Inteligência Artificial é usada diariamente por 97% das gestoras de fundos do Brasil

A inteligência artificial consolidou-se como infraestrutura essencial no mercado financeiro brasileiro. Uma pesquisa inédita conduzida pela equipe de Análise de Fundos da XP, realizada entre 2 e 15 de fevereiro de 2026, revela que 97% das gestoras de recursos ouvidas utilizam ferramentas de IA generativa em suas operações diárias. O estudo, que ouviu 71 gestoras responsáveis por aproximadamente metade do patrimônio da indústria de fundos nacional – mais de R$ 5 trilhões em ativos sob gestão –, aponta uma transformação radical na forma como o setor opera.

Adoção massiva marca nova fase da tecnologia no setor financeiro

Os números da pesquisa “IA na Gestão de Recursos” demonstram que a tecnologia deixou definitivamente a fase experimental. Do total de gestoras que reportam uso diário, 58% afirmam que a maioria de seus funcionários já recorre à IA no cotidiano, enquanto 37% indicam adoção por uma parcela significativa da equipe. Apenas 3% das empresas pesquisadas ainda mantêm a ferramenta restrita a poucos colaboradores. Para Fabiano Cintra, head de Seleção de Fundos da XP e um dos autores do estudo, a mudança fundamental dos últimos anos reside na acessibilidade e capacidade das novas ferramentas, que ampliaram o alcance da IA para além das tradicionais mesas de operação.

ChatGPT domina o mercado de IA generativa entre gestoras

Quando se trata de quais ferramentas específicas estão sendo implementadas, o ChatGPT da OpenAI emerge como padrão absoluto da indústria, sendo adotado por 93% das gestoras que utilizam IA generativa. Em seguida, aparecem o Gemini, com 70% de adoção, e o Claude, com 54%. Um padrão observado pelos analistas Clara Sodré e José Pini, coautores da pesquisa, é que muitas empresas utilizam múltiplas plataformas simultaneamente. Essa prática, conhecida no setor como cross-checking, permite a validação cruzada dos resultados gerados pelas diferentes IAs, aumentando a confiabilidade das informações produzidas.

Geração de código lidera aplicações práticas da IA no setor

A pesquisa detalhou as principais aplicações da inteligência artificial generativa no dia a dia das gestoras. Com folga, a atividade mais citada é o auxílio na geração de códigos, apontada por 81% das empresas como função principal da tecnologia. Em segundo lugar aparece a análise de dados, com 71% das menções, seguida pela elaboração de relatórios, com 62%. Esses números refletem um foco claro em tarefas que exigem alto volume de trabalho manual e padronização de entregas, áreas onde a IA demonstra ganhos significativos de produtividade.

Automação de processos internos e comunicação ganham espaço

Além das aplicações analíticas, a IA generativa tem sido implementada em outras frentes operacionais. A elaboração de e-mails é utilizada por 49% das gestoras, enquanto a automação de processos internos aparece em 46% das respostas. Aplicações em marketing e campanhas são mencionadas por 35% das empresas. Curiosamente, a criação de imagens – uma das aplicações mais populares no uso pessoal dessas ferramentas – aparece em apenas 17% dos casos, indicando que o setor financeiro prioriza produtividade analítica sobre comunicação visual em seu uso profissional da tecnologia.

IA não generativa permanece como motor de decisões complexas

O estudo faz uma distinção crucial entre IA generativa e não generativa, explicando que os números de adoção massiva não contam toda a história. Enquanto a IA generativa (que produz textos, códigos e imagens) é amplamente usada para aumentar eficiência em tarefas consideradas mais básicas, a IA não generativa continua sendo o núcleo das decisões estratégicas. Esta categoria inclui modelos preditivos, sistemas de classificação e algoritmos de machine learning tradicionais, que há décadas operam nos bastidores do mercado financeiro.

42% das gestoras já utilizam IA não generativa de forma estruturada

Nessa frente mais especializada, 42% das gestoras pesquisadas reportam uso estruturado de IA não generativa em seus processos principais. As aplicações são diversificadas e estratégicas: processamento de linguagem natural para análise de textos aparece em 80% das empresas que utilizam esse tipo de IA, classificação e categorização de dados em 70%, modelos preditivos em 63% e sistemas de monitoramento e alerta também em 63%. A otimização de portfólio, uma aplicação financeira clássica de algoritmos avançados, é mencionada por 43% das gestoras que utilizam IA não generativa.

Acessibilidade democratizou o uso da inteligência artificial

Segundo os autores da pesquisa, o que mudou radicalmente nos últimos anos não foi a existência da IA no mercado financeiro – onde algoritmos e modelos quantitativos já são ferramentas estabelecidas há décadas –, mas sim sua acessibilidade. Os modelos generativos, com interfaces conversacionais intuitivas, ampliaram o alcance da tecnologia para profissionais de diversas áreas dentro das gestoras, não apenas para equipes técnicas especializadas. Essa democratização transformou a IA de uma ferramenta de nicho em infraestrutura organizacional visível e estratégica.

Cross-checking entre plataformas se torna prática comum

A utilização simultânea de múltiplas plataformas de IA, mencionada por várias gestoras na pesquisa, reflete uma abordagem cautelosa e sofisticada da tecnologia. Profissionais do setor desenvolveram metodologias de validação cruzada onde os resultados de uma ferramenta são conferidos contra os de outras, aumentando a confiabilidade das saídas. Essa prática do cross-checking é especialmente relevante em um setor onde a precisão da informação é crítica e os custos de erro podem ser elevados, demonstrando que a adoção massiva não significa aceitação acrítica da tecnologia.

Setor prioriza produtividade analítica em detrimento de aplicações visuais

A baixa adoção de ferramentas de geração de imagens (apenas 17%) contrasta fortemente com a popularidade dessas aplicações no uso pessoal e em outros setores. Essa discrepância revela prioridades específicas da indústria de gestão de recursos, que valoriza principalmente ganhos de eficiência em tarefas analíticas, de codificação e de processamento de linguagem natural. A comunicação visual, embora importante, ainda não se mostrou uma área onde a IA generativa ofereça vantagens competitivas significativas para essas empresas, pelo menos na percepção atual dos gestores pesquisados.

Evolução do uso reflete maturidade crescente do setor

Os padrões de uso identificados pela pesquisa sugerem uma curva de aprendizado e maturidade. Inicialmente concentrada em aplicações experimentais ou de apoio geral, a IA generativa migrou para funções centrais na operação das gestoras. O alto percentual de uso para geração de código (81%) indica que as empresas identificaram uma aplicação onde a tecnologia oferece retorno tangível e imediato, provavelmente após fases de teste e validação. Essa evolução reflete um setor que, tradicionalmente cauteloso com novas tecnologias, encontrou aplicações concretas que justificam a adoção em larga escala.

A transformação silenciosa documentada pela pesquisa da XP não representa apenas uma mudança tecnológica, mas uma redefinição das competências necessárias no mercado financeiro. À medida que a IA assume tarefas rotineiras de análise, codificação e relatórios, o valor do trabalho humano migra para atividades de maior complexidade estratégica, interpretação contextual e tomada de decisão baseada em insights que vão além da capacidade dos algoritmos. O desafio que se coloca para as gestoras não é mais se devem adotar a inteligência artificial, mas como integrá-la de forma que potencialize, e não substitua, o julgamento experiente que sempre foi a base da gestão de recursos bem-sucedida.

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