Ozempic não previne câncer; ciência ainda não comprova efeito

Estudos recentes indicam que Ozempic pode reduzir risco de câncer, mas especialistas alertam que evidências são insuficientes e há vieses metodológicos.

Apesar de estudos observacionais sugerirem benefício, cientistas alertam que Ozempic ainda não tem comprovação para prevenção de câncer.
Destaques
  • Estudos observacionais apontam redução de risco de câncer, mas especialistas alertam para vieses metodológicos importantes.
  • O epidemiologista Ziyad Al-Aly identificou três vieses críticos que comprometem a interpretação dos resultados.
  • A conclusão atual é que os GLP-1 não parecem elevar o risco geral de câncer, mas prevenção não está comprovada.

O entusiasmo em torno da possibilidade de que o Ozempic e outros medicamentos da classe GLP-1 possam prevenir câncer tem gerado manchetes ao redor do mundo, mas a comunidade científica pede cautela. Embora estudos observacionais recentes apontem para uma redução no risco de alguns tipos de tumor, especialistas em epidemiologia clínica alertam que as evidências atuais são insuficientes para afirmar que Ozempic previne câncer. A hipótese é promissora, mas ainda não passou pelo crivo dos ensaios clínicos randomizados de longo prazo, considerados o padrão ouro da medicina baseada em evidências.

Os números por trás da esperança: o que os estudos observacionais realmente mostram

Uma série de pesquisas publicadas entre 2024 e 2026 alimentou o otimismo. Um estudo de 2024 com mais de 1,6 milhão de pessoas com diabetes tipo 2 registrou taxas menores de 10 entre 13 cânceres associados à obesidade em pacientes que usavam um medicamento GLP-1, quando comparados àqueles que usavam insulina. Já uma pesquisa de 2025 com cerca de 87 mil adultos identificou que as taxas gerais de câncer entre os usuários de GLP-1 eram aproximadamente 17% menores, com reduções mais nítidas nos cânceres endometrial e ovariano, além de um tipo de tumor cerebral chamado meningioma. No entanto, esse mesmo estudo encontrou um risco 38% maior de câncer renal entre os pacientes em uso do medicamento — dado que exige confirmação em estudos maiores.

Outro trabalho, de 2026, acompanhou mais de 110 mil mulheres submetidas a exames de imagem mamária e encontrou risco cerca de 30% menor de câncer de mama entre as usuárias de GLP-1. Em 2024, uma análise com mais de 6.800 pacientes com câncer de cólon mostrou que aproximadamente 16% dos 103 que usavam GLP-1 morreram em cinco anos, contra 37% dos que não usavam o medicamento. Por fim, um trabalho apresentado na reunião anual de 2026 da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) apontou risco de morte 34% menor em seis tipos de câncer para usuários de GLP-1.

Três problemas metodológicos que tornam esses dados enganosos

O epidemiologista Ziyad Al-Aly, do Centro de Epidemiologia Clínica do Sistema de Saúde VA Saint Louis, nos EUA, identificou três vieses críticos que comprometem a interpretação desses resultados. O primeiro é o viés do usuário saudável: pessoas que têm acesso e aderem a medicamentos GLP-1 tendem a ser mais saudáveis, ter maior poder aquisitivo e realizar consultas médicas regulares. Essa vantagem pré-existente, e não o remédio em si, pode ser a responsável pelas menores taxas de câncer observadas.

O segundo problema está na escolha do grupo de comparação. O estudo de 2024, por exemplo, comparou usuários de GLP-1 com pacientes que usavam insulina — um medicamento reservado para casos de diabetes mais avançado, condição que por si só eleva o risco de câncer. Quando a comparação foi feita com usuários de metformina, outro antidiabético de primeira linha, a redução no risco de câncer simplesmente desapareceu. O benefício aparente derivava do grupo de comparação, não do GLP-1.

O terceiro fator é o tempo de acompanhamento. O câncer pode levar décadas para se desenvolver, mas a maioria dos estudos com GLP-1 acompanha pacientes por apenas alguns anos. Em algumas pesquisas, o suposto benefício aparece quase imediatamente após o início do tratamento, o que contradiz a lógica da prevenção. Um medicamento que realmente reduzisse o risco de câncer mostraria seus efeitos de forma gradual, com menos tumores surgindo ao longo do tempo.

Ensaios clínicos randomizados: o padrão ouro ainda não confirma a prevenção

Quando se recorre aos ensaios clínicos randomizados — o tipo de estudo mais robusto para estabelecer causalidade — a história é bem mais discreta. Duas metanálises de 2025, uma reunindo dados de 50 ensaios e outra de 48, encontraram poucas evidências de que os medicamentos GLP-1 elevam ou reduzem o risco de câncer. A limitação desses estudos está no curto período de acompanhamento, geralmente de um a dois anos, e no número insuficiente de casos de câncer registrados para responder à pergunta com precisão. Para testar adequadamente se os GLP-1 afetam o risco de câncer, seriam necessários ensaios com dezenas de milhares de participantes acompanhados por muitos anos. Enquanto isso não ocorre, a hipótese permanece como algo a ser investigado, não como uma conclusão que justifique mudanças de conduta clínica.

Das preocupações iniciais à reavaliação da segurança

Curiosamente, antes da atual onda de otimismo, a direção da preocupação era oposta. Estudos em roedores haviam identificado que o Ozempic provocava tumores nas células C da tireoide, o que levou as autoridades regulatórias dos Estados Unidos a incluir um aviso de caixa preta no medicamento em junho de 2026, recomendando cautela para pessoas com histórico pessoal ou familiar de condições relacionadas. No entanto, estudos posteriores — incluindo uma análise de 2025 com dados de 93 ensaios clínicos — não encontraram associação clara entre os GLP-1 e câncer de tireoide em humanos. Os reguladores europeus chegaram à mesma conclusão em 2023. Para o câncer pancreático, uma análise de 2025 com dados de 62 estudos também não identificou aumento consistente de risco.

O que a ciência pode afirmar com segurança hoje

A conclusão mais sólida que o estado atual da ciência permite é que os medicamentos GLP-1 não parecem elevar o risco geral de câncer. Afirmações mais ambiciosas — de que eles previnem ativamente a doença ou melhoram a sobrevivência após o diagnóstico — seguem sem comprovação. Mesmo que os GLP-1 tenham algum efeito sobre o câncer, não se sabe ainda se ele viria da perda de peso, da melhora metabólica ampla ou de uma ação mais direta sobre inflamação, sistema imunológico ou tumores. Enquanto ensaios clínicos de longa duração não forem concluídos, a relação entre Ozempic e prevenção do câncer continuará sendo uma hipótese interessante, mas não uma verdade estabelecida.

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