Os fundos multimercados, que sofreram fortes baques no início de março, começaram a apresentar sinais de recuperação na última semana. O Índice de Hedge Funds da Anbima (IHFA), que acompanha 277 fundos da classe, registrou alta de 0,60% na segunda-feira, dia 23. Esse movimento ajudou a reduzir a perda acumulada no mês para -3,7%, um alívio em relação aos números mais críticos observados anteriormente. No acumulado do ano até aquela data, o índice ainda estava negativo, em -0,23%, uma queda significativa em relação ao pico de alta de 4,0% registrado em 26 de fevereiro.
Movimento de recuperação segue alívio dos mercados internacionais
A melhora pontual no desempenho dos multimercados está diretamente ligada a um momento de respiro nos mercados globais. A principal causa foi o anúncio do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre negociações para encerrar o conflito com o Irã. Esse movimento gerou otimismo e levou a uma recuperação do Índice Bovespa, à queda do dólar frente ao real e à alta das bolsas internacionais. Além disso, a redução dos juros de longo prazo beneficiou ativos como as NTN-Bs (títulos do Tesouro indexados à inflação) e papéis de empresas, componentes comuns nas carteiras de muitos fundos multimercados e de crédito.
Maioria dos fundos de grande porte ainda registra perdas em março
No entanto, a recuperação não foi uniforme. Um levantamento com 365 fundos multimercados com patrimônio acima de R$ 500 milhões revelou que, até 24 de março, apenas 156 deles não tinham perdas no mês. A grande maioria dos que conseguiram resultados positivos eram fundos de crédito privado, com ganhos de até 3%. Do outro lado, 209 fundos ainda acumulavam perdas em março, com algumas chegando a 15%. No acumulado do ano, a situação é um pouco melhor, com 276 fundos ainda no campo positivo.
Fundos mais arriscados apresentam maiores oscilações
As maiores perdas concentraram-se em fundos com perfil de risco mais elevado, caracterizados por uma volatilidade anual acima de 10%. Esses produtos, por sua natureza, estão sujeitos a oscilações mais bruscas, tanto para baixo quanto para cima. Historicamente, são também os que tendem a se recuperar com mais velocidade quando o cenário de mercado melhora. Especialistas alertam que resgates realizados durante os momentos de queda acentuada podem fazer com que o investidor perca justamente o período de recuperação subsequente.
Especialista aponta que volatilidade elevada deve continuar
Para Sérgio Samuel dos Santos, economista e especialista em fundos, ainda é cedo para afirmar que há uma recuperação consolidada da classe dos multimercados. “No curto prazo, é esperado que a volatilidade permaneça acima da média, com os mercados de risco globais sensíveis ao noticiário e às interpretações sobre eventos recentes”, avalia. Ele cita que a leitura dos desdobramentos geopolíticos e a consistência das informações divulgadas têm influência direta no comportamento dos ativos. O anúncio de um cessar-fogo de curta duração, por exemplo, gerou reação positiva imediata nos mercados, seguida por uma reversão nos dias seguintes.
Recuperação depende da consolidação de tendências claras
Santos afirma que a recuperação mais sustentada dos multimercados tende a estar atrelada à consolidação de tendências mais claras no cenário macroeconômico e geopolítico. Os eventos recentes aumentaram substancialmente o nível de incerteza global. No entanto, os fundos multimercados possuem a vantagem de utilizar uma gama diversificada de instrumentos para ajustar suas posições e buscar retornos mais consistentes, independentemente da direção que o mercado tomar.
Estratégias diferentes, velocidades de recuperação distintas
Dentro do universo dos multimercados, a velocidade de recuperação varia conforme a estratégia. Fundos com alocações mais rígidas, como os balanceados ou os de estratégias restritas, tendem a apresentar uma retomada mais gradual. Por outro lado, estratégias táticas, como os fundos de arbitragem ou os long & short (longos e curtos), geralmente exibem menor volatilidade relativa e maior agilidade para se reposicionar e capturar oportunidades em meio à turbulência.
Capacidade do gestor é fator central para o desempenho
Um ponto destacado pelo especialista é a importância crucial da capacidade do gestor. “Um fator central é a capacidade do gestor de interpretar o cenário e ajustar as posições de forma dinâmica, considerando os possíveis desdobramentos”, explica Santos. A exposição ao risco adotada pela gestão influencia tanto a magnitude das perdas em momentos adversos quanto o potencial de ganho em cenários favoráveis. Alocações mais arriscadas podem levar a uma volatilidade maior, mas também abrem espaço para retomadas mais vigorosas.
Diferenças entre fundos long & short e fundos macro
Santos detalha as características de subclasses específicas. Os fundos long & short, principalmente os de abordagem neutra ao mercado, buscam retorno na diferença de performance entre ativos (como uma carteira de ações versus um índice de referência), o que tende a resultar em uma volatilidade menor. Já nos fundos macro, o desempenho está intimamente ligado ao tipo de tendência macroeconômica identificada e ao horizonte temporal da aposta. “Estratégias com visão de mais longo prazo tendem a absorver melhor oscilações de curto prazo ao longo do tempo”, comenta.
Tomada de decisão enfrenta desafios além da economia
Atualmente, o ambiente de investimento impõe desafios complexos para os gestores de multimercados. A tomada de decisão precisa considerar fatores que vão além dos aspectos puramente econômicos e financeiros, como as dinâmicas geopolíticas ilustradas pela guerra. Santos acredita que, à medida que o nível de incerteza diminuir – seja por uma estabilização ou por uma maior clareza sobre os rumos dos eventos internacionais –, os fundos terão condições mais favoráveis para identificar e seguir tendências de mercado.
No longo prazo, gestores consistentes e com processos robustos têm o potencial de entregar retornos superiores aos do mercado, com a volatilidade sendo diluída ao longo do tempo. É fundamental, porém, que o investidor esteja ciente dos riscos inerentes a essa classe, que incluem as regras específicas do fundo, a eventual utilização de alavancagem (que pode amplificar perdas), a correlação com os outros ativos da sua carteira e, acima de tudo, a adequação do produto ao seu próprio perfil de risco e tolerância a oscilações. Quando bem selecionados e dentro de um portfólio diversificado, os fundos multimercados oferecem exposição a estratégias sofisticadas, acesso a diversos mercados e gestão profissional, elementos que podem contribuir positivamente para a construção de patrimônio.

