A implementação de uma lei que estabelece pagamento mínimo por viagem para trabalhadores de aplicativo em Seattle, nos Estados Unidos, produziu resultados opostos aos esperados. Em vez de aumentar a segurança financeira dos entregadores, a regulamentação reduziu o número de entregas realizadas, aumentou o tempo de espera entre pedidos e elevou significativamente os custos para os consumidores, conforme demonstram estudos recentes.
Estudo revela queda no faturamento dos entregadores mais ativos
Pesquisa concluída em dezembro pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA mostrou que os entregadores mais produtivos passaram a realizar menos entregas mensais após a implementação da lei em janeiro de 2024. A redução no volume de trabalho, combinada com uma queda nas gorjetas dos clientes, neutralizou completamente o efeito do salário-base mais alto garantido pela nova legislação.
Tempo de espera entre entregas aumenta cinco vezes
Os dados operacionais da DoorDash revelam uma deterioração significativa nas condições de trabalho. Em setembro de 2025, os entregadores da plataforma esperavam em média 20 minutos entre cada oferta de entrega, um aumento de quase cinco vezes em comparação com o mesmo período de 2023, antes da entrada em vigor da lei. Este tempo ocioso não remunerado impacta diretamente a renda total dos profissionais.
Custos para consumidores se tornam os mais altos dos Estados Unidos
A política de pagamento mínimo implementada em Seattle transferiu custos significativos para os consumidores. De acordo com levantamento da DoorDash, as taxas médias na cidade se tornaram as mais elevadas do país durante o terceiro trimestre de 2025. O custo médio por pedido foi mais de 3,5 vezes superior ao registrado em outras grandes cidades norte-americanas como Denver, São Francisco e Portland.
Projeto de Lei brasileiro propõe medidas semelhantes
No Brasil, o Projeto de Lei 152/2025, que tramita no Congresso Nacional, apresenta propostas regulatórias similares às adotadas em Seattle. O texto estabelece taxa mínima por corrida, piso salarial de R$ 8,50, seguro contra acidentes, limitação de jornada e contribuição previdenciária para trabalhadores de baixa renda, reacendendo o debate sobre os efeitos práticos dessa regulamentação.
Protestos em São Paulo destacam tensões no setor
Na última quarta-feira, 25, motociclistas que atuam com entregas por aplicativo realizaram protestos coordenados em diversas avenidas da capital paulista. Os manifestantes bloquearam pontos estratégicos da cidade com buzinaços e cartazes, concentrando suas críticas na obrigatoriedade do curso de motofrete e mototáxi, exigido por lei federal desde 2009 mas fiscalizado com maior rigor recentemente.
Profissionais acompanham relatório em tramitação na Câmara
Além da questão dos cursos obrigatórios, os trabalhadores monitoram atentamente a discussão em torno do relatório do deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE) sobre o PL 152/2025. A análise do projeto pela Câmara dos Deputados ocorre em um contexto de crescente pressão por direitos trabalhistas, mas também de preocupação com possíveis efeitos colaterais na renda e no mercado de trabalho.
O caso de Seattle serve como um alerta para legisladores brasileiros, demonstrando que boas intenções regulatórias podem gerar consequências econômicas complexas e não intencionais. A experiência norte-americana sugere que qualquer regulamentação do setor deve considerar cuidadosamente os equilíbrios entre proteção trabalhista, sustentabilidade das plataformas, custos ao consumidor e, principalmente, o impacto real na renda líquida dos profissionais que pretende beneficiar.

