Estudo cataloga 148 espécies em quintais quilombolas na Bahia

Pesquisa da UEFS e Universidade da Califórnia cataloga 148 espécies em quintais quilombolas na Bahia, revelando o protagonismo feminino e a importância das PANC.

Estudo mostra que 115 das 148 espécies catalogadas em quintais quilombolas têm uso medicinal.
Destaques
  • O estudo catalogou 148 espécies vegetais em quintais quilombolas, das quais 115 têm uso medicinal e 66 são alimentícias.
  • As mulheres são as protagonistas do manejo dos quintais, garantindo segurança alimentar e diversidade.
  • As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) como bredo e língua-de-vaca são valorizadas, mas estigmatizadas.

Em comunidades quilombolas do interior da Bahia, o quintal ao redor de casa é muito mais que um espaço de cultivo: é um dispositivo de resistência territorial e identitária. Enquanto a regularização fundiária pelo INCRA não avança, famílias de localidades como Matinha dos Pretos (Feira de Santana) e Paus Altos (Antônio Cardoso) transformam pequenos lotes em fortalezas vivas de biodiversidade e saber ancestral. Um estudo recente publicado na revista Ambiente & Sociedade dimensionou essa força ao catalogar 148 espécies vegetais nesses quintais, revelando que 115 delas têm uso medicinal e 66 são destinadas à alimentação – números que expõem uma gestão do território que a burocracia ainda insiste em ignorar.

O que o estudo revelou sobre a diversidade dos quintais quilombolas

Pesquisadores da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Universidade Estadual da Califórnia percorreram as comunidades para levantar, espécie por espécie, o que cresce nesses terrenos. O resultado é um inventário que mistura hortaliças comuns, frutíferas e uma quantidade expressiva de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) – ao todo, 30 delas foram identificadas. O bredo e a língua-de-vaca, por exemplo, brotam espontaneamente, são altamente nutritivos e praticamente ausentes do radar dos supermercados e da dieta urbana.

A diferença entre o que é cultivado e o que é simplesmente tolerado ou incentivado revela um conhecimento ecológico profundo. As famílias não apenas plantam: elas reconhecem, manejam e incorporam espécies nativas e espontâneas que a agronomia convencional descarta. Esse repertório botânico é, na prática, um seguro contra a insegurança alimentar – um tema que ganha urgência diante da inflação dos alimentos processados no Brasil.

Por que as mulheres são as protagonistas desse sistema

O estudo escancara um dado sociológico relevante: são as mulheres que sustentam quase inteiramente a rotina dos quintais. Enquanto os homens buscam trabalho externo, elas assumem o comando da terra – da escolha das sementes à venda do excedente em feiras livres. Jociene Nascimento, pesquisadora que acompanhou o cotidiano das comunidades, explica que essa gestão feminina torna a presença de comida variada mais frequente nos pratos e viabiliza o acesso a remédios naturais. “Nesse contexto, os quintais tornam-se espaços estratégicos de garantia da segurança alimentar, pois são as mulheres que selecionam, cultivam e manejam uma diversidade de espécies assegurando uma alimentação mais variada, acessível e culturalmente adequada.”

Essa centralidade feminina não é um detalhe pitoresco: é um padrão de governança que desafia a lógica do agronegócio monocultor e da divisão sexual do trabalho imposta pela modernização. As mulheres quilombolas operam um sistema de baixo insumo externo, alta biodiversidade e conhecimento transmitido oralmente – um contraste direto com a agricultura industrial dependente de insumos químicos e sementes patenteadas.

PANC, estigma social e o abismo entre gerações

Um dos pontos mais críticos levantados pelo estudo é o desinteresse generalizado pelas Plantas Alimentícias Não Convencionais. Nascimento aponta que “em muitos casos, as PANC também são associadas a estigmas sociais, vistas como comida de pobre ou de tempos de escassez, o que contribui para seu abandono”. Esse fenômeno não é acidental: ele reflete décadas de marketing alimentar que associou industrialização a status e progresso, enquanto os saberes tradicionais foram empurrados para o lugar do atraso.

O distanciamento das origens ganha ainda mais força com a invasão dos alimentos ultraprocessados e o uso constante de tecnologias digitais. Sem a conversa entre avós e netos, o conhecimento sobre como preparar um xarope caseiro ou o ofício milenar das parteiras está desaparecendo. Para os pesquisadores, os quintais hoje desafiam a modernização para evitar o apagamento do patrimônio cultural negro. “Significa que mesmo convivendo com acesso facilitado à informação, novas tecnologias, medicamentos, alimentos processados e ultraprocessados, os quintais de comunidades tradicionais ainda preservam parte da cultura e saberes de seus antepassados, por isso são tidos como espaços de resistência.”

Como a tecnologia pode acelerar a perda – ou ajudar a preservar

O conflito entre tradição e inovação não é novo, mas ganha contornos específicos no Brasil rural. O acesso a smartphones e redes sociais, por um lado, conecta os jovens a um mundo de informação instantânea – mas, paradoxalmente, desconecta-os do conhecimento incorporado no manejo do quintal. O vídeo de uma receita de bolo industrializado tem mais alcance do que a demonstração de como podar um pé de ora-pro-nóbis. O estudo sugere que a saída não é demonizar a tecnologia, mas usá-la para reinserir esses saberes no currículo escolar e na atenção básica de saúde.

A proposta dos cientistas inclui a integração de ervas medicinais no atendimento do SUS e o incentivo a hortas escolares que valorizem as PANC. O objetivo central é reconectar a juventude a esses conhecimentos para que o quintal volte a ser visto não apenas como um pedaço de terra, mas como uma fonte inesgotável de orgulho e autonomia. No fundo, trata-se de um movimento de cidadania digital que vai além do hardware: é sobre garantir que o software cultural de comunidades inteiras não seja deletado pela atualização forçada do mercado.

O que os números dizem sobre o futuro da segurança alimentar

Para além do inventário botânico, o estudo é um alerta para políticas públicas. Enquanto o Brasil discute a regulação de agrotóxicos e a expansão do agronegócio, comunidades quilombolas mantêm, com recursos mínimos, um banco genético vivo e funcional. As 148 espécies catalogadas equivalem a um acervo que nenhum laboratório farmacêutico ou banco de sementes consegue replicar em escala industrial – porque ele é indissociável das relações sociais e do manejo feminino que o sustenta.

Em um país onde a fome voltou a bater na porta de milhões de lares, a lição dos quintais quilombolas é direta: a soberania alimentar não depende de grandes latifúndios nem de pacotes tecnológicos caros. Ela nasce do conhecimento enraizado, da diversidade cultivada em pequenos espaços e, sobretudo, do protagonismo de mulheres que se recusam a abandonar a terra – mesmo quando a lei ainda não reconhece que ela é delas.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1809-4422asoc0150vu29L1AOJ

Compartilhar este artigo
Canal oficial de conteúdo do portal Overcentral. A Equipe Central produz notícias, guias e análises com foco em credibilidade e relevância, garantindo que você receba o melhor conteúdo editorial diariamente.