Justiça multa Apple, Google e estúdios em R$ 298 milhões por loot boxes

TJDFT condena gigantes da tecnologia e estúdios de games em ação histórica contra loot boxes que somam quase R$ 300 milhões.

Decisão da 1ª Vara da Infância e Juventude do DF reconhece loot boxes como prática ilegal e determina indenização milionária.
Destaques
  • A Justiça do DF condenou Apple, Google e Microsoft por hospedarem jogos com loot boxes em suas lojas de aplicativos.
  • A multa total de R$ 298 milhões será destinada ao Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente do Distrito Federal.
  • A decisão judicial reforça a tendência global de regulamentação das loot boxes, já adotada na Bélgica e Holanda.

A Justiça brasileira deu um passo significativo no combate às práticas consideradas abusivas em jogos eletrônicos. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), por meio da 1ª Vara da Infância e da Juventude do DF, condenou Apple, Google, Microsoft e diversos estúdios de games ao pagamento de indenizações que somam R$ 298 milhões. A decisão, que envolve o uso de loot boxes em dezenas de títulos, reconhece que essas caixas virtuais estimulam comportamentos de jogo de azar e afetam de forma desproporcional crianças e adolescentes. Os valores serão destinados ao Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente do Distrito Federal.

Entendendo a decisão judicial contra loot boxes

A ação civil pública foi movida pela Associação Nacional dos Centros de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Anced) contra empresas como Activision, Nintendo e Riot Games. A acusação central é que as loot boxes operam sob uma dinâmidade sorteio pago, na qual o jogador investe dinheiro real sem saber qual recompensa receberá. Para especialistas em saúde mental e autoridades de diversos países, esse modelo ativa os mesmos circuitos cerebrais de recompensa dos jogos de cassino, podendo levar ao vício e a prejuízos financeiros especialmente entre menores de idade.

A decisão da 1ª Vara da Infância e da Juventude do DF levou em conta tanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em vigor desde 1990, quanto o chamado ECA Digital, que passou a vigorar em março e reconhece explicitamente loot boxes como práticas ilícitas. As big techs Apple, Google e Microsoft foram incluídas no processo por hospedarem e distribuírem os jogos por meio de suas lojas de aplicativos (App Store, Play Store e Microsoft Store, respectivamente). O magistrado considerou a gravidade da conduta, a exposição de crianças a mecanismos aleatórios de recompensa e a capacidade econômica das rés para fixar as indenizações.

Valores das indenizações por empresa

As multas foram calculadas individualmente, levando em conta o porte de cada companhia e sua responsabilidade no ecossistema dos jogos. Confira os valores e os motivos:

EmpresaValor da indenizaçãoRelação com loot boxes
AppleR$ 50 milhõesResponsável pela App Store
MicrosoftR$ 50 milhõesResponsável pela Microsoft Store
TencentR$ 50 milhõesDesenvolvedora de PUBG Mobile
GoogleR$ 40 milhõesResponsável pela Play Store
SonyR$ 40 milhõesResponsável pela PlayStation Network
Electronic ArtsR$ 20 milhõesDesenvolvedora de FIFA, Apex Legends, EA Sports UFC Mobile, Plants vs. Zombies, entre outros
Riot GamesR$ 15 milhõesDesenvolvedora de League of Legends
UbisoftR$ 10 milhõesDesenvolvedora de Tom Clancy’s Rainbow Six Siege
ValveR$ 10 milhõesDesenvolvedora de Counter-Strike
KonamiR$ 8 milhõesDesenvolvedora de PES 2019, eFootball PES 2021 Mobile e Yu-Gi-Oh! Duel Links
NintendoR$ 5 milhõesDesenvolvedora de Mario Kart Tour

A soma chega a exatos R$ 298 milhões. Todos os recursos serão direcionados ao Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente do Distrito Federal. Além do pagamento das indenizações, a Justiça determinou uma série de obrigações de fazer, incluindo a exibição de informações claras sobre o caráter aleatório das recompensas, a implementação de sistemas de verificação de idade e a oferta de mecanismos de reembolso acessíveis nos jogos.

O que são loot boxes e por que são controversas?

Uma loot box é uma caixa virtual presente em diversos jogos que pode ser aberta com pagamento (ou, em alguns casos, com moeda do próprio jogo) e que entrega recompensas aleatórias. Essas recompensas podem ser desde itens cosméticos, como skins para personagens e armas, até itens que afetam a gameplay, como armas mais potentes ou personagens exclusivos. A controvérsia reside no fato de que o jogador não sabe o que vai receber antes de pagar, característica idêntica à dos jogos de azar tradicionais. Organizações de defesa do consumidor e da infância ao redor do mundo apontam que as loot boxes incentivam gastos compulsivos e podem criar padrões de dependência em crianças e adolescentes.

Próximos passos e possibilidades de recurso

Todas as partes envolvidas podem recorrer da decisão. O processo tramita sob o número 0701554-83.2021.8.07.0013, e as empresas já sinalizaram, por meio de suas assessorias, que analisam as medidas cabíveis. Enquanto não há trânsito em julgado, as determinações de exibição de informações e verificação de idade podem ser temporariamente suspensas, mas o precedente aberto pela Justiça do Distrito Federal já serve como referência para outros tribunais brasileiros. A decisão também reforça a tendência global de regulamentação das loot boxes, que já levaram a ações semelhantes na Bélgica, Holanda e em alguns estados dos Estados Unidos.

Para o advogado Márlon Reis, representante da Anced, a sentença representa uma vitória importante para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. A expectativa é que a decisão force as empresas a repensarem seus modelos de monetização e a adotarem práticas mais transparentes e éticas, especialmente em jogos voltados ao público jovem. O caso brasileiro pode influenciar discussões legislativas em andamento em outros países da América Latina e consolidar o entendimento de que loot boxes configuram loteria ilegal quando não há transparência total sobre as probabilidades de cada recompensa.

Compartilhar este artigo
Canal oficial de conteúdo do portal Overcentral. A Equipe Central produz notícias, guias e análises com foco em credibilidade e relevância, garantindo que você receba o melhor conteúdo editorial diariamente.