O fechamento do Estreito de Ormuz, desencadeado pelo conflito geopolítico no Irã, provocou um terremoto nos portfólios de investidores brasileiros. Em março, os fundos multimercados, que concentram aplicações em diferentes classes de ativos, registraram sua terceira maior queda mensal desde o início da série histórica do índice IHFA da Anbima, em 2007. O canal de transmissão imediato foi o petróleo, commodity que disparou em curtíssimo prazo após o bloqueio da via marítima responsável pela passagem de 20% do óleo cru mundial. A súbita reversão de fluxos financeiros, que antes migravam massivamente para mercados emergentes, expôs a vulnerabilidade de estratégias que surfavam essa onda e gerou perdas simultâneas em juros, moedas e bolsas ao redor do globo.
Disparada do petróleo inverte fluxos e causa perdas históricas em multimercados
O timing do conflito foi considerado particularmente cruel para a indústria de fundos. Antes da escalada das tensões, um fluxo intenso de capital partia de economias desenvolvidas, especialmente dos Estados Unidos, em direção a ativos de mercados emergentes. “Estava todo mundo nessa ponta, surfando esse fluxo vindo para emergentes. A hora que isso vira, de repente, é exatamente o que machuca essa indústria”, explicou Alexandre Aagesen, gestor de portfólio da XP Advisory, no programa Stock Pickers. A reversão ocorreu em velocidade extrema, com o preço do barril explodindo em um curto espaço de tempo e revertendo posições montadas na direção oposta. Segundo Aagesen, a economia é “energia encaixotada”, e com uma matriz energética global ainda 85% baseada em carbono, uma disparada nos preços da energia eleva a inflação mundial e derruba os preços dos ativos financeiros.
Banco Central recua em corte de juros e mercado revisa expectativa para Selic terminal
O choque inflacionário proveniente da alta do petróleo forçou uma mudança brusca na política monetária brasileira. O consenso de mercado, que previa um corte de 50 pontos-base na taxa Selic na reunião do Copom de março, foi frustrado. Diante do novo cenário de pressões de custos, o Banco Central optou por um recuo tático, reduzindo os juros em apenas 25 pontos-base. “O próprio Banco Central olhando e falando: até vou cortar, porque eu tinha me comprometido a cortar essa taxa de juros, mas, dado esse choque inflacionário que estou antevendo, não posso cortar talvez tanto quanto esperava”, analisou Aagesen. Mais do que o tamanho do corte, o mercado passou a se preocupar com a revisão do chamado juro terminal. Projeções que indicavam uma Selic convergindo para 11% ou menos foram abandonadas, com a curva de juros para dois anos subindo aproximadamente 100 pontos-base, sinalizando um piso de juros mais alto e distante.
Juros altos por mais tempo pressionam mercado de crédito e empresas endividadas
O ambiente de juros elevados por um período prolongado agrava um problema que já se desenhava antes do conflito: a tensão no mercado de crédito. Empresas com balanços mais alavancados e estruturas financeiras apertadas enfrentam dificuldades crescentes para rolar dívidas ou captar novos recursos. Casos como o pedido de recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar são vistos como sintomas de uma conjuntura onde a taxa de juros cumpre sua função de desacelerar a economia, mas com efeitos colaterais severos. “Essas histórias podem pipocar mais vezes”, alertou o gestor da XP Advisory. Com taxas médias de empréstimos em patamares elevados, a seletividade por parte de credores e investidores se torna imperativa, marcando um contraste com o período pré-pandemia, quando a Selic a 6% permitia operações com maior margem de segurança.
Plano de paz em 15 pontos dos EUA tenta conter crise mas incerteza persiste
Enquanto os mercados tentam se equilibrar, esforços diplomáticos buscam uma saída para a crise. Relatos da mídia internacional indicam que os Estados Unidos enviaram ao Irã um plano detalhado em 15 pontos visando encerrar o conflito, que incluiria discussões sobre um cessar-fogo temporário de um mês e um acordo nuclear com cláusulas rígidas. A notícia chegou a aliviar momentaneamente as cotações do petróleo, que recuaram mais de 3%, para cerca de US$ 101 o barril. No entanto, a incerteza sobre o desfecho das negociações e a possibilidade de uma escalada mantêm os investidores em estado de alerta máximo, sensíveis a qualquer nova notícia que venha da região.
Petrobras e empresas de energia recalculam projeções diante de cenários voláteis
No front corporativo, a volatilidade extrema obriga as companhias do setor de energia a recalcular constantemente suas projeções. Analistas do Itaú BBA, por exemplo, realizaram exercícios para estimar o potencial de geração de caixa da Petrobras sob diferentes cenários de preço do Brent, commodity que serve de referência para os contratos da estatal. A capacidade de adaptação e a robustez do caixa tornam-se fatores críticos de diferenciação em um ambiente onde o preço do principal insumo da economia global pode oscilar violentamente em função de um único evento geopolítico.
Gestores adotam postura defensiva e reforçam exposição a ativos conservadores
Em resposta ao novo cenário de risco, gestores de portfólio estão realizando ajustes táticos. A XP Advisory, citada na análise, mantém exposição ao crédito, mas adotou uma postura ainda mais conservadora e seletiva. A estratégia reflete um movimento mais amplo no mercado, onde a busca por proteção e liquidez ganha prioridade sobre a busca por retorno. A mensagem clara é que, em um mundo onde um evento no Golfo Pérsico pode derrubar fundos no Brasil em questão de dias, a resiliência do portfólio e a qualidade dos ativos se sobrepõem a qualquer projeção otimista de curto prazo.
O episódio recente serve como um alerta contundente sobre a interconexão dos mercados globais e a velocidade com que choques geopolíticos se transmitem para a economia real e para os portfólios dos investidores. A dependência mundial de rotas marítimas críticas e de uma matriz energética ainda baseada em combustíveis fósseis cria pontos de fragilidade sistêmicos. Enquanto diplomatas negociam nos bastidores e o Banco Central monitora os dados de inflação, a indústria financeira se vê forçada a assimilar uma lição dura: em um mundo multipolar e instável, a maré dos fluxos de capital pode virar muito mais rápido do que a maioria dos modelos de risco é capaz de prever, exigindo não apenas agilidade operacional, mas uma profunda revisão nas premissas de alocação de ativos para os próximos anos.

