sexta-feira, haverá uma nova rodada do certame, desta vez focada em térmicas movidas a óleo e biodiesel, completando a estratégia do governo para garantir capacidade firme ao sistema.
Crescimento da solar exige termelétricas para pico noturno
A necessidade urgente de contratar mais usinas termelétricas está diretamente relacionada ao rápido crescimento da geração solar fotovoltaica no Brasil, incluindo a disseminação de sistemas de geração distribuída em telhados residenciais e comerciais. Enquanto a solar supre bem a demanda durante o dia, sua geração cai drasticamente no final da tarde, justamente quando o consumo de energia atinge picos devido ao retorno das atividades domésticas e comerciais.
Futuro do armazenamento de energia no Brasil
O governo federal já anunciou planos para realizar, ainda em 2026, um pregão inédito no país para viabilizar projetos de armazenamento de energia com baterias. Essa tecnologia é vista como complementar essencial para a expansão das renováveis intermitentes, como solar e eólica, permitindo guardar o excedente gerado durante o dia para uso nos horários de pico noturno.
A decisão do TCU de não obstruir o leilão, mesmo reconhecendo problemas na formação dos preços, reflete o delicado equilíbrio entre controle de custos para o consumidor e garantia de segurança energética para o país. Os auditores do tribunal optaram por priorizar a prevenção de um colapso no fornecimento, deixando para uma análise posterior a avaliação das metodologias de precificação. O setor elétrico brasileiro enfrenta assim o desafio de expandir sua capacidade com agilidade, enquanto desenvolve soluções tecnológicas que possam reduzir a dependência de termelétricas nos próximos anos.

