A Alliance for Open Media (AOMedia), consórcio responsável pelo codec de vídeo AV1, acaba de definir a especificação final do sucessor. O AV2 Bitstream & Decoding Process Specification chega à versão 1.0.0, marcando o fim de mais de cinco anos de desenvolvimento. A liberação do software de referência AOM Video Model (AVM) também na v1.0.0 confirma que a base técnica está consolidada. A partir de agora, o ecossistema de software e hardware pode iniciar a corrida para levar o AV2 ao usuário final — um processo que, como o AV1 já demonstrou, leva anos.
O que foi definido na especificação AV2 v1.0.0
A especificação publicada em 28 de maio estabelece o formato do bitstream, o processo de decodificação e os perfis suportados. O AVM v1.0.0, liberado na mesma data, serve como implementação de referência e validação da especificação. Com esses dois marcos, o AV2 sai do estágio experimental e se torna um padrão disponível para implementação por qualquer empresa ou desenvolvedor.
O objetivo central de projeto sempre foi reduzir em 40% a largura de banda necessária para transmitir vídeo com a mesma qualidade objetiva do AV1. Os relatórios intermediários de 2025 indicavam ganhos reais de 28% a 30% na métrica PSNR (Relação Sinal-Ruído de Pico) e cerca de 32,6% na métrica perceptual VMAF (Video Multi-Method Assessment Fusion). O quanto esses números evoluíram na versão final depende agora de benchmarks independentes, mas a direção é clara: o AV2 codifica mais informação em menos dados.
Além da eficiência de compressão, a especificação incorpora suporte nativo a aplicações de realidade aumentada e virtual (AR/VR), codificação de múltiplas views com divisão de tela, melhoria na qualidade de screen content (telas de desktop, textos e interfaces) e maior faixa dinâmica de cores. Esses recursos refletem as demandas dos membros do consórcio — YouTube, Netflix, Meta, Google, Apple — que precisam entregar vídeo em resoluções cada vez mais altas e em contextos diversificados.
Por que o AV2 precisa ser royalty-free
O modelo de licenciamento sempre foi o calcanhar de Aquiles dos codecs de vídeo. O H.265/HEVC, por exemplo, acumulou múltiplos pools de patentes que elevaram os custos por dispositivo. Em 2025, fabricantes como Dell e HP passaram a desabilitar intencionalmente os decodificadores HEVC em alguns notebooks — não por limitação de hardware, mas para evitar pagar royalties. O usuário final perdeu funcionalidades como reprodução de vídeo no navegador e efeitos de fundo em videochamadas.
O AV1 nasceu como resposta direta a esse caos. Lançado em 2018, ele provou que um codec aberto e sem royalties poderia ser adotado em escala. Hoje, mais de 75% do catálogo do YouTube (ponderado por tempo de exibição) é entregue em AV1, e cerca de 30% do streaming da Netflix usa o codec. O AV2 segue exatamente a mesma filosofia: qualquer pessoa ou empresa pode implementá-lo sem pagar licenças, desde que respeite a política de patentes da AOMedia.
Vale notar que “royalty-free” não significa imunidade total a litígios. Em março de 2026, a Dolby processou a Snap (controladora do Snapchat) alegando violação de patentes relacionadas a AV1 e HEVC. Empresas que não aderem ao pool de patentes da AOMedia ainda podem ser alvo de ações judiciais. O AV2 carrega o mesmo risco, mas o consórcio reúne gigantes como Amazon, Apple, Cisco, Google, Intel, Meta, Microsoft, Mozilla, Netflix, NVIDIA, Samsung e Tencent em seu conselho operacional — o que cria uma barreira coletiva considerável para litigantes externos.
Software já está em movimento: dav2d e integração antecipada
O trabalho prático de implementação começou antes mesmo da especificação final. Em 2 de maio, a equipe do VideoLAN (criadora do VLC Media Player) disponibilizou o código-fonte do dav2d, um decodificador de AV2 otimizado para CPU. O dav2d é o sucessor natural do dav1d, decodificador de AV1 amplamente usado por sua eficiência. O projeto já declara suporte às arquiteturas x86 (com instruções AVX2 e SSSE3+), ARMv8/v7, RISC-V e PowerPC — cobertura que vai de servidores a sistemas embarcados.
