Um caso que expõe os limites da justiça no ambiente digital teve um novo capítulo em fevereiro, quando Evan Baltierra, um ex-fuzileiro naval norte-americano e ex-policial do Aeroporto de Los Angeles, foi preso pela terceira vez. A vítima é uma streamer de World of Warcraft conhecida online como Nalipls, que ele começou a perseguir sistematicamente em 2020. O caso, documentado em autos de prisão e affidavits do FBI obtidos pelo site Aftermath, revela uma escalada de assédio que sobreviveu a condenações judiciais, forçando a criadora de conteúdo a abandonar sua carreira e desaparecer virtualmente.
Da moderação no chat à obsessão fora das telas
A conexão inicial parecia comum no ecossistema das transmissões ao vivo. Baltierra atuava como moderador no chat da Twitch de Nalipls. O primeiro contato pessoal aconteceu em 2019, durante a BlizzCon, convenção anual da Blizzard Entertainment. No entanto, a partir de 2020, o comportamento do ex-moderador mudou radicalmente, transformando-se em uma campanha de perseguição que ultrapassou as fronteiras do jogo. Segundo o auto de prisão de 2022, ele começou a assediar e stalkear a streamer, divulgando suas informações pessoais online, espalhando imagens nuas editadas dela e enviando ameaças diretas a ela, sua família e amigos.
A resposta das plataformas e a escalada do problema
As ações de Baltierra foram tão graves e persistentes que resultaram em múltiplos bans nas plataformas da Blizzard, incluindo World of Warcraft e Battle.net. A empresa de jogos, ciente da ameaça, chegou a contratar segurança adicional para proteger Nalipls em eventos presenciais, conforme detalhado nos documentos de 2022. Apesar dessas medidas, a perseguição continuou, demonstrando a dificuldade de conter um agressor determinado mesmo com a intervenção corporativa. A streamer, que tinha no conteúdo online sua principal fonte de renda, viu-se obrigada a parar de transmitir e reduzir drasticamente sua presença na internet, uma medida extrema de autopreservação.
Condenação, prisão e reincidência
O primeiro ciclo legal do caso terminou com a prisão inicial de Baltierra em 2022, sua declaração de culpabilidade e uma sentença de dois anos de prisão. Ele foi libertado em 2024, mas, de acordo com o FBI, não demorou a violar os termos de sua liberdade condicional. Em dezembro de 2025, Nalipls voltou a contatar as autoridades após começar a receber mensagens de estranhos. Essas pessoas afirmavam ter encontrado seus dados de contato em um post no Reddit que anunciava, falsamente, seu interesse em “conversas picantes” e jogos.
A investigação do FBI que levou à nova prisão
O agente especial do FBI Nicholas Vicencia assumiu o caso e, por meio de intimações judiciais (subpoenas) enviadas ao Reddit e à operadora de telefonia AT&T, rastreou a origem do post malicioso. A investigação revelou que o endereço de IP usado para publicar a mensagem estava vinculado à casa do pai de Baltierra, local onde o ex-policial estava residindo. Além da evidência digital, oficiais da liberdade condicional encontraram em sua residência uma nota manuscrita contendo o número de telefone, endereço e outras informações privadas de Nalipls. “Acredito que Baltierra usou as informações pessoais de N.S. para criar contas online falsas e posts em nome de N.S. para continuar a perseguir e assediar N.S.”, escreveu Vicencia no affidavit de fevereiro.
O impacto psicológico e profissional na vítima
Nos documentos, o agente do FBI descreve o profundo custo emocional pago por Nalipls. Ela tem experimentado “uma grande dose de ansiedade” devido à perseguição contínua, “especialmente por sua atividade continuada depois de ter sido acusado e estar em liberdade condicional”. A streamer também está “temerosa com que outras ações Baltierra possa tomar contra ela ou sua família”. A decisão de se afastar das atividades online, sua principal fonte de sustento, foi uma medida drástica de proteção, ilustrando como o assédio virtual pode destruir carreiras e invadir a vida real de forma irreversível.
O padrão de violência contra criadoras de conteúdo na Twitch
O caso de Nalipls não é uma exceção, mas parte de um padrão preocupante que afeta mulheres na plataforma de streaming. Em março de 2025, três das streamers mais populares da Twitch – Rachel “Valkyrae” Hofstetter, Brittany “Cinna” Watts e Emily “Emiru” Schunk – foram assediadas durante uma transmissão “IRL” (In Real Life). Um homem as seguiu depois de pedir o número de telefone de Schunk e, em seguida, ameaçou matar as mulheres. No mesmo mês, a streamer Kaitlyn “Amouranth” Siragusa foi assaltada a mão armada por três homens em busca de criptomoedas, resultando na prisão de três adolescentes.
Falhas de segurança em eventos mesmo com promessas
Mesmo em ambientes controlados, a violência persegue as criadoras. Meses depois do incidente na rua, Emily “Emiru” Schunk foi agredida durante um encontro com fãs (meet-and-greet) na TwitchCon 2025. Um homem se aproximou da streamer e tentou beijá-la à força. O episódio ocorreu depois que várias mulheres, incluindo Hofstetter e a streamer QTCinderella, haviam desistido de participar do evento por questões de segurança. A Twitch havia prometido “medidas de segurança robustas” antes da convenção, mas o aparato reforçado não foi suficiente para prevenir o ataque.
A resposta institucional e a cultura de impunidade
Após o incidente na TwitchCon, um representante da plataforma afirmou no X (antigo Twitter) que, “de acordo com os protocolos de segurança existentes da TwitchCon, a polícia e a segurança do evento estavam no local e responderam ao incidente”. A empresa também bloqueou o indivíduo de retornar ao local e o baniu indefinidamente da Twitch, tanto online quanto em eventos presenciais, reafirmando sua “tolerância zero para assédio ou atos que comprometam a segurança de nossa comunidade”. No entanto, essas ações reativas, embora necessárias, não abordam a raiz do problema: a frequente sensação de impunidade que perseguidores sentem no espaço digital.
O reconhecimento oficial do risco elevado
O agente do FBI Nicholas Vicencia, em seu affidavit, fez uma observação crucial que vai além do caso específico: “Sei que personalidades online e suas famílias correm alto risco de serem alvo de fãs descontentes e outras personas online”. Esta declaração oficial reconhece a vulnerabilidade única enfrentada por criadores de conteúdo, cuja profissão os expõe a uma audiência global, mas nem sempre lhes oferece proteção equivalente no mundo físico. A linha entre o fã e o obsessor pode ser tênue, e as ferramentas legais muitas vezes correm atrás da tecnologia usada para o assédio.
A prisão de Evan Baltierra em 27 de fevereiro, e sua detenção preventiva aguardando julgamento, com audiência preliminar marcada para 13 de março, representa mais uma batalha em uma guerra longa. O caso serve como um alerta sombrio sobre a persistência do assédio virtual e os desafios de proteger indivíduos quando a ameaça se origina na tela, mas se materializa no medo constante, no abandono profissional e na invasão da privacidade mais básica. A justiça, neste cenário, precisa ser tão ágil e implacável quanto a perseguição que busca conter.

