Capital estrangeiro avança no Brasil com R$ 48 bi em ações enquanto fundos locais vendem

Em um movimento que surpreendeu analistas, o investidor estrangeiro injetou mais de R$ 13 bilhões na bolsa brasileira durante as quatro semanas iniciais do recente conflito no Oriente Médio. Enquanto gestores nacionais adotavam postura defensiva, reduzindo exposição e acumulando caixa diante da instabilidade geopolítica, o capital externo seguiu na direção oposta com força total. Os dados do fluxo à vista mostram que a posição comprada de estrangeiros, que era de R$ 35 bilhões no início das tensões, saltou para R$ 48 bilhões quando a poeira começou a baixar.

O contraste entre o comportamento do investidor local e o gringo

O fenômeno foi analisado em profundidade no Aftermarket do Stock Pickers. Christian Keleti, CEO da Alpha Key, destacou que a magnitude do fluxo permaneceu alta mesmo com uma guerra em curso. “A historinha da América Latina continua, e a magnitude não diminuiu muito”, afirmou Keleti. “Olha, começou a guerra e o gringo continua comprando. Essa é a mensagem.” Para ele, o dado é revelador: o capital externo não recuou, acelerou sua entrada no país em meio ao caos.

O esgotamento do estoque de venda dos fundos independentes locais

Keleti apontou um problema crucial nessa dinâmica. Quem vendeu os papéis adquiridos pelo estrangeiro foi, majoritariamente, a indústria de fundos independentes locais. “A indústria de fundo independente local soma cento e poucos bilhões em ações. Desses 35, 40 bilhões que foram vendidos, fomos nós”, explicou. O receio do gestor é concreto: se houver uma melhora no cenário geopolítico, o investidor estrangeiro deve continuar comprando, mas o local pode não ter mais o mesmo volume para vender. “Meu receio é que se der uma melhorada no geopolítico, o gringo vai continuar comprando e o local não tem mais R$ 35, R$ 40 bilhões para vender.”

Fundamentos fracos ignorados pela entrada maciça de capital externo

A venda dos fundos locais, segundo Keleti, foi disciplinada e justificada por fundamentos econômicos ruins. O gestor descreveu o período como “o pior trimestre de resultado dos últimos anos”, com um cardápio extenso de setores sofrendo. O varejo de vestuário apresentou vendas fracas no quarto trimestre, o varejo de alimentos vendeu abaixo da inflação e as industriais foram pressionadas de ponta a ponta. Empresas como Randon (RAPT4), Fras-le (FRAS3), homebuilders e companhias com dívidas em situação delicada, como CSN (CSNA3), Cosan (CSAN3) e Oncoclínicas (ONCO3), foram citadas como exemplos do cenário desafiador.

A distorção de valuation criada pelo fluxo estrangeiro

“Você via as industriais sofrendo, como poucas vezes eu vi aqui, de A a Z”, disse Keleti. Ele avalia que o fluxo massivo de capital externo distorceu valuations históricos, com bancos negociando acima do patamar que o histórico sustentaria e múltiplos sendo esticados. Essa distorção de preços foi claramente enxergada pelos gestores locais, mas parece ter sido ignorada pelos investidores estrangeiros, que seguiram comprando ativos brasileiros.

A sensibilidade diferente à política monetária do Brasil

A razão central para essa diferença de leitura de mercado foi explicada por Leonardo Linhares, head de Ações da SPX Capital. “O local é muito mais sensível à discussão de política monetária do que o estrangeiro”, afirmou. Enquanto o gestor brasileiro compara o retorno potencial das ações com o rendimento dos títulos públicos atrelados à inflação (NTN-B), encontrando um prêmio de risco historicamente apertado, o investidor estrangeiro muitas vezes chega ao país sem esse referencial local.

O desconhecimento do investidor global sobre instrumentos locais

A anedota contada por Lucas Collazo, apresentador do Stock Pickers, ilustra bem esse abismo de conhecimento. “Tive que soletrar NTNB para um gestor de US$ 5 bilhões porque ele não fazia ideia do que era”, relatou Collazo, descrevendo uma reunião em Nova York. Esse desconhecimento sobre os detalhes da curva de juros brasileira permite que o investidor global avalie o risco do país com outros parâmetros, muitas vezes focados no cenário global de commodities, no ciclo de juros dos EUA e no apetite por risco em mercados emergentes, sem o mesmo peso dado aos fundamentos microeconômicos trimestrais das empresas.

O Brasil como refúgio relativo em um cenário global conturbado

Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased, complementou a análise ao contextualizar o movimento dentro de uma estratégia global. Em um mundo com guerra no Oriente Médio e tensões geopolíticas elevadas, o Brasil aparece para muitos fundos internacionais como um mercado com liquidez, exposição a commodities e uma trajetória de juros que, embora ainda alta, está em ciclo de queda. Essa percepção faz com que o país se destaque frente a outros emergentes que podem estar em situações mais frágeis ou com menos liquidez, atraindo capitais que buscam diversificação e retorno em um ambiente de incerteza.

Os riscos de o mercado local perder a próxima alta expressiva

O cenário descrito pelos gestores aponta para um risco claro: se a melhora do sentimento global coincidir com uma continuidade do fluxo de compras estrangeiras, os fundos locais, já com posições reduzidas, podem ficar sem “estoque” de papéis para vender e, consequentemente, perderiam o bonde de uma eventual alta mais expressiva do mercado. Eles teriam que recomprar papéis a preços mais elevados, pressionando seus desempenhos. Essa dinâmica cria uma assimetria onde o capital internacional, com foco de longo prazo e menos afeito aos ruídos locais de curto prazo, pode se beneficiar de forma desproporcional.

A estratégia defensiva dos gestores brasileiros em meio à distorção

Diante desse quadro, muitos gestores locais adotaram uma postura cautelosa. A estratégia tem sido focar em setores e empresas com fundamentos sólidos, geração de caixa robusta e que não dependam de um cenário macroeconômico imediatamente favorável para prosperar. A seletividade tornou-se a palavra de ordem, evitando seguir o fluxo de compras generalizadas e priorizando a análise bottom-up, mesmo que isso signifique, temporariamente, um desempenho relativo inferior ao do índice amplo, inflado pela entrada de capital externo.

A permanência do fluxo estrangeiro como fator decisivo para 2026

A grande interrogação que paira sobre o mercado é a sustentabilidade desse influxo de capital. Se, por um lado, fatores globais como o fim do ciclo de alta de juros nos EUA e a demanda por commodities podem mantê-lo, por outro, qualquer deterioração nos fundamentos das empresas brasileiras ou uma piora no cenário fiscal do país pode testar a paciência desse investidor. A capacidade do Brasil de entregar reformas estruturais e manter o controle inflacionário será crucial para converter esse fluxo momentâneo em um interesse de portfólio permanente.

O movimento recente evidencia uma desconexão momentânea entre valuation e fundamentos, impulsionada por liquidez global. Enquanto o investidor local se apega aos resultados trimestrais e ao prêmio de risco local, o estrangeiro opera com um manual diferente, priorizando alocação geográfica e visão macro. O desafio para os fundos brasileiros em 2026 será navegar nesse ambiente dual, equilibrando a defesa dos portfólios contra distorções de curto prazo com a necessidade de não ficar de fora de um rally sustentado, caso o otimismo externo se confirme e se estenda no tempo, redefinindo os patamares de valuation do mercado como um todo.

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