A trajetória da Energisa, hoje uma holding avaliada em R$ 25 bilhões na Bolsa de Valores, é indissociável da figura de seu fundador, Ivan Botelho. Mineiro de Leopoldina, Botelho herdou não apenas um sobrenome, mas um impulso pioneiro de uma família que ajudou a construir a história da eletricidade no interior do Brasil. Formado como engenheiro com passagem pelo exterior, ele retornou ao país determinado a aplicar com pragmatismo seu conhecimento, fundando o que se tornaria um dos maiores grupos do setor elétrico nacional.
Estratégia meticulosa e ousadia definem aquisição histórica
O ponto de virada que transformou a Energisa de uma empresa regional em uma potência nacional ocorreu em 5 de julho de 2013. Em uma sala sem janelas no subsolo de um hotel cinco estrelas em São Paulo, realizava-se a assembleia de credores do Grupo Rede, um conglomerado em recuperação judicial. No local, a tensão era palpável, especialmente após a saída barulhenta da CPFL, uma das favoritas. A sala estava repleta de executivos, advogados e representantes do setor, divididos entre atordoados e ansiosos, enquanto o embate pelo controle das distribuidoras do Rede se definia.
Proposta da Energisa surpreende credores e concorrentes
À medida que os votos dos credores eram declarados em voz alta, o inesperado se concretizou. A proposta da Energisa, considerada a “azarão” do leilão, foi aprovada. A companhia, comandada na operação por Ricardo e Maurício Botelho, Claudio Brandão e Alexandre Nogueira, desbancou gigantes do setor. A CPFL e a Equatorial, que juntas faturavam 6,5 vezes mais que a Energisa na época, viram a concorrência vencer com uma estratégia considerada mais vantajosa para os credores.
Plano financeiro ofereceu menor desconto na dívida
Maurício Botelho, um dos elaboradores da proposta financeira, explicou a vitória. “Oferecemos um desconto de 75% na dívida, o que foi mais vantajoso em comparação com a concorrência, que ofereceu 85% de desconto”, resumiu. O argumento apresentado à Justiça foi direto: uma proposta que colocava mais dinheiro no bolso dos detentores da dívida era melhor para os credores e para a sociedade como um todo. A oferta total de aquisição foi de R$ 3,2 bilhões, comprometendo-se a pagar R$ 1,95 bilhão aos credores e investir outros R$ 1,1 bilhão nas distribuidoras combalidas.
Financiamento da operação elevou endividamento do grupo
Para financiar as obrigações do plano de recuperação judicial, a Energisa captou R$ 1,5 bilhão em debêntures. Esse movimento elevou significativamente o endividamento da companhia, com a relação dívida líquida/EBITDA atingindo 3,1 vezes na época, um nível considerado alto. A operação, no entanto, era vista como um investimento estratégico essencial para a expansão e consolidação no mercado.
Desafio pós-aquisição exigiu aprovação da ANEEL e diagnóstico extenso
A vitória na assembleia foi apenas o primeiro passo. A nova gestora precisou lidar imediatamente com um grupo de credores insatisfeitos que entraram com recursos no Tribunal de Justiça de São Paulo, adicionando complexidade ao processo. Paralelamente, era fundamental conquistar a confiança e a aprovação da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). A agência exigia um plano de recuperação robusto, que fosse além das questões financeiras.
Diagnóstico de 6.000 páginas garante aval do regulador
A Energisa mergulhou a fundo nas operações das companhias adquiridas. Após 90 dias de trabalho intenso, a equipe apresentou à ANEEL um diagnóstico detalhado de impressionantes 6.000 páginas. Esse documento minucioso mapeou todos os problemas e delineou um plano claro para a recuperação operacional das distribuidoras. O esforço foi recompensado com a aprovação da agência reguladora, um marco crucial para o sucesso da operação. Maurício Botelho destacou a importância de um prazo realista: o plano permitia melhorar os indicadores de qualidade ao longo de quatro anos. “Precisávamos de tempo para consertar os problemas que encontramos”, afirmou.
Operação transforma panorama da distribuição de energia no Brasil
A aquisição do Grupo Rede pela Energisa se consolidou como uma das operações mais significativas do setor elétrico brasileiro. Mais do que uma simples compra de ativos, a transação mudou o panorama da distribuição de energia no país, sinalizando a capacidade da Energisa de lidar com desafios complexos de grande escala. A operação catapultou o grupo para um novo patamar, dando-lhe a massa crítica e a capilaridade necessárias para competir de igual para igual com as históricas gigantes do setor.
A história dessa aquisição, assim como a trajetória de Ivan Botelho, é narrada com detalhes no livro “Ave Luz! – A jornada da Energia para o futuro”, baseado em depoimentos do fundador ao jornalista Plínio Fraga. Aos 92 anos, Botelho personifica a fusão entre o homem e a empresa, uma figura cuja visão pragmática e pioneira construiu, linha a linha, um impessoal que hoje ilumina milhões de lares e impulsiona a economia brasileira, lembrando que as maiores conquistas muitas vezes começam com a coragem de desafiar os favoritos.

