A operadora finlandesa Elisa, em parceria com a guarda de fronteira e a marinha da Finlândia, concluiu com sucesso os primeiros testes de monitoramento acústico em cabos submarinos utilizando a tecnologia DAS (Distributed Acoustic Sensing). O sistema transforma cabos de fibra óptica existentes em sensores de vibração, capazes de detectar ameaças como arrasto de âncoras antes que causem danos. O anúncio, feito em 5 de junho de 2026, ocorre no mesmo dia em que a polícia finlandesa apresentou acusações contra quatro tripulantes do navio Fitburg, suspeito de danificar cabos no Mar Báltico no final de 2024.
Como o DAS transforma cabos submarinos em sensores de vibração
O DAS é uma técnica que envia pulsos de laser por uma fibra óptica e analisa as minúsculas variações na luz refletida (backscattering de Rayleigh). Qualquer vibração mecânica ao longo do cabo – como o arrasto de uma âncora, o movimento de um ROV ou até mesmo o tráfego de navios nas proximidades – altera o padrão de reflexão. O sistema consegue localizar o ponto exato da vibração com precisão de metros e classificar o tipo de ameaça pela assinatura do evento.
A grande vantagem do DAS é que não exige a instalação de novos sensores no fundo do mar. O próprio cabo de fibra óptica já em operação se torna o sensor. Basta conectar um equipamento de interrogatório óptico em terra, na estação de aterramento do cabo. Segundo estimativas da empresa alemã AP Sensing – que desenvolve tecnologia similar – um único interrogador cobre até 100 km de cabo, o que torna o monitoramento de longas rotas submarinas viável em termos de custo e prazo de implantação.
Onda de ataques a cabos no Mar Báltico acelera adoção da tecnologia
A urgência finlandesa tem razão de ser. Desde outubro de 2023, o Mar Báltico foi palco de pelo menos 11 incidentes de danos a cabos submarinos, muitos atribuídos à chamada “frota sombra” russa – navios mercantes envelhecidos, de bandeira duvidosa, usados para contornar sanções e que também são suspeitos de sabotagem deliberada de infraestrutura crítica.
O caso mais emblemático ocorreu em 25 de dezembro de 2024: o navio-tanque Eagle S, de bandeira das Ilhas Cook e ligado à frota sombra, arrastou sua âncora por aproximadamente 90 km no fundo do mar, danificando o cabo de energia EstLink 2 e múltiplos cabos de comunicação entre Finlândia e Estônia. Apenas seis dias depois, em 31 de dezembro de 2024, um cabo de dados da própria Elisa, entre Helsinki e Tallinn, sofreu avaria. A polícia finlandesa interceptou o navio Fitburg, de bandeira de São Vicente e Granadinas, e mais tarde indiciou quatro tripulantes.
| Data | Evento | Detalhes |
|---|---|---|
| Outubro 2023 | Danos ao Balticconnector e C-Lion1 | Navio Newnew Polar Bear danifica gasoduto e cabo de comunicação Finlândia-Estônia |
| Novembro 2024 | Dois cabos de comunicação cortados | Navio Yi Peng 3 arrasta âncora por 300 km, corta cabos entre Suécia e Lituânia |
| Dezembro 2024 | EstLink 2 e cabos de comunicação danificados | Eagle S (frota sombra) arrasta âncora 90 km, danifica cabos de energia e dados |
| Janeiro 2025 | Interceptação do Fitburg | Cabo da Elisa é danificado; Fitburg detido pela guarda costeira finlandesa |
| Fevereiro 2026 | UE anuncia ~€347 milhões para proteção de cabos | Comissão Europeia destina recursos para reparo, monitoramento e projetos estratégicos |
| Junho 2026 | Teste DAS da Elisa é bem-sucedido | Teste conjunto com guarda de fronteira e marinha; mesmo dia, indiciamento de tripulantes do Fitburg |
O diretor de novos negócios da Elisa, Jouni Petrow, afirmou que o objetivo do sistema de alerta precoce é “enviar um aviso às autoridades antes que o primeiro dano ocorra”. No teste de 5 de junho, foram simulados diversos cenários de arrasto de âncora, com a participação de navios da guarda de fronteira, mergulhadores e ROVs. O sistema detectou corretamente a posição e o tipo de ameaça, e a Elisa já trabalha na integração de alertas automáticos para órgãos governamentais e proprietários de cabos.
Investimento da UE em proteção de cabos submarinos
A Finlândia não está sozinha. Em fevereiro de 2026, a Comissão Europeia lançou o “Cable Security Toolbox”, um pacote de €347 milhões (aproximadamente 644 bilhões de ienes) para projetos de proteção de cabos submarinos em todo o bloco. Desse total, €20 milhões são específicos para tecnologias de monitoramento como os cabos SMART (que integram sensoriamento ambiental) e o próprio DAS. O Mar Báltico foi designado como área prioritária devido à concentração de incidentes. A UE depende de cabos submarinos para 99% do tráfego intercontinental de dados, e a segurança dessa infraestrutura tornou-se questão de soberania.
Embora a Elisa não tenha confirmado se usa tecnologia da AP Sensing, seu projeto conta com a participação da operadora da rede elétrica Fingrid, da operadora de gasodutos Gasgrid Finland, do instituto geológico finlandês, da academia naval e do Instituto de Sismologia da Universidade de Helsinki. Trata-se de uma iniciativa nacional, não apenas corporativa.
O que o Brasil pode aprender com o caso finlandês
O Brasil também depende fortemente de cabos submarinos para sua conexão com o mundo. Rotas como EllaLink (ligando Brasil a Portugal), Monet (Brasil-EUA) e outros cabos que atracam em Fortaleza, Rio de Janeiro e Santos concentram a maior parte do tráfego internacional de dados do país. A tecnologia DAS poderia ser aplicada nesses cabos para monitorar ameaças como arrasto de âncoras de navios de grande porte, atividade de pesca de arrasto ou até mesmo tentativas de sabotagem em áreas como o Atlântico Sul, onde a vigilância é limitada.
O governo brasileiro deu passos iniciais: em 2025, o Ministério das Comunicações instalou um grupo de trabalho sobre proteção de cabos submarinos, e há discussões sobre a ampliação da fiscalização nas áreas de aterramento. A cooperação tecnológica com a União Europeia, formalizada em abril de 2026 durante a reunião de alto nível sobre parceria digital, abre caminho para transferência de know-how em sensoriamento acústico. Se a Finlândia conseguiu transformar seus cabos em sensores em poucos meses, o Brasil pode fazer o mesmo – desde que haja vontade política e investimento coordenado entre governo, operadoras e forças de segurança.
Enquanto a Finlândia já colhe os frutos do monitoramento acústico em cabos submarinos, o Brasil ainda discute a regulamentação e a proteção de sua infraestrutura crítica submarina. O exemplo finlandês mostra que a tecnologia já existe, é testada e funciona. Resta saber se o país vai esperar um incidente grave para agir ou se antecipará aos riscos.

