A AMD surpreendeu o mercado ao anunciar, durante a Computex 2026, que sua tecnologia de upscaling baseada em inteligência artificial, o FSR 4.1, não será disponibilizada para as APUs equipadas com arquitetura gráfica RDNA 3.5. A decisão contradiz a lógica comum, já que as GPUs discretas baseadas em RDNA 3 e até mesmo a mais antiga RDNA 2 receberão a atualização, enquanto os processadores Ryzen AI 300 e 400, que integram GPUs RDNA 3.5, ficarão de fora. A medida levanta questionamentos sobre os critérios técnicos e estratégicos da empresa, especialmente em um momento em que os handhelds e notebooks premium apostam justamente nessas APUs para oferecer jogos AAA em mobilidade.
Maio trouxe esperança, junho trouxe a contramão
Em 14 de maio, Jack Huynh, vice-presidente sênior e gerente geral da divisão de computação e gráficos da AMD, anunciou que o FSR 4.1 seria expandido para as arquiteturas RDNA 3 e RDNA 2. As GPUs Radeon RX 7000 (RDNA 3) receberiam o recurso em julho de 2026, enquanto as Radeon RX 6000 (RDNA 2) teriam suporte no início de 2027. Mais de 300 jogos estavam na lista de títulos compatíveis, marcando uma mudança drástica em relação ao FSR 4.0, que era exclusivo da série Radeon RX 9000 (RDNA 4). A notícia foi amplamente celebrada como um aceno da AMD aos usuários de gerações anteriores.
Apenas algumas semanas depois, na Computex 2026, David McAfee, vice-presidente corporativo e gerente geral da divisão de clientes da AMD, derrubou as expectativas. Em entrevista, McAfee afirmou que a empresa “não planeja” levar o FSR 4.1 para as GPUs integradas baseadas em RDNA 3.5. Segundo fontes próximas à decisão, a tendência interna é de que o “não” se confirme. A declaração pegou o setor de surpresa: como uma arquitetura mais recente que a RDNA 3 e a RDNA 2 poderia ficar de fora?
| Arquitetura | FSR 4.1 | Previsão de lançamento | GPUs representativas |
|---|---|---|---|
| RDNA 4 | ✓ | Disponível | Radeon RX 9000 |
| RDNA 3 | ✓ | Julho de 2026 | Radeon RX 7000 |
| RDNA 3.5 | ✗ | Sem planos | Radeon 890M, 880M, 860M, 840M |
| RDNA 2 | ✓ | Início de 2027 | Radeon RX 6000 |
Por que o RDNA 3.5, sendo mais novo, foi excluído?
A explicação técnica reside em um gargalo que afeta especificamente as APUs: a largura de banda da memória. O FSR 4.1 utiliza uma rede neural para realizar o upscaling, o que exige acesso intensivo à memória para processar quadros anteriores, vetores de movimento e os pesos da própria rede. Em uma GPU discreta como a Radeon RX 9070 XT, a largura de banda chega a 640 GB/s. Já nas APUs RDNA 3.5, como as dos processadores Strix Point, Krackan Point e Gorgon Point, a memória (DDR5 ou LPDDR5X) é compartilhada com os núcleos da CPU, oferecendo uma fração dessa largura de banda.
Embora tecnicamente o hardware RDNA 3.5 seja capaz de executar as operações INT8 exigidas pela versão adaptada do FSR 4.1 para arquiteturas sem aceleração FP8 dedicada, o desempenho prático seria comprometido. A falta de largura de banda faria com que o ganho de qualidade de imagem proporcionado pela IA fosse anulado pela latência e pela contenção de acesso à memória. Em cenários de baixa resolução — comuns em handhelds e notebooks com telas de 1080p ou 1200p —, o benefício visual do FSR 4.1 seria menos perceptível do que em monitores 1440p ou 4K, tornando o custo computacional difícil de justificar.
Quem será mais afetado pela decisão?
Os principais prejudicados são os usuários de dispositivos que dependem exclusivamente da GPU integrada RDNA 3.5. A lista inclui toda a linha Ryzen AI 300 (Strix Point, com Radeon 890M e 880M) e Ryzen AI 400 (Krackan Point e Gorgon Point, com Radeon 860M e 840M). Entre os equipamentos mais atingidos estão os consoles portáteis, como o ASUS ROG Ally X, equipado com o Ryzen AI Z2 Extreme e sua GPU Radeon 890M de 16 CUs. O recém-anunciado modelo de 20º aniversário do ROG Ally X20 também usa a mesma configuração. Para esses dispositivos, não há alternativa de GPU discreta — o FSR 3.1 continuará sendo a única opção de upscaling da AMD.
É uma situação peculiar: usuários de placas de vídeo dedicadas Radeon RX 7000 (RDNA 3) e até mesmo da geração anterior RX 6000 (RDNA 2) poderão usufruir do FSR 4.1, enquanto donos de notebooks e handhelds lançados em 2025 e 2026, com hardware mais recente, ficarão sem o recurso. A AMD parece ter optado por priorizar o segmento de GPUs discretas, onde a largura de banda permite que o upscaling neural realmente faça diferença, em detrimento do mercado móvel e de baixa potência.
Decisão ainda não é definitiva, mas a esperança é pequena
McAfee usou o termo “não planejamos”, que não equivale a um “nunca faremos”. O executivo mencionou que a empresa ainda avalia os prós e contras de uma eventual adaptação para RDNA 3.5. No entanto, fontes internas indicam que a balança pende fortemente para o “não”. Enquanto isso, a AMD segue com sua estratégia de estender a vida útil de plataformas antigas: lançou o Ryzen 7 5800X3D 10th Anniversary Edition por US$ 349 e o Ryzen 7 7700X3D por US$ 329, ambos voltados para o soquete AM4, em meio à alta dos preços das memórias DDR5. É um movimento que agrada entusiastas do desktop, mas contrasta com a decisão de deixar os compradores de APUs de última geração sem o principal recurso de upscaling da empresa.
Para os consumidores que adquiriram notebooks ou handhelds com RDNA 3.5, a mensagem é clara: o caminho é continuar usando o FSR 3.1 ou recorrer a soluções de terceiros, como o Lossless Scaling. A AMD ainda pode mudar de ideia, mas, dado o contexto técnico e as declarações oficiais, as expectativas devem ser mantidas sob controle. A fragmentação do suporte entre gerações e segmentos expõe os desafios de se equilibrar inovação em IA com as limitações físicas do hardware integrado.

