Ações de IA sobem mais de 20% e desafiam juros altos e guerra

Inteligência artificial impulsiona ações das big techs mesmo em meio a juros altos e guerra no Oriente Médio.

Ações de IA sobem mais de 20% no primeiro semestre de 2026, desafiando as expectativas do mercado.
Destaques
  • O índice MSCI World Information Technology avançou mais de 20% no primeiro semestre de 2026.
  • Analistas apontam que a implementação de IA generativa ainda é escassa nos negócios.
  • As big techs ampliam investimentos em IA, mas o CFO da Quality Digital vê fundamentos sólidos nos lucros.

O primeiro semestre de 2026 está sendo marcado por uma combinação de fatores que, historicamente, castigam os mercados de risco: juros elevados, inflação renitente e um conflito geopolítico de grandes proporções no Oriente Médio. No entanto, um segmento específico de Wall Street parece imune a esse cenário adverso. As ações ligadas à inteligência artificial (IA) registraram uma alta superior a 20% no período, desafiando as expectativas e reacendendo o debate sobre a sustentabilidade desse movimento.

O desempenho do setor de tecnologia em 2026

Mesmo após um recente movimento de realização de lucros, as gigantes de tecnologia norte-americanas acumulam ganhos expressivos no ano. O índice MSCI World Information Technology, que tem entre suas principais posições nomes como Nvidia, Apple, Microsoft, Broadcom e Micron, avançou mais de 20% no primeiro semestre. O desempenho chama a atenção justamente por ocorrer em um ambiente macroeconômico desafiador, pressionado pelas consequências inflacionárias da guerra no Oriente Médio e pela expectativa de que o Federal Reserve (Fed) mantenha os juros em patamares elevados por mais tempo. Para o investidor, a grande questão é se os lucros dessas empresas serão robustos o suficiente para justificar essa valorização diante de um cenário tão adverso.

IA: o motor de crescimento está mesmo funcionando?

O mercado se divide quando o assunto é a capacidade da inteligência artificial de sustentar ganhos expressivos. De um lado, há quem veja a tecnologia como um motor capaz de gerar resultados sólidos por um período prolongado, independentemente do ciclo macroeconômico. De outro, cresce o questionamento sobre a sustentabilidade das premissas utilizadas nas projeções para o setor.

Apesar das divergências, existe um ponto de consenso: a IA está se disseminando rapidamente pelas empresas. O problema, apontam analistas, é que as mudanças organizacionais necessárias para capturar os maiores ganhos de produtividade e eficiência ainda não avançaram no mesmo ritmo. O analista Pedro Bicudo Maschio, da ISG, que acompanhou 150 estudos de caso de IA generativa, afirma que o uso da tecnologia nos negócios ainda é escasso. Para ele, a implementação trouxe novas demandas, como a escolha de modelos adequados, o treinamento de agentes específicos e o monitoramento constante da qualidade das respostas. “A primeira miopia do investidor foi acreditar que a OpenAI seria dona de tudo. É a primeira vez que uma tecnologia LLM não detém um único dono”, destaca.

O peso dos investimentos no orçamento das Big Techs

Por enquanto, os investimentos em IA ainda estão concentrados em um grupo restrito de empresas. As big techs americanas, líderes desse ecossistema, têm ampliado sua captação de recursos via dívida e emissão de ações para financiar a expansão. Na Meta, o CEO Mark Zuckerberg afirmou a funcionários que os gastos com IA estão pressionando as finanças da companhia, e que as ações da empresa estariam em um patamar mais elevado caso esses investimentos não tivessem sido realizados.

“O desafio atual é equilibrar os ganhos de eficiência com a nova linha de despesa que a tecnologia impõe ao orçamento”, explica Bicudo. Esse movimento, no entanto, não beneficia apenas as empresas de tecnologia. Com grandes IPOs esperados em Wall Street, incluindo as potenciais listagens de OpenAI e Anthropic, a corrida global pela IA também está impulsionando os negócios de instituições financeiras como Goldman Sachs e JPMorgan Chase. O diretor financeiro do JPMorgan, Jeremy Barnum, afirma que a IA está “em toda parte nos mercados financeiros”, seja assessorando fusões e aquisições ou financiando data centers e projetos de infraestrutura.

O impacto nos lucros do S&P 500 e o risco de uma bolha

À medida que os investimentos aumentam, a cobrança por resultados concretos também cresce. O Wells Fargo Investment Institute projeta que a inteligência artificial impulsionará um crescimento substancial do mercado em 2026, representando quase 25% do crescimento nos lucros do S&P 500. O otimismo, no entanto, não vem sem riscos. Um relatório do Société Générale alerta que as preocupações com uma possível sobrevalorização das empresas ligadas à IA já contribuíram para a ampliação dos spreads de crédito do setor, que podem apresentar volatilidade ainda maior caso as tensões no Oriente Médio se intensifiquem.

As tensões geopolíticas também podem influenciar os próximos passos do Fed. Atualmente, os mercados precificam uma probabilidade de 53,5% de que o banco central americano eleve os juros em ao menos 0,25 ponto percentual na reunião de setembro. Para a Capital Economics, uma alta moderada não representaria uma ameaça significativa, mas um aumento mais acentuado “teria impacto expressivo sobre a captação de recursos e reduziria os investimentos no setor”. Esse é um ponto crucial, já que grande parte da expansão da IA depende de investimentos bilionários em infraestrutura, como data centers, chips e computação em nuvem.

Bolha de IA? O que dizem os especialistas

A pergunta que ronda Wall Street é inevitável: o mercado está diante de uma nova bolha de tecnologia? Para Rodrigo Torres, CFO da Quality Digital, a resposta é não. Segundo ele, existe uma demanda global consistente por infraestrutura de inteligência artificial, o que sustenta os investimentos bilionários no setor. O executivo avalia que o movimento atual representa uma reprecificação de ativos “fundamentada em lucros reais”. Torres cita como exemplo as grandes empresas de computação em nuvem, como Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud, que estão realizando investimentos bilionários e mantêm o setor em expansão, apesar dos custos elevados no curto prazo. “São empresas consolidadas e não dependem exclusivamente dessa tecnologia para sustentar seus negócios”, conclui.

O que o investidor brasileiro deve acompanhar

Por enquanto, a inteligência artificial segue desafiando o cenário macroeconômico adverso. A grande dúvida para o investidor é até quando os lucros, a demanda por infraestrutura e o entusiasmo dos investidores serão suficientes para sustentar a alta. No Brasil, o reflexo desse movimento pode ser observado na volatilidade dos ETFs de tecnologia negociados na B3 e no desempenho de empresas locais expostas ao setor, como fornecedoras de infraestrutura e serviços de cloud. O investidor deve monitorar de perto as decisões do Federal Reserve sobre os juros, os desdobramentos do conflito no Oriente Médio e, principalmente, os balanços das big techs, que ditarão o ritmo dos investimentos e a confiança do mercado no futuro da inteligência artificial. A cautela e a diversificação seguem sendo as melhores ferramentas para navegar em um cenário de altas expressivas e riscos igualmente elevados.

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