A HP revelou que 30% de sua base de clientes ainda utiliza o Windows 10, mesmo após o encerramento do suporte oficial da Microsoft em outubro de 2025. O dado foi apresentado durante a divulgação dos resultados fiscais do segundo trimestre de 2026, em 27 de maio, e acendeu um alerta sobre o ritmo da transição para o Windows 11. Para a fabricante, no entanto, o cenário representa uma oportunidade de negócio, e não um problema.
O significado dos 30% de usuários presos ao Windows 10
Ketan Patel, presidente da divisão de Sistemas Pessoais da HP, afirmou a investidores que aproximadamente 30% dos clientes da empresa ainda operam com o Windows 10. O número é expressivo porque a Microsoft encerrou o suporte padrão ao sistema operacional em 14 de outubro de 2025. Sete meses depois, mesmo entre os consumidores de uma das maiores fabricantes de PC do mundo, a adesão ao novo sistema não atingiu dois terços da base instalada.
A HP, porém, trata o atraso como um motor de crescimento. Patel descreveu os 30% restantes como uma oportunidade de curto prazo, um “vento a favor” para acelerar a substituição de equipamentos. A diretora financeira Karen Parkhill complementou que a lentidão é mais acentuada nas regiões EMEA (Europa, Oriente Médio e África) e APJ (Ásia-Pacífico e Japão). A lógica dos executivos é direta: quanto mais tempo os clientes demoram para trocar de PC, maior o volume de demanda reprimida que será liberado nos próximos trimestres.
O argumento foi bem recebido pelo mercado. A HP registrou receita de aproximadamente 144 bilhões de dólares no trimestre, alta de 9% na comparação anual, e lucro líquido de 4,5 bilhões de dólares, superando as projeções dos analistas.
Por que a migração para o Windows 11 ainda não aconteceu para tanta gente?
Dizer que o atraso na migração é um “vento a favor” é, por outro lado, admitir que esse vento deveria ter soprado antes. A realidade é que a transição para o Windows 11 esbarra em gargalos concretos.
O principal deles são os requisitos de hardware. O Windows 11 exige chip TPM 2.0 e processadores relativamente recentes. Estima-se que entre 200 milhões e 400 milhões de PCs no mundo simplesmente não conseguem rodar o sistema operacional. Para esses usuários, não há atualização de software que resolva: é preciso comprar um computador novo. Esse contingente representa um volume enorme de substituição forçada, mas que ainda não se materializou nas vendas.
Além disso, o orçamento corporativo está disputado. De acordo com projeções do Gartner divulgadas em fevereiro de 2026, os gastos globais com dispositivos devem crescer apenas 6,1% em 2026. Enquanto isso, os investimentos em software sobem 14,7% e os gastos com data centers disparam 31,7%. O dinheiro das empresas está indo para inteligência artificial, infraestrutura em nuvem e transformação digital, enquanto a renovação de parques de PCs fica em segundo plano.
Houve ainda um fator externo que pegou o mercado de surpresa: a intervenção da União Europeia. Em setembro de 2025, o grupo de consumidores Euroconsumers questionou as condições pagas do programa de atualizações de segurança estendidas (ESU) da Microsoft, argumentando que a cobrança violava a Lei de Mercados Digitais. A Microsoft recuou e passou a oferecer atualizações de segurança gratuitas para consumidores na área econômica europeia até outubro de 2026. Na prática, os usuários europeus perderam a urgência de migrar, o que contribuiu para segurar a curva de substituição.
O papel dos AI PCs na renovação do parque instalado
Se o Windows 11 sozinho não está empurrando a troca de máquinas com força suficiente, a HP aposta em um segundo motor: os chamados AI PCs. Ketan Patel destacou que muitos clientes estão movendo cargas de trabalho para a borda (edge computing) e que o aumento dos custos com inteligência artificial generativa torna os PCs especializados uma alternativa atrativa.
Os números da HP sustentam o discurso. A participação dos AI PCs nas vendas totais da fabricante subiu de 35% no trimestre anterior para 44% no segundo trimestre fiscal de 2026. A empresa projeta que esses equipamentos representarão entre 60% e 70% do mix no ano fiscal de 2027, ultrapassando a barreira dos 70% em 2028. É uma guinada estrutural no portfólio, que sinaliza para o mercado que a HP está se reposicionando como fornecedora de soluções de computação com aceleração de IA embarcada.
A pergunta que fica, no entanto, é se os AI PCs serão realmente o catalisador que a indústria espera. Até agora, os notebooks e desktops com NPUs dedicadas custam mais caro e não oferecem um “aplicativo matador” que justifique a troca em massa. A resposta depende de duas variáveis: a velocidade com que a demanda real por processamento de IA na borda vai se consolidar nas empresas e o comportamento dos preços de memória e componentes, que podem esfriar o apetite por upgrades. O segundo semestre fiscal da HP, que vai de maio a outubro de 2026, será o termômetro para medir se a aposta está no caminho certo.
Enquanto isso, para o usuário brasileiro que ainda está no Windows 10, a mensagem prática é que a troca de PC não precisa ser feita com urgência, mas o relógio está correndo. A ausência de patches de segurança gratuitos fora da Europa aumenta a vulnerabilidade de quem insiste em adiar a migração. Com ou sem AI PC, a substituição do hardware mais antigo é uma questão de tempo — e, para a HP, de oportunidade de negócio.

