Fintechs ignoram seguros e deixam bilhões na mesa

Enquanto fintechs disputam fatias estreitas no crédito, grandes bancos lucram bilhões com seguros sem depender de risco de balanço.

Fintechs ignoram seguros e deixam bilhões na mesa
Destaques
  • Itaú Unibanco lucrou R$ 3,5 bilhões com seguros no segundo trimestre de 2026.
  • No Bradesco, seguros representaram 41% do lucro total, com crescimento de 28,3% no trimestre.
  • A XP Inc. reposicionou seguros como produto estratégico ao lado dos investimentos.

O discurso de inovação no setor financeiro brasileiro frequentemente ignora um dos pilares mais sólidos de rentabilidade dos grandes bancos: o mercado de seguros. Enquanto fintechs disputam fatias cada vez mais estreitas no crédito e nos meios de pagamento, a liderança dessas empresas parece desconhecer o potencial de uma carteira de resultados de seguros. Não se trata de uma aposta secundária, mas de um fluxo de receita recorrente que não depende de risco de balanço — algo que os incumbentes já dominam e que as digitais ainda tratam como um mero item no rodapé do aplicativo.

A maior preocupação no setor hoje é clara: criar linhas de receita para oferecer crédito consignado, cartão de crédito, Pix e contas PJ. O que escapa a essa equação é o seguro atrelado a cada uma dessas operações. Prestamista para crédito, seguro de cartão, seguro Pix, seguro de vida empresarial, patrimonial e de faturamento para máquinas de pagamento — o leque é vasto, mas raramente explorado. Basta entrar na página da maioria das fintechs: seguros muitas vezes não aparece como produto, mas como serviço, enterrado na última aba do menu, abaixo de crédito e cartão.

O tamanho da oportunidade que as fintechs ignoram

Quando se examina o balanço dos grandes bancos brasileiros, o peso dos seguros salta aos olhos. No Itaú Unibanco, o resultado de operações de seguros atingiu quase R$ 3,5 bilhões no segundo trimestre de 2026, com crescimento de 8,4% — superando o ritmo do lucro do banco, que subiu 7,8%. Enquanto o crédito enfrenta inadimplência e consome capital, os seguros entregam receita recorrente sem depender de risco de balanço. Exatamente os produtos que a fintech esconde na última aba do app.

No Banco Bradesco, o braço segurador lucrou R$ 2,9 bilhões no mesmo trimestre, representando 41% do lucro total do banco. Em outras palavras: de cada R$ 10 que o Bradesco ganha, R$ 4 vêm de seguros. O crescimento do setor foi de 28,3% no trimestre, contra 16,2% do banco como um todo. No semestre fechado, foram R$ 5,7 bilhões de lucro, 20,4% acima do ano anterior, com rentabilidade de 22,1%. Um banco que empresta dinheiro para o Brasil inteiro extrai quatro décimos do que ganha de uma operação que não empresta nada.

O mesmo raciocínio se aplica ao Banco do Brasil com a BB Seguros Participações e à Caixa com a Caixa Seguridade Participações. São cifras bilionárias que não exigem alocação de capital de risco e que entram diretamente no caixa. A XP Inc., tradicionalmente uma casa de investimentos, já captou esse movimento. Durante a Expert XP Inc. 2026, a empresa deixou claro que o seguro deixou de ser um produto complementar para ocupar espaço estratégico ao lado dos investimentos. André Lauzana, CEO da XP Inc. Seguridade, resumiu: “A XP é uma casa de investimentos, mas também é uma casa de proteção.”

Por que as fintechs erram ao ignorar seguros?

A resposta está na falta de compreensão sobre como se constrói uma carteira de resultados de seguros. Diferente do crédito, onde o ganho é imediato na originação, o seguro exige dois pilares fundamentais: vendas e renovação. A distribuição pode ocorrer por canais humanos, canais digitais ou seguros embarcados, além dos seguros corporativos. Como bem aponta Alex Körner, especialista no setor: “Não dá para pensar em uma estratégia única de distribuição de seguros. Quais avenidas de oportunidades existem na sua empresa que seguros pode ajudar a rentabilizar?”

Muitas fintechs que iniciam a venda de seguros esperam ver resultados em seis ou doze meses. É um equívoco. O resultado da carteira é composto por dois indicadores: quantidade de clientes e prêmio. Existem produtos que geram volume de clientes, melhorando a principalidade, e outros que geram maior prêmio, e consequentemente maior comissão. De nada adianta ter ambos se a taxa de cancelamento anual for alta. A renovação é o fator crítico — quanto melhor a renovação, maior o resultado acumulado e melhor a posição para negociar profit share com a seguradora.

O que significa, na prática, montar uma carteira de seguros?

Montar uma carteira de resultados de seguros não é saber vender seguros. É saber mantê-los. É entender como eles podem apoiar os resultados da empresa como um todo. Ao contrário do que muitos pensam, a carteira não se monta em um trimestre — ela se acumula. O mesmo vale para o resultado. As fintechs dominaram funil, CAC e conversão, mas a lógica de carteira é outra: estoque, recorrência e renovação.

Os grandes bancos entendem isso há décadas. Enquanto o crédito enfrenta ciclos de inadimplência e exige provisionamento, os seguros funcionam como um colchão de receita previsível. No Brasil, onde a penetração de seguros ainda é baixa em comparação com países desenvolvidos, o potencial de crescimento é ainda maior. Cada novo cliente de conta digital ou cartão é uma oportunidade de embarcar um produto de proteção.

A cesta de limões está parada na última aba do aplicativo. A pergunta que fica é: a fintech quer um limão ou uma limonada? Os números do Itaú, do Bradesco e da XP mostram que o caminho da proteção não é apenas viável — é estratégico. Para quem ainda duvida, vale repetir: resultado de seguros não se faz vendendo uma apólice, mas renovando-a ano após ano. Enquanto as fintechs não incorporarem essa lógica, continuarão deixando bilhões na mesa para quem entende que a verdadeira inovação, às vezes, está em olhar para o que já funciona.

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