A Ubisoft, gigante francesa da publicação de jogos, deu um passo crucial em sua reestruturação estratégica ao nomear dois veteranos da indústria para posições de liderança chave. Julien Bares, com passagens por Tencent e 2K, assume o comando das recém-formadas Casas Criativas 3 e 5, enquanto Thomas Andrén será o gerente geral da nova Rede Criativa da empresa. Essas movimentações não são meras trocas de executivos; elas representam a implementação prática e acelerada do novo modelo operacional anunciado pela empresa no início do ano, que visa combinar agilidade com expertise de classe mundial para enfrentar os desafios de um mercado em constante evolução. A nomeação de perfis com experiência comprovada em gestão de estúdios e operações live service sinaliza uma busca clara por eficiência e foco em gêneros de alto crescimento.
O Novo Modelo Operacional da Ubisoft: Casas Criativas e Rede de Estúdios
Para entender a importância das nomeações de Bares e Andrén, é fundamental compreender a transformação estrutural que a Ubisoft está implementando. Em janeiro, a empresa anunciou a criação de um sistema baseado em Casas Criativas (Creative Houses) e uma Rede Criativa (Creative Network). Este não é apenas um ajuste organizacional, mas uma resposta profunda às mudanças no consumo de jogos e à necessidade de otimizar recursos criativos e financeiros. O modelo visa descentralizar a tomada de decisão criativa, dando mais autonomia a unidades focadas em gêneros específicos, enquanto centraliza a capacidade de produção especializada em uma rede de apoio.
O que são as Casas Criativas?
As Casas Criativas são unidades de desenvolvimento autônomas dentro da Ubisoft, cada uma com um mandato e especialização claros. Elas funcionam como hubs criativos independentes, responsáveis por conceber, desenvolver e operar franquias dentro de seu nicho. A ideia é replicar a agilidade e o foco de um estúdio independente, mas com o respaldo da infraestrutura e dos recursos de uma grande publicadora. Cada Casa é liderada por um gerente geral, que atua como um “CEO interno”, responsável pela estratégia, P&L (lucros e perdas) e cultura daquela unidade. As nomeações recentes preenchem justamente essas vagas de liderança estratégica.
O papel da Rede Criativa
Paralelamente às Casas Criativas, a Ubisoft estabeleceu a Creative Network, descrita como um braço que fornece “capacidade de produção de primeira linha”. Enquanto as Casas definem a visão e a direção dos jogos, a Rede atua como um pool de talentos e recursos técnicos especializados que podem ser alocados conforme a necessidade dos projetos. Ela agrupa estúdios e equipes que possuem expertise em áreas como engine gráfica (como a Snowdrop, da Massive), tecnologia online, QA (controle de qualidade) e arte. Thomas Andrén, nesta posição, será o maestro que orquestra essa colaboração, garantindo que as Casas tenham o suporte necessário para executar suas ambições sem duplicar esforços.
Julien Bares: O Líder das Casas Criativas 3 e 5
A escolha de Julien Bares para liderar duas Casas Criativas simultaneamente é um indicativo do peso que a Ubisoft deposita em sua experiência. Bares não é um novato na empresa; ele possui um histórico de oito anos como produtor na Ubisoft, o que lhe dá um entendimento íntimo da cultura e dos processos internos. No entanto, o que torna sua nomeação particularmente estratégica é a vasta experiência adquirida fora do ecossistema Ubisoft, especialmente em mercados e modelos de negócio críticos para o futuro da empresa.
Trajetória e Experiência Multifacetada
A carreira de Bares é um mapa da indústria global moderna. Após sua primeira passagem pela Ubisoft, ele assumiu o cargo de gerente geral da 2K China por quase nove anos, uma posição que exigiu conhecimento profundo do mercado asiático e das operações de desenvolvimento local. Em seguida, tornou-se Vice-Presidente da Tencent Games, uma das maiores empresas de jogos do mundo, onde certamente se aprofundou em estratégias de investimento, live service e mobile gaming. Além disso, seu envolvimento em conselhos de administração de estúdios como Splash Damage, Tequila Works, Don’t Nod e Sharkmob lhe proporcionou uma visão panorâmica de diferentes filosofias de criação e gestão. Este conjunto de habilidades é exatamente o que a Ubisoft precisa para revitalizar suas operações em áreas de alta competição.
O Desafio das Casas 3 e 5
Bares não está assumindo qualquer unidade. As Casas Criativas 3 e 5 têm focos bem definidos e desafiadores:
- Casa Criativa 3: Foco em jogos live service. Este é o coração da retenção de jogadores e da receita recorrente em modelos como free-to-play. Exige uma compreensão de metas sazonais, eventos, economia do jogo, balanceamento e engajamento de comunidade a longo prazo.
