Fluxo de USDT iraniano cai 94% enquanto Tether falha em congelar US$ 34,6 milhões

Volume de USDT iraniano cai 94%, mas relatório do Senado expõe falha da Tether ao não congelar US$ 34,6 milhões em carteiras sancionadas.

Destaques
  • O fluxo de USDT com origem iraniana despencou 94%, segundo dados da Tether.
  • A Tether deixou de congelar US$ 34,6 milhões em 34 carteiras sancionadas por nove meses.
  • O relatório do Senado dos EUA encaminhou o caso ao Departamento de Justiça para possível investigação.

O mercado de stablecoins enfrenta um momento de escrutínio intenso após a divulgação de que o volume de USDT circulante com origem ou destino iraniano despencou 94%. O dado, apresentado pelo CEO da Tether, Paolo Ardoino, serve como contra-argumento a um relatório do Senado dos Estados Unidos que aponta falhas graves no congelamento de carteiras vinculadas a sanções. O problema central, no entanto, é que o mesmo relatório documenta um caso em que US$ 34,6 milhões em USDT escoaram de carteiras sancionadas sem que a Tether agisse a tempo — expondo uma lacuna concreta entre o discurso de conformidade e a prática operacional da emissora.

O que explica a queda de 94% no fluxo de USDT iraniano?

Ardoino declarou publicamente que a Tether passou a congelar endereços associados ao Irã, em média, quatro semanas antes de as designações oficiais serem emitidas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos EUA ou pelo Escritório Nacional de Combate ao Financiamento do Terrorismo (NBCTF) de Israel. A empresa também afirma que, em 99% dos casos, agiu antes mesmo de a Chainalysis rotular aquelas carteiras como suspeitas. Para sustentar o impacto dessas medidas, o executivo citou a contração de 94% no volume de stablecoins ligadas ao país persa.

O problema é que a Tether não detalhou a metodologia usada para chegar a esse número. Não informou o período de medição, a linha de base anterior, o conjunto exato de endereços monitorados nem o escopo dos ativos considerados. Sem esses parâmetros, a afirmação perde força como prova de eficácia — especialmente diante das evidências concretas de falhas pontuais.

US$ 34,6 milhões em USDT que a Tether não congelou

O relatório “Tethered to Terrorism” (Vinculada ao Terrorismo), produzido pela equipe democrata do Subcomitê Permanente de Investigações do Senado e publicado em 28 de setembro de 2026, analisou 846 carteiras que foram sancionadas ou alvo de apreensão por ligações com o Irã e seus representantes entre junho de 2021 e agosto de 2026. O levantamento revelou que 84% dessas carteiras transacionaram exclusiva ou quase exclusivamente em USDT.

Um dos casos destacados no documento contradiz diretamente a versão da Tether sobre ações antecipadas. Em junho de 2023, o NBCTF de Israel designou 39 carteiras ligadas ao financiador do Hezbollah, Tawfiq Muhammad Sa’id Al-Law. A Tether congelou cinco delas. As outras 34 permaneceram abertas até março de 2024 — um intervalo de nove meses durante o qual mais de US$ 34,6 milhões em USDT deixaram essas carteiras. O fluxo de saída só foi interrompido quando a empresa finalmente agiu, muito depois da designação oficial.

O relatório reconhece que, a partir do final de 2023, a Tether respondeu às designações “em alguns casos”, mas classifica o esforço geral como desigual e inconsistente. O caso das 34 carteiras ilustra que, mesmo quando há conhecimento oficial de sanções, o congelamento pode demorar meses — tempo suficiente para que valores expressivos sejam movimentados para fora do alcance das autoridades.

Congelamentos de 2026: quase US$ 550 milhões em USDT

Em uma divulgação separada, também de 28 de setembro, a Tether informou ter apoiado o congelamento de quase US$ 550 milhões em USDT vinculados ao Irã durante o ano de 2026. O total inclui mais de US$ 344 milhões em dois endereços em abril e mais de US$ 130 milhões em quatro carteiras em julho. Os aproximadamente US$ 76 milhões restantes não foram detalhados pela empresa.

Esses números, embora expressivos, precisam ser lidos com contexto. A TRM Labs estima que o volume total de criptomoedas iraniano foi de US$ 11,4 bilhões em 2024 e US$ 10 bilhões em 2025 — uma queda de cerca de 12% em todo o mercado, não apenas em USDT. A capitalização de mercado da USDT, segundo o CoinGecko, girava em torno de US$ 183 bilhões. A redução de 94% reivindicada pela Tether, portanto, representaria uma mudança drástica no comportamento do ecossistema iraniano, mas o dado isolado carece de comprovação independente.

A diferença entre o volume congelado (US$ 550 milhões) e a queda total de fluxo é um ponto que merece atenção. Se o volume de USDT iraniano realmente caiu 94%, o valor congelado em 2026 representa apenas uma fração do que deixou de circular — o que sugere que a maior parte da contração pode ter ocorrido por outros fatores, como migração para outras stablecoins, métodos alternativos de transferência ou simplesmente redução da atividade econômica.

O encaminhamento ao Tesouro e à Justiça dos EUA

O senador Richard Blumenthal, membro do subcomitê responsável pelo relatório, encaminhou as descobertas aos departamentos de Tesouro e Justiça dos Estados Unidos. O documento pede que as autoridades avaliem possíveis violações da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) e da Lei de Sigilo Bancário (BSA).

O encaminhamento não implica abertura automática de investigação, mas aumenta a pressão regulatória sobre a Tether. A empresa confirmou ter recebido uma carta do subcomitê em junho, mas, até a data de publicação do relatório, não havia respondido. O silêncio institucional diante de um pedido de esclarecimento do Senado alimenta a desconfiança sobre a real capacidade da emissora de monitorar e congelar ativos em conformidade com sanções internacionais.

A situação coloca a Tether em uma posição delicada: de um lado, precisa demonstrar que age proativamente contra o uso ilícito de sua stablecoin; de outro, as evidências de falhas concretas — como os US$ 34,6 milhões não congelados — enfraquecem sua narrativa. Para o mercado brasileiro, que utiliza USDT como principal stablecoin em negociações na Binance, Mercado Bitcoin e outras corretoras, o desfecho desse embate pode ter implicações práticas. Se as autoridades americanas impuserem sanções mais duras ou exigirem mudanças operacionais da Tether, o reflexo na liquidez e na confiança dos usuários será imediato.

A queda de 94% no fluxo iraniano pode ser real, mas o caso das 34 carteiras mostra que números agregados nem sempre contam a história completa. O setor de criptomoedas, que há anos busca legitimidade institucional, observa de perto se a autorregulação será suficiente ou se o braço longo do Tesouro americano entrará em campo.

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