A retomada do fluxo de capital estrangeiro na Bolsa de Valores brasileira a partir do terceiro trimestre do ano passado não é resultado de uma transformação econômica brilhante, mas sim de uma deterioração comparativa. Em um cenário global onde as principais alternativas entre economias emergentes apresentam problemas agudos, o Brasil passou a ser visto como a opção “menos feia”. É o que afirma Ricardo Lacerda, CEO e fundador do banco BR Partners, em análise recente. A estabilidade institucional mínima e a manutenção de indicadores econômicos básicos, como desemprego em baixa e inflação controlada, criaram um contraste positivo em meio ao desfile de emergentes problemáticos, atraindo investidores em busca de rentabilidade em um ambiente de escassez de alternativas viáveis.
O cenário global que favorece o Brasil como refúgio relativo
Enquanto a Europa enfrenta estagnação persistente, a China sofre com crescentes barreiras geopolíticas que limitam o apetite dos investidores, e a Índia apresenta múltiplos de valuation considerados excessivamente caros, o mercado brasileiro voltou a atrair o olhar do capital internacional. Essa mudança de percepção ocorre não porque o país resolveu seus problemas estruturais profundos, mas porque a janela de oportunidades em outros lugares se fechou ou tornou-se mais arriscada. O executivo ressalta que o Brasil se beneficia de um relativo esvaziamento de opções, posicionando-se como um porto seguro relativo em tempos de turbulência global. A simples percepção de que o país possui empresas saudáveis e uma economia que “ainda respira” foi suficiente para disparar os gatilhos de investimento de fundos e gestores estrangeiros.
Conversão de mandatos em operações reais sinaliza confiança prática
Essa mudança de humor não se limita ao discurso, mas já se reflete em números concretos no mercado de capitais. Ricardo Lacerda observa um aumento significativo na taxa de conversão de mandatos em transações reais, especialmente em operações de follow-on (oferta subsequente de ações) e até em alguns IPOs pontuais. “O resultado no M&A é função dos mandatos e da conversão desses mandatos em operações. Vimos a partir do quarto trimestre uma taxa de conversão maior”, explicou durante participação no programa Stock Pickers, da XP. Esse movimento indica que o represamento de projetos de fusões, aquisições e aberturas de capital dos últimos anos começa a ceder, impulsionado por uma renovada confiança na capacidade do mercado brasileiro de absorver e valorizar novos investimentos.
O alerta severo sobre a política monetária e o custo do atraso
Contudo, o otimismo com a volta dos estrangeiros é temperado por uma advertência severa sobre a condução da política monetária. Para o CEO do BR Partners, o Banco Central pode ter “perdido o bonde” ao demorar para iniciar um ciclo de queda mais consistente da taxa Selic. Ele argumenta que a manutenção de taxas de juros reais extremamente elevadas por tempo indeterminado é insustentável para o setor produtivo. Esse ambiente de custo de capital alto empurra até mesmo companhias com fundamentos robustos para processos complexos de reestruturação de dívida e, em casos mais extremos, para recuperação judicial, minando o potencial de crescimento que atrai o capital estrangeiro em primeiro lugar.
O modelo de banco independente como antídoto para conflitos de interesse
Diante desse cenário de estresse para as empresas, Lacerda reforça a tese que fundamentou a criação do BR Partners em 2010: a independência em relação ao balanço do banco. Diferente dos grandes bancos de varejo, que frequentemente enfrentam conflitos de interesse ao atuar simultaneamente como credores e assessores de seus clientes corporativos, o modelo de “capital as a service” permite que a instituição foque exclusivamente no interesse de quem contrata seus serviços. “O nosso balanço é um taker (tomador) da operação, nunca o protagonista”, definiu. Essa filosofia busca alinhar os incentivos, garantindo que o sucesso do cliente seja a prioridade máxima.
Disciplina de risco e a cultura do ‘long-term greed’
Essa disciplina se reflete na estrutura operacional enxuta do banco, que evita alavancagens excessivas e mantém um teto rigoroso de exposição por cliente. Com uma carteira de crédito entre R$ 4 e R$ 5 bilhões, a instituição prefere atuar na estruturação de papéis que serão posteriormente distribuídos ao mercado, mantendo para si no máximo 25% do risco de cada operação. A cultura interna, inspirada na experiência de Lacerda no Goldman Sachs, prioriza o que ele chama de “long-term greed” — a crença de que a defesa intransigente dos interesses do cliente é o caminho mais lucrativo no longo prazo. “Não é porque a gente é bonzinho, é porque a gente acha que vai ganhar dinheiro assim”, admitiu. Essa lógica permeia desde o Investment Banking tradicional até a vertical de Wealth Management, que tem sido reforçada com contratações de profissionais seniores.
A incógnita política como fator determinante para o futuro do ciclo
Olhando para frente, o executivo aponta que a sustentabilidade de qualquer ciclo mais duradouro de crescimento e atração de capital dependerá crucialmente do desfecho do cenário político nacional. Para ele, o Brasil vive uma polarização desgastante entre esquerda e direita, com ambos os lados apresentando fragilidades perceptíveis e altos índices de rejeição entre parcelas significativas do eleitorado e do mercado. Lacerda acredita que há espaço para uma “terceira via” transformacional, que consiga superar o atual impasse e oferecer um horizonte de políticas estáveis.
O potencial de uma candidatura de centro-direita ponderada
Mencionando nominalmente o governador do Paraná, Ratinho Junior, como uma possível alternativa de centro-direita com apelo técnico e pragmático, o CEO do BR Partners vislumbra um cenário otimista. “A candidatura dele poderia dar um horizonte de oito anos de crescimento para o Brasil”, opinou. Ele argumenta que a combinação de uma política fiscal verdadeiramente equilibrada com uma gestão governamental menos conflituosa e mais previsível em Brasília poderia potencializar o fluxo estrangeiro em níveis exponencialmente superiores aos observados recentemente. Na avaliação de Lacerda, o capital que entrou no país representa menos de 0,5% do potencial disponível nos mercados globais, desde que o país faça o “mínimo de bom senso” em sua lição de casa institucional.
Estratégia de expansão e abertura para o capital global
Enquanto as definições políticas de longo prazo não se materializam, o BR Partners segue expandindo sua própria atuação, inclusive no exterior, para capturar as oportunidades do momento. Um movimento recente nessa direção foi a adesão do banco a um programa de American Depositary Receipts (ADRs). Esse instrumento facilita o acesso de investidores estrangeiros que desejam expor suas carteiras ao papel da instituição sem a necessidade de criar um veículo de investimento local no Brasil. É mais um passo tático em uma estratégia maior de conectar o capital global às oportunidades de um país que, mesmo com seus problemas crônicos, ainda consegue se destacar na vitrine dos emergentes pela falta de opções melhores no curto prazo.
A volta do capital estrangeiro é um sopro de oxigênio para o mercado de capitais brasileiro, mas sua permanência e intensidade estão diretamente ligadas a decisões que vão além da economia. A capacidade do país de apresentar não apenas uma imagem “menos feia”, mas um projeto convincente de solução para seus próprios dilemas — fiscais, monetários e, sobretudo, políticos — será o verdadeiro teste. Enquanto isso, a lógica do “menos pior” segue como motor de curto prazo, revelando tanto as fragilidades do cenário global quanto a janela de oportunidade que se abre para quem consegue oferecer um mínimo de estabilidade em um mundo instável.