- Casa Criativa 5: Foco em jogos mobile e casual. Este é o mercado de maior alcance global, dominado por títulos hiper-otimizados para sessões curtas e monetização via microtransações. Requer conhecimento de plataformas (iOS, Android), ASO (App Store Optimization) e design para um público amplo.
Liderar ambas significa criar sinergia entre a operação contínua de um live service e o desenvolvimento ágil para mobile, possivelmente conectando universos ou compartilhando tecnologias de backend. Sua declaração sobre “combinar tecnologia poderosa e colaboração inteligente” aponta para essa integração.
Thomas Andrén: O Gerente Geral da Rede Criativa
Enquanto Bares comanda as frentes de criação específicas, Thomas Andrén assume uma função de suporte e amplificação. A posição de Gerente Geral da Creative Network é fundamental para o modelo funcionar. Sem uma coordenação eficiente, as Casas Criativas poderiam competir pelos mesmos recursos internos, criando gargalos e ineficiências. Andrén chega com um perfil mais voltado para gestão de operações regionais e tecnologia, complementando a expertise de mercado de Bares.
Histórico em Gestão de Estúdios e Tecnologia
Andrén ingressou na Ubisoft em outubro de 2021 como diretor administrativo do estúdio Massive em Malmö, Suécia, o criador de The Division e guardião da engine Snowdrop. Dois anos depois, sua responsabilidade cresceu para diretor administrativo regional, supervisionando os negócios da empresa na Suécia, Finlândia e Romênia. Antes da Ubisoft, ele passou cinco anos na Red Bee Media e cinco anos e meio na Ericsson, uma gigante global de telecomunicações e redes. Esta combinação de experiência em gestão de estúdio de jogos e em empresa de infraestrutura de TI de alto nível o posiciona como o arquiteto ideal para uma rede de produção que precisa ser robusta, escalável e eficiente.
Missão Estratégica da Rede
A missão de Andrén vai além de simplesmente alocar pessoas. Ele deve:
- Padronizar e otimizar processos entre os estúdios da rede para ganho de eficiência.
- Garantir a transferência de conhecimento e melhores práticas, especialmente em tecnologias proprietárias como a Snowdrop.
- Atuar como um hub de inovação, permitindo que experimentos técnicos em um estúdio beneficiem todos os outros.
- Suportar “um amplo espectro de mandatos de desenvolvimento”, ou seja, desde projetos AAA até experiências menores e experimentais.
Sua visão de “combinar agilidade com expertise de classe mundial” é o mantra operacional para toda a estrutura.
O Contexto da Reestruturação: Cortes, Cancelamentos e Foco
As nomeações não ocorrem no vácuo. Elas são parte de um plano maior e mais urgente para garantir a saúde financeira e competitiva da Ubisoft. O anúncio do modelo de Casas Criativas em janeiro veio acompanhado de medidas duras, mas necessárias, segundo a visão da liderança. Compreender esse contexto é crucial para avaliar a real dimensão das mudanças.
Economia de €200 Milhões
O objetivo declarado da reestruturação é gerar uma economia de €200 milhões em custos operacionais. Isso envolve uma combinação de:
- Redução de despesas gerais e administrativas.
- Otimização de recursos de marketing.
- Reorganização de equipes para eliminar redundâncias.
- O fechamento de alguns escritórios ou estúdios menores.
Essa economia não é um fim em si mesma, mas um meio para reinvestir em áreas estratégicas como live service, mobile e tecnologias de produção.
Cancelamento de Seis Projetos
Em paralelo, a empresa tomou a decisão de cancelar seis projetos não anunciados. Esta é uma prática comum em reestruturações para “parar de sangrar” e concentrar esforços nos títulos com maior potencial de sucesso. O cancelamento libera desenvolvedores, orçamento e tempo de gestão para as Casas Criativas que permanecem ativas, como as lideradas por Bares. É um sinal claro de que a Ubisoft está priorizando qualidade sobre quantidade e buscando uma execução mais disciplinada.
Vantage Studios e a Parceria com a Tencent
Outro elemento-chave é a Vantage Studios, anteriormente conhecida como Creative House 1. Este é um estúdio subsidiário apoiado pela Tencent, focando em jogos AAA de mundo aberto. A nomeação de Bares, com seu histórico na Tencent, sugere uma ponte estratégica entre a Vantage Studios (Casa 1) e as Casas 3 e 5 que ele lidera. A experiência de Bares em conectar investimento chinês com desenvolvimento ocional é um ativo inestimável nesse novo arranjo.
