A comunidade de Bloodborne continua fervorosa, mesmo mais de uma década após seu lançamento. Eventos como o “Return to Yharnam” e a discussão constante sobre um possível remake ou sequência evidenciam uma demanda insatisfeita por mais conteúdo dentro desse universo de horror cósmico e combate visceral. Enquanto um projeto oficial da FromSoftware parece distante, o espaço foi ocupado por desenvolvedores independentes e projetos fã-made, que capturaram a essência do título de 2015 e reinterpretaram em novas formas. Entre essas obras, um novo destaque está emergendo para 2026: Tombwater, um Soulslike 2D que promete ser a experiência ideal para os fãs de Bloodborne que buscam algo além de um novo playthrough.
O Cenário: A Saudade de Yharnam e o Espaço para Projetos Independentes
O legado de Bloodborne é único. Sua combinação de combate agressivo, atmosfera opressiva e narrativa complexa criou uma experiência que poucos jogos conseguiram replicar. A falta de uma sequência oficial ou mesmo de um remake — um projeto que foi, segundo relatos, negado pela FromSoftware — deixou um vácuo. Essa lacuna, porém, não foi ignorada. A comunidade de desenvolvedores e fãs começou a produzir suas próprias interpretações.
Projetos como o demake Bloodborne PSX e o título independente Yarntown — que transformou Bloodborne em um Zelda-like 2D — demonstraram que a fórmula pode ser adaptada e reinventada com sucesso. Essas experiências mantêm o espírito do original enquanto exploram novas perspectivas e mecânicas. Tombwater surge como o próximo passo nessa linha, um “sucessor espiritual” de Yarntown, mas agora se aprofundando deliberadamente no formato Soulslike, com uma ambientação totalmente nova: o Velho Oeste americano, transformado por uma infecção de horror cósmico.
Tombwater: Um Soulslike 2D no Velho Oeste Corrompido
Desenvolvido pelo estúdio independente Moth Atlas (de Max Mraz, criador de Yarntown) e publicado pela Midwest Games, Tombwater transporta a jogabilidade essencial de um Soulslike — combate difícil, exploração meticulosa, progressão baseada em aprendizado e morte — para um mundo 2D. A narrativa acompanha um pistoleiro que chega à cidade titular, Tombwater, buscando um antigo companheiro que agora é o xerife. A tarefa simples de encontrá-lo rapidamente se transforma em uma jornada de sobrevivência contra uma cidade assolada por uma maldição.
A Atmosfera e Design de Mundo
O primeiro grande acerto de Tombwater é sua ambientação. O Velho Oeste, normalmente associado a um cenário histórico ou de aventura, é mergulhado em uma estética de horror lovecraftiano. A cidade e seus arredores apresentam uma decadência visual marcante: estruturas abandonadas, becos sombrios e uma paisagem árida que gradualmente revela monstros e aberrações. O design de arte em sprite 2D consegue comunicar essa corrupção de forma eficaz, com inimigos que evoluem de bandidos humanos para criaturas com tentículos sanguinolentos surgindo de seus corpos, ou cadáveres de animais reanimados e agressivos.
Sistema de Combate: Velocidade, Armas e a Mecânica Rally
O combate é o núcleo de qualquer Soulslike, e Tombwater se inspira diretamente no ritmo acelerado de Bloodborne. O sistema de Rally — que permite recuperar parte da saúde perdida atacando o inimigo logo após receber um golpe — é presente através de um “charm” (item de equipamento). Esta é uma adição fundamental que incentiva a agressividade, um princípio central da experiência de Bloodborne.
p>O arsenal disponível para o jogador é diversificado e estratégico. Dividido em armas brancas (melee), armas de fogo e “spells” (magias/artefatos), cada categoria oferece opções com funções distintas. Um exemplo prático é uma faca que causa pouco dano, mas recupera rapidamente a quantidade de balas do personagem, ou um revólver que, após alguns acertos, começa a aplicar dano de “freeze” (congelamento) progressivo ao inimigo. Essa variedade incentiva a experimentação constante e a adaptação da abordagem para diferentes tipos de inimigos e situações.
A Relevância das Armas de Fogo
Uma das diferenças mais marcantes em relação a Bloodborne é o tratamento dado às armas de fogo. No título da FromSoftware, os firearms são primariamente ferramentas de parry (interrupção de ataque). Em Tombwater, eles são verdadeiras armas de alto dano. O jogador pode, e frequentemente deve, recorrer a elas para eliminar inimigos de forma mais segura, especialmente em situações onde o combate corpo a corpo é mais perigoso. Grenadas também são parte desse arsenal, oferecendo opções de dano em área. Essa mudança cria um estilo de combate mais versátil, onde o posicionamento e o uso de recursos de longo alcance ganham importância.
