Uma disputa pelo controle das candidaturas ao Senado em 2026 divide o Partido Liberal. Diretórios estaduais da sigla começaram a boicotar nomes indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, priorizando alianças locais e nomes alinhados à cúpula partidária. O conflito, que já se espalha por ao menos seis estados, expõe uma fratura entre a ala bolsonarista e setores do partido que buscam autonomia e novos arranjos políticos para as eleições.
Roraima rejeita transferência de aliado de Bolsonaro
O caso mais recente ocorreu em Roraima. O deputado federal Hélio Lopes, um dos principais aliados de Bolsonaro, transferiu seu domicílio eleitoral do Rio de Janeiro para Boa Vista com o objetivo de concorrer ao Senado. A reação do diretório estadual do PL foi imediata e pública. Em nota, a legenda afirmou ter recebido a decisão “com surpresa” e de forma “unilateral”, sem comunicação prévia. O movimento foi visto como um recado claro contra candidaturas patrocinadas pelo ex-presidente, já que a direção local já trabalhava com outro desenho eleitoral, que incluía o prefeito de Boa Vista, Arthur Henrique (MDB).
Santa Catarina vive impasse com a entrada de Carlos Bolsonaro
Em Santa Catarina, a crise se desenrola em torno da formação de uma chapa com a Federação União Brasil–PP. O acordo inicial previa a candidatura da deputada federal Carol De Toni ao Senado e a reeleição do senador Esperidião Amin. A entrada de Carlos Bolsonaro na disputa, no entanto, embaralhou as negociações e forçou o PL a encaminhar duas candidaturas próprias: a de Carlos e a de Carol, abrindo uma fissura com os aliados da federação.
Mato Grosso do Sul ignora indicação da família Bolsonaro
No Mato Grosso do Sul, a direção estadual do partido seguiu seu próprio caminho. Ignorando a preferência explícita de Jair Bolsonaro pelo deputado federal Marcos Pollon – que recebeu apoio público de Michelle Bolsonaro e outros familiares –, as lideranças locais avançaram em negociações com o ex-governador Reinaldo Azambuja e o ex-deputado estadual Capitão Contar.
Ceará e São Paulo ampliam o raio da crise interna
O conflito ganhou novos contornos no Ceará, onde a articulação do deputado André Fernandes por um apoio do PL a Ciro Gomes (PSDB) ao governo desagradou Michelle Bolsonaro. Apesar do desgaste, interlocutores mantêm a possibilidade de um acordo que inclua o apoio tucano a Alcides Fernandes (PL) para o Senado. Em São Paulo, a indefinição reflete a disputa entre alas. Com a provável ausência de Eduardo Bolsonaro, um grupo defende o deputado estadual Gil Diniz, enquanto outro, com apoio do governador Tarcísio de Freitas, trabalha pela candidatura da deputada federal Rosana Valle. Nomes como Guilherme Derrite (PP), Mário Frias (PL) e Marco Feliciano (PL) também circulam.
Rio de Janeiro deixa aliado próximo de Bolsonaro de fora
No Rio de Janeiro, a estratégia do PL de apoiar o governador Cláudio Castro e o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, deixou o deputado federal Carlos Jordy, outro nome próximo do ex-presidente, sem espaço na disputa ao Senado pela legenda, o que levou outros partidos a sondá-lo.
Direção nacional tenta conter crise com oferta de estrutura
Diante do aumento das tensões, a cúpula nacional do PL passou a atuar para conter a crise. Dirigentes têm procurado os pré-candidatos preteridos pela máquina partidária estadual para oferecer uma estrutura robusta de campanha visando a reeleição na Câmara dos Deputados, em troca da desistência da corrida ao Senado. A manobra é uma tentativa de apaziguar os ânimos e manter a unidade partidária, ainda que em campos distintos. No entanto, avalia-se que os aliados mais fiéis a Bolsonaro devem insistir nas indicações para a Casa Alta, prometendo prolongar o embate interno.
A resistência dos diretórios estaduais sinaliza um movimento de autonomia dentro do PL, buscando construir alianças eleitorais baseadas em dinâmicas locais e na força de nomes com maior enraizamento regional. Este confronto entre o núcleo duro bolsonarista e as estruturas partidárias tradicionais redefine o equilíbrio de poder na sigla e indica que a construção das candidaturas para 2026 será marcada por intensas negociações e disputas de influência, muito além das indicações de um único líder.

