As flores de calêndula, conhecidas por enfeitar jardins e lares brasileiros com sua coloração vibrante, podem estar prestes a ganhar um novo e surpreendente papel na alimentação humana. Um estudo conduzido pela Universidade da Geórgia (UGA), nos Estados Unidos, aponta que a planta é uma promissora fonte de proteína vegetal, com potencial para se tornar um ingrediente funcional na indústria de alimentos. A pesquisa, publicada em abril de 2026 na ACS Publications, revela que a calêndula possui uma concentração de proteína bastante similar à da quinoa, um dos grãos mais celebrados por seu perfil nutricional completo.
Por que a calêndula se destaca como fonte de proteína?
O grande diferencial da calêndula, de acordo com os pesquisadores, está na estabilidade de suas proteínas. Diferentemente de outras fontes vegetais populares, como a ervilha e o grão-de-bico, a proteína extraída da flor mantém suas propriedades mesmo quando submetida a altas temperaturas. Essa característica a torna especialmente interessante para aplicações na panificação e em outros processos que exigem calor, ampliando as possibilidades de uso em produtos industrializados.
Além do teor proteico e da resistência térmica, a calêndula oferece um perfil de aminoácidos que pode tornar seu sabor mais neutro e agradável ao paladar, um obstáculo comum no desenvolvimento de novos ingredientes. A planta também é rica em fibras, cálcio, potássio e ferro, além de possuir propriedades antioxidantes e hidratantes, o que agrega valor nutricional ao seu uso.
O potencial de um recurso desperdiçado
Um dos aspectos mais intrigantes do estudo é o apelo à sustentabilidade. O professor Anand Mohan, principal autor da pesquisa, destaca que toneladas de calêndulas são descartadas anualmente em todo o mundo. “Bilhões de dólares em flores são jogados fora todos os anos. Você consegue imaginar se pudéssemos pegar essas flores e usá-las para fazer comida?”, questiona o pesquisador, em comunicado oficial. A constatação abre um caminho para transformar um resíduo da indústria ornamental em uma matéria-prima valiosa para a alimentação.
Fidele Benimana, primeira autora do estudo e doutoranda em ciência e tecnologia de alimentos na UGA, complementa: “Este estudo destaca o potencial inexplorado das flores comestíveis como ingredientes que podem contribuir não apenas com nutrição, mas também com textura, estabilidade e outras qualidades importantes em aplicações alimentares modernas”.
Consumo seguro e espécies recomendadas
Embora os resultados sejam animadores, os pesquisadores fazem uma ressalva importante para o consumidor: nem toda variedade de calêndula é adequada para o consumo. O estudo alerta que espécies como a “calêndula-do-brejo” e as do gênero Tagetes podem causar problemas estomacais. A espécie utilizada na pesquisa, e considerada segura para ingestão, foi a Calendula officinalis, uma das mais comuns e cultivadas. O caule e as folhas da planta são naturalmente mais amargos, sendo as pétalas a parte mais utilizada na culinária.
O que isso significa para o consumidor brasileiro?
A descoberta abre perspectivas interessantes para o setor de alimentos e, por consequência, para o consumidor que busca alternativas proteicas de origem vegetal. No Brasil, onde a cultura alimentar já incorpora flores como a capuchinha e o hibisco em pratos salgados e sobremesas, a calêndula pode encontrar um mercado receptivo. A possibilidade de utilizar uma flor comum, de baixo custo e alto valor nutricional, representa uma inovação com potencial para influenciar desde a indústria de pães e biscoitos até a produção de suplementos alimentares e proteínas em pó.
Critérios para avaliar novas fontes de proteína vegetal
Para o consumidor interessado em incorporar novas fontes de proteína vegetal na dieta, seja por questões de saúde, sustentabilidade ou economia, alguns critérios são essenciais na hora de avaliar as opções disponíveis no mercado:
- Perfil de aminoácidos: Uma proteína completa contém todos os aminoácidos essenciais que o corpo não produz. Fontes vegetais geralmente precisam ser combinadas para atingir esse perfil.
- Digestibilidade: A forma como o organismo consegue quebrar e absorver a proteína é um fator crucial para sua eficiência nutricional.
- Processamento e aditivos: Produtos ultraprocessados podem adicionar sódio, gorduras e açúcares em excesso. Verifique o rótulo para garantir que a proteína vegetal é o ingrediente principal e não um aditivo.
- Origem e sustentabilidade: Prefira fornecedores que demonstrem práticas agrícolas responsáveis e rastreabilidade, garantindo um produto mais limpo e ético.
Estudos como o da calêndula reforçam a importância de olhar para fontes não convencionais de nutrição. Para o setor de alimentos e para o consumidor final, a inovação reside em transformar o que antes era um resíduo em um ingrediente funcional, seguro e acessível, ampliando as possibilidades de uma alimentação mais diversificada e sustentável.