Pontos de Atenção no Sistema Defensivo
O sistema defensivo, porém, apresenta algumas limitações. O título não possui um sistema de parry robusto e integrado ao combate. Um charm específico permite defletir balas, mas sua utilidade é situacional. A principal forma de defesa é o dodge (esquiva), que pode apresentar problemas em arenas pequenas ou contra inimigos com ataques amplos. Em alguns cenários, especialmente contra bosses, a falta de espaço para manobra pode levar o jogador a ser emparedado sem muitas opções. Este é um ponto que requer atenção e adaptação da estratégia, focando mais no manejo de distância e uso eficiente das armas de fogo.
A Proposta dos Bosses: Desafio Progressivo e a Importância do NPC Helper
Boss fights são um elemento definidor nos Soulslike, e Tombwater não foge dessa tradição. Os encontros com inimigos principais são variados em design e dificuldade. Alguns podem parecer inicialmente simples, mas frequentemente escondem mecanismos de transformação ou segunda fase — uma referência clara à famosa trope de “two health bars” comum nesses jogos.
Um exemplo do gameplay: um boss inicial, um homem gigantesco e relativamente estático que lança bombas e dispara, pode ser derrotado com facilidade na primeira fase. A surpresa vem quando sua barra de saúde se regenera completamente e ele se transforma em uma criatura monstruosa e muito mais agressiva. Essa mudança exige uma reavaliação completa da tática do jogador.
Outro aspecto estratégico importante é a presença de NPCs que podem ser recrutados para ajudar em determinadas boss fights. Ignorar essa ajuda pode ser um erro caro. Um caso específico mencionado envolve um boss com aparência reminiscente do Cleric Beast de Bloodborne. Um NPC oferece assistência próximo ao ponto de descanso (campfire). A decisão inicial de enfrentar o boss sozinho pode resultar em uma morte rápida — o boss pode eliminar o jogador com apenas dois golpes. A lição aqui é dupla: a importância da paciência, observando os padrões de ataque e esperando a abertura correta, e o valor de usar o NPC como “bait” ou apoio para dividir a atenção do inimigo. Conquistar esse desafio após aprender essas lições oferece a mesma sensação de conquista e euforia que derrotar um boss difícil em Bloodborne.
Exploração e Progressão no Mundo 2D
O mundo de Tombwater é estruturado como uma rede interconectada de áreas, similar aos títulos Souls em 3D, mas com a perspectiva 2D. A exploração é recompensada com a descoberta de novos caminhos, shortcuts (caminhos mais rápidos), itens ocultos e NPCs com narrativas próprias. A progressão do personagem acontece através da aquisição e upgrade de armas, e da seleção e combinação de charms, que funcionam como modificadores de habilidades ou fornecem buffs específicos.
O Sistema de Charms e Customização
O sistema de charms é uma das formas primárias de customizar a build do personagem. Cada charm oferece um efeito diferente, como:
- O charm de Rally, que reproduz a mecânica de recuperação de saúde.
- Charms que aumentam o dano de tipos específicos de arma.
- Charms que reduzem o consumo de recursos (como balas ou energia para spells).
- Charms defensivos, como o que permite defletir projéteis.
A escolha e combinação desses charms permitem que o jogador ajuste sua abordagem para enfrentar diferentes áreas e bosses, criando uma sensação de personalização da experiência.
Tombwater como um Projeto para 2026: O Que Esperar
Com lançamento planejado para 2026, Tombwater se posiciona como uma das experiências independentes mais promissoras para fãs do género. Sua proposta não é apenas ser uma cópia ou adaptação simples, mas uma reinterpretação que mantém os pilares emocionais e mecânicos do Soulslike — desafio, exploração, atmosfera — enquanto introduce elementos novos, como o foco em armas de fogo como ferramenta principal de dano e a ambientação de Velho Oeste corrompido.
Para o jogador que ainda revisita Yharnam anualmente ou que terminou Bloodborne múltiplas vezes, Tombwater oferece uma nova forma de experimentar essas sensações. É um projeto que demonstra como a influência de um título seminal pode inspirar obras derivadas de alta qualidade, capazes de construir suas próprias identidades e oferecer experiências frescas, mesmo dentro de um framework conhecido.
A trajetória de desenvolvedores como Max Mraz (Moth Atlas), que evoluiu do projeto Yarntown para este título mais complexo, também indica um crescimento positivo no cenário de desenvolvimento independente. Tombwater não é apenas um “fan game”; é um Soulslike 2D com ambição profissional, destinado a capturar tanto os fãs do género quanto os jogadores que buscam uma experiência única de horror e ação. Com sua combinação de combate rápido, sistema de armas diversificado bosses desafiantes e uma atmosfera de horror cósmico aplicada a um cenário histórico distinto, o título tem potencial para ser, em 2026, a recomendação principal para quem anseia por mais conteúdo no espírito de Bloodborne.