Análise do Impacto e das Expectativas
Mudanças de liderança em uma empresa do porte da Ubisoft sempre carregam expectativas de mudança de rumo, eficiência e novos resultados. A nomeação de Bares e Andrén não é diferente. Elas refletem uma tentativa de equilibrar a inovação criativa com a gestão operacional de ponta, dois pilares essenciais para sobreviver na indústria atual.
Fortalecimento das Áreas de Crescimento
A Ubisoft está claramente colocando seus melhores talentos de gestão nas áreas que considera fundamentais para o futuro: live service (Casa 3) e mobile/casual (Casa 5). O mercado de jogos como serviço (GaaS) é altamente lucrativo, mas exige uma operação contínua e uma relação profunda com a comunidade. O mercado mobile, por sua vez, é o de maior base de usuários. Ao colocar um único líder com experiência em ambas as frentes (Bares), a empresa busca uma gestão integrada e sinérgica, onde lições de um segmento possam ser aplicadas ao outro.
Otimização de Recursos e Colaboração
A criação da Creative Network sob Andrén é uma resposta ao problema de “silos” que afeta grandes corporações. Em vez de cada estúdio desenvolver sua própria solução para problemas comuns (como ferramentas de animação, servidores ou pipelines de arte), a rede centraliza a expertise e a disponibiliza sob demanda. Isso pode:
- Reduzir custos de desenvolvimento duplicados.
- Acelerar a produção com soluções pré-testadas.
- Garantir padrões de qualidade mais altos e consistentes em todos os projetos da empresa.
O sucesso dessa rede será medido pela sua capacidade de tornar as Casas Criativas mais ágeis e menos dependentes de contratos externos caros.
Desafios Potenciais
Nenhuma reestruturação é isenta de riscos. Alguns desafios que Bares e Andrén podem enfrentar incluem:
- Integração cultural: Unir equipes de diferentes estúdios (como os da rede) e alinhar a cultura das Casas Criativas com a visão corporativa.
- Expectativas de mercado: A pressão por entregar sucessos financeiros imediatos em um ambiente de cortes.
- Concorrência feroz: Nos segmentos de live service e mobile, a Ubisoft compete com gigantes como Epic Games (Fortnite), Activision Blizzard (Call of Duty Mobile), e a própria Tencent.
- Gestão de portfólio dual: Para Bares, equilibrar a atenção e os recursos entre duas Casas com focos distintos.
A declaração do CEO Yves Guillemot sobre a “visão e capacidade de reunir talentos de topo” de ambos indica que a empresa reconhece a complexidade da tarefa.
O Futuro da Ubisoft Sob a Nova Liderança
O modelo de Casas Criativas e Rede de Estúdios, agora com seus líderes definidos, aponta para uma direção específica. A empresa parece estar se movendo para um modelo híbrido que combina a autonomia criativa de estúdios independentes com a eficiência e o poder de fogo de uma grande corporação. O objetivo é claro: criar jogos que ressoem profundamente com os jogadores, mantendo uma operação financeiramente sustentável.
Prioridades Imediatas
Com as estruturas de comando estabelecidas, as prioridades operacionais para Bares (Casas 3 e 5) e Andrén (Rede) devem se concentrar em:
- Estabilização das equipes: Garantir clareza de papéis e direção após um período de mudança.
- Definição de pipelines claros: Como a Rede (Andrén) atenderá às demandas das Casas (Bares).
- Revisão de projetos em andamento: Alinhar os títulos em desenvolvimento com as novas estratégias de live service e mobile.
- Fortalecimento da colaboração: Entre a Vantage Studios (Casa 1, Tencent) e as outras Casas.
Oportunidades de Longo Prazo
Se bem executado, este novo capítulo pode permitir que a Ubisoft:
- Desenvolva franquias live service mais resilientes com ciclos de vida estendidos.
- Conquiste uma parcela maior do lucrativo mercado mobile com IPs adaptados.
- Crie uma vantagem competitiva através da Creative Network, com tecnologia e processos superiores.
- Atraia e retenha talentos de elite oferecendo ambientes de trabalho focados e bem suportados.
A nomeação de Julien Bares e Thomas Andrén não é o fim da transformação da Ubisoft, mas sim a confirmação de que a empresa está pronta para operar sob seu novo modelo. A combinação de um líder com profundo conhecimento dos mercados asiático e de live service, e outro especializado em orquestrar uma rede de produção de alta tecnologia, cria uma base sólida para os próximos anos. O verdadeiro teste será a capacidade dessas novas estruturas de entregar não apenas eficiência operacional, mas também a inovação criativa e a conexão autêntica com os jogadores que são essenciais para o sucesso no cenário competitivo de 2026 e além. A indústria observará de perto se essa reorganização, que começou com cortes difíceis, conseguirá catalisar uma nova era de jogos marcantes da gigante francesa.

