Kellen Goff revela bastidores das vozes de Diavolo, Overhaul e Carnage

Em entrevista, dublador de Five Nights at Freddy