Especialistas divergem sobre retomada de IPOs no Brasil em meio a guerra e eleições

O mercado de capitais brasileiro se encontra em uma encruzilhada complexa, onde expectativas de retomada das ofertas públicas iniciais (IPOs) se chocam com a instabilidade geopolítica global e o cenário eleitoral doméstico. Após quase quatro anos de seca, com o último IPO significativo ocorrido em 2022, analistas e advogados especializados observam movimentos preparatórios que sugerem um reaquecimento, embora os riscos sejam palpáveis e as opiniões, divergentes.

Expectativa de retomada mantida para o primeiro semestre

Segundo Daniel Laudisio, sócio da área de Mercados de Capitais do escritório TozziniFreire Advogados, a preparação para novas ofertas segue adiante, mesmo com a guerra no Oriente Médio e a recente volatilidade do Ibovespa. “Por enquanto, da forma como a guerra se encontra, ela não teve efeito nas operações que a gente estava preparando”, afirmou o especialista, revelando que seu escritório foi recentemente mandatado para operações de equity mesmo após o início do conflito. A leitura predominante entre os preparadores de ofertas é que, a menos que haja uma escalada drástica que interrompa cadeias de suprimentos globais, especialmente a do petróleo, o caminho para os IPOs permanece aberto.

Eleições presidenciais como fator decisivo a partir de junho

Enquanto a guerra é um fator externo monitorado, o calendário eleitoral brasileiro é uma variável doméstica com impacto direto e previsível. Laudisio explica que a eleição já está precificada nos cálculos de quem planeja ofertas no curto prazo. No entanto, a partir de junho, quando a data da votação se aproxima, é provável que empresas e investidores prefiram aguardar o desfecho do pleito. O terceiro trimestre, portanto, é visto como um período naturalmente mais difícil para lançamentos. A depender do resultado eleitoral, porém, os últimos meses de 2026 poderiam registrar uma movimentação mais intensa do que o observado recentemente.

Setores regulados lideram a fila de possíveis IPOs

A composição da fila de empresas prontas para abrir capital indica uma preferência por setores com menor volatilidade. Daniel Laudisio aponta que saneamento básico e energia são os segmentos mais prováveis para liderar a retomada, devido à sua natureza regulada e à alta previsibilidade de receita, fatores que facilitam a avaliação por parte dos investidores em um cenário de incerteza. “São empresas que apresentam uma volatilidade menor e menos exposição a soluços de mercado”, destaca. O setor imobiliário, além de nichos como comércio eletrônico e ciência & tecnologia, também aparece no radar, mas os regulados devem predominar.

Onda de ofertas depende das demonstrações financeiras anuais

Um catalisador técnico para o aumento da atividade é o prazo para a finalização das demonstrações financeiras referentes ao exercício de 2025. Laudisio espera uma onda significativa de ofertas assim que esses documentos estiverem prontos, o que deve ocorrer até o final do mês corrente. O especialista ressalta, contudo, que o volume não se comparará ao boom observado em 2021, no auge da liquidez pós-pandemia, mas que o número de operações deve ser considerável, marcando o fim de um longo jejum.

Visão cética alerta para janela de oportunidade que pode não abrir

Nem todos compartilham do mesmo otimismo. Para Daniel Wainstein, sócio-fundador da consultoria Seneca Evercore, a instabilidade geopolítica introduziu um nível de volatilidade que pode fechar a janela para IPOs antes mesmo de ela se abrir por completo. “Com a eleição presidencial se aproximando, há o risco de que nem tenha oportunidade dessa janela abrir em 2026”, adverte. Nesta visão, a conjunção de fatores externos (guerra) e internos (eleição) cria um ambiente excessivamente hostil para operações que demandam previsibilidade e apetite por risco.

Novo perfil de empresa atrai o investidor atual

Wainstein argumenta que, quando a janela finalmente abrir, o mercado priorizará um perfil específico de empresa. O foco estará em negócios com histórico sólido de lucro, geração de caixa consistente e governança corporativa robusta. Setores como infraestrutura, energia, saneamento, saúde e agronegócio são apontados como candidatos naturais. “O ciclo atual favorece previsibilidade. O investidor está menos disposto a financiar apenas crescimento e mais focado em qualidade”, analisa. Este é um contraste claro com o ambiente de 2021, onde narrativas de crescimento futuro muitas vezes se sobrepuseram à rentabilidade presente.

Impacto da tributação de dividendos nos valuations

Uma mudança regulatória doméstica que passou a influenciar diretamente os cálculos dos investidores é a tributação de dividendos, em vigor desde o início deste ano. Segundo Wainstein, o impacto dessa tributação varia conforme o tipo de investidor. Para a pessoa física brasileira, a redução do dividend yield líquido pode diminuir a atratividade de empresas tradicionalmente pagadoras de proventos. Para investidores institucionais locais e estrangeiros, a análise é mais complexa, envolvendo eficiência fiscal e comparativos de retorno líquido com outros mercados. Ainda assim, o especialista pondera que, historicamente, fatores como juros reais e estabilidade macroeconômica têm peso muito maior na decisão de abrir capital do que uma mudança tributária isolada.

O desafio estrutural da confiança e da poupança de longo prazo

Para além dos ciclos e das conjunturas, Wainstein identifica um desafio estrutural para o amadurecimento do mercado de capitais brasileiro. “Precisamos ampliar a poupança doméstica de longo prazo voltada para ações, reduzir fricções regulatórias para empresas médias e estimular liquidez e cobertura após o IPO”, defende. Ele resume a essência do problema: “No fim do dia, um IPO é uma decisão de confiança: confiança no ambiente macro, na estabilidade jurídica e na previsibilidade das regras”. Sem avanços nessas frentes, a janela para ofertas públicas tende a permanecer curta e excessivamente cíclica, reagindo de forma abrupta a qualquer turbulência interna ou externa.

O momento atual, portanto, é de expectativa contida. De um lado, há preparativos concretos, uma fila de empresas em setores defensivos e o término do ciclo de relatórios anuais criando um momento oportuno. De outro, a sombra da guerra e, principalmente, a incerteza eleitoral funcionam como um freio poderoso. A retomada dos IPOs em 2026 dependerá não apenas de que esses ventos contrários não se intensifiquem, mas também de que o Brasil demonstre, mais uma vez, sua resiliência e capacidade de oferecer um porto seguro para capitais em um mundo turbulento. A decisão final de cada empresa refletirá seu cálculo individual sobre a relação entre oportunidade e risco neste ano decisivo.

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