Implante de semaglutida para obesidade entra em fase de testes

Parceria entre Vivani Medical e Novo Nordisk testa implante de semaglutida de ultra longa duração para melhorar adesão ao tratamento da obesidade.

O implante NPM-139 usa a plataforma NanoPorta para liberação contínua de semaglutida por até 12 meses.
Destaques
  • O implante NPM-139 tem como objetivo principal melhorar a adesão ao tratamento crônico da obesidade, não aumentar a eficácia.
  • O estudo clínico SLIM-1 será o primeiro em humanos, realizado na Austrália com 20 participantes por quatro semanas.
  • Um dos desafios do implante é a falta de flexibilidade para ajuste de dose, diferentemente das canetas injetáveis.

A constância no uso de medicamentos para obesidade, como as canetas injetáveis de semaglutida, é um dos maiores desafios para quem busca o emagrecimento. Efeitos colaterais e o esquecimento frequente comprometem a adesão ao tratamento. Para superar essa barreira, a Vivani Medical, em parceria com a farmacêutica Novo Nordisk, está desenvolvendo o NPM-139, um implante de semaglutida de ultra longa duração. O objetivo principal não é aumentar a eficácia do tratamento, que já é considerada alta, mas sim garantir que o paciente mantenha a regularidade necessária para o controle de uma doença crônica.

“A grande vantagem teórica do implante não é aumentar a eficácia do tratamento. Tratamentos eficazes nós já temos. A proposta é realmente melhorar a adesão ao tratamento de uma doença crônica, que exige uso prolongado”, explica o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, membro da SBEM.

Como funciona o implante de semaglutida e os próximos passos

O NPM-139 é um implante miniaturizado que utiliza a plataforma tecnológica NanoPorta. Essa tecnologia foi criada para liberar o medicamento de forma contínua e controlada, evitando picos inadequados de concentração no organismo, algo comum em aplicações periódicas. Em 2025, a empresa divulgou resultados pré-clínicos promissores em animais, com uma perda de peso próxima de 20% e a expectativa de que o implante tenha duração anual ou semestral, eliminando a necessidade de aplicações frequentes.

A Vivani anunciou que pretende iniciar em breve o estudo clínico SLIM-1 (Implante de Semaglutida de Ultra Longa Duração para Obesidade), o primeiro ensaio em humanos. O foco inicial será avaliar a segurança, funcionamento e tolerabilidade do implante, utilizando o Wegovy como comparador ativo. O estudo, randomizado e controlado, será realizado na Austrália, com duração de quatro semanas e a participação de 20 pessoas (10 em cada grupo). A perda de peso também será um dos desfechos analisados.

“Será que esse implante vai funcionar durante os 12 meses? Será que não vai perder o efeito ao longo desse período? O local onde ele for implantado pode alterar a absorção ou a duração da ação? Tudo isso precisará ser estudado em fases futuras antes dele ser liberado”, pondera Couri.

Em nota à imprensa, a Novo Nordisk afirmou que o acordo com a Vivani é para “avaliar o NPM-139”, um implante ainda experimental, e que está focada em complementar seus esforços internos de Pesquisa e Desenvolvimento por meio de inovação externa.

Quais as limitações e desafios do implante?

Um dos principais desafios para transformar o implante em uma opção viável é o controle da dose. Diferentemente das canetas injetáveis, que permitem ajustes graduais e a possibilidade de interromper o tratamento a qualquer momento, um implante libera a mesma dosagem de forma contínua por meses. Isso reduz drasticamente a flexibilidade para adaptar a terapia às necessidades individuais do paciente.

“Quando pensamos em ajuste de dose, o implante realmente perde flexibilidade. Esse é um ponto que precisa ser levado em consideração”, reitera Couri.

Essa dificuldade não é novidade no mercado. Ela é uma das razões pelas quais os implantes hormonais manipulados, usados ilegalmente para reposição hormonal ou emagrecimento, não são recomendados por sociedades médicas e não possuem aprovação regulatória. A impossibilidade de ajustes finos e de suspensão imediata em caso de efeitos adversos coloca o paciente em risco.

A grande exceção na medicina é o implante contraceptivo, que funciona porque o objetivo é manter uma dose estável por anos, sem necessidade de ajustes progressivos, e pode ser removido a qualquer momento.

Qual o potencial do implante para o tratamento da obesidade?

O endocrinologista acredita que o implante pode ter um papel específico: “Eu imagino o implante como uma estratégia de manutenção. Um paciente que já perdeu peso e está estável poderia ser um bom candidato. Já para quem ainda precisa ajustar doses ou está lidando com efeitos adversos, ele traz limitações.”

O tratamento da obesidade com análogos de GLP-1, como a semaglutida, exige uma complexa titulação de doses, especialmente no início da terapia, para minimizar os efeitos colaterais gastrointestinais. Caso o implante se mostre seguro e eficaz nos estudos, ele poderá revolucionar a adesão, mas é pouco provável que substitua as canetas na fase inicial do tratamento para a maioria dos pacientes. A capacidade de adaptar a dose e a possibilidade de interromper o uso rapidamente continuam sendo vantagens importantes das formulações injetáveis atuais, sendo fatores cruciais que o consumidor deve considerar ao avaliar novas opções terapêuticas.

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