No CES 2026, em janeiro, a VideoLAN demonstrou a reprodução em tempo real de vídeo AV2 no VLC 4 rodando em um notebook comum com processador Intel N100, da série mais básica. Na mesma feira, o Google mostrou um protótipo do Chrome transmitindo vídeo AV2 do YouTube via streaming. Ambos os exemplos provam que a decodificação por software já é viável em hardware modesto, mesmo antes de qualquer aceleração por chip dedicado.
O próximo passo é integrar o dav2d ao FFmpeg, ao Chrome, ao Firefox e a outras plataformas de reprodução. Esse processo de otimização e portabilidade deve levar meses, mas o caminho está aberto.
Quando teremos hardware para AV2? A lição do AV1
A adoção de hardware é o gargalo mais longo. O AV1 teve sua especificação final em 2018. A NVIDIA incluiu decodificação por hardware AV1 na série GeForce RTX 30 em 2020 — dois anos depois. A AMD seguiu com a arquitetura RDNA 2 no mesmo ano. A Intel estreou com codificação e decodificação na linha Arc Alchemist em 2022. A Apple só adicionou suporte nativo ao AV1 no chip A17 Pro do iPhone 15 Pro em 2023 — cinco anos após a especificação.
Para o AV2, a expectativa do mercado é de 18 a 36 meses entre a especificação e os primeiros chips com decodificação dedicada. Isso coloca a janela entre 2028 e 2029 para GPUs, SoCs móveis e processadores de clientes. O timeline abaixo resume os marcos e projeções:
2018 Especificação AV1 v1.0.0 definida Codec aberto e royalty-free da AOMedia 2020 GPU com decodificação HW AV1 NVIDIA RTX 30, AMD RDNA 2 — 2 anos após especificação 2022 Intel Arc com codificação + decodificação HW AV1 Primeira GPU a codificar AV1 em hardware — 4 anos após especificação 2023 Apple A17 Pro com decodificação HW AV1 iPhone 15 Pro — 5 anos após especificação Jan 2026 AV2 Demonstrações de reprodução em tempo real no CES 2026 VLC 4 + Chrome/YouTube rodando em notebook comum Mai 2026 Especificação AV2 v1.0.0 + dav2d liberado Especificação em 28/05; código do decodificador em 02/05 2028–2029 Primeiros chips com decodificação HW AV2 (estimativa) Projeção de 18 a 36 meses após especificação |
Enquanto o hardware não chega, o AV1 continuará sendo o padrão de fato para streaming de alta qualidade em dispositivos modernos. Quando o AV2 finalmente estiver onipresente, o AV1 provavelmente terá assumido o papel que o H.264 ocupa hoje: um codec legado, mas universalmente suportado.
O que a especificação AV2 v1.0.0 significa para o futuro do vídeo
A definição da especificação não muda nada para o usuário hoje. Seu computador não ficará mais rápido e o YouTube não terá qualidade superior amanhã. Mas o marco é relevante por três motivos.
Primeiro, confirma que a evolução da compressão de vídeo não parou. As melhorias do AV2 são reais e mensuráveis — e virão para serviços de streaming, videoconferência, jogos em nuvem e produção de conteúdo.
Segundo, reforça o modelo aberto como alternativa viável ao ecossistema de patentes que travou a adoção do HEVC. O fato de fabricantes como Dell e HP terem desabilitado intencionalmente hardware funcional para evitar royalties mostra que o problema é sistêmico. O AV2, assim como o AV1, oferece um caminho sem esse custo oculto.
Terceiro, o lançamento simultâneo de uma implementação de referência e de um decodificador otimizado (dav2d) acelera o ciclo de adoção. A base de software está pronta. A indústria de hardware já sabe o que precisa implementar. O resto é uma questão de ciclos de projeto e fabless — e, como o AV1 mostrou, leva alguns anos, mas acontece.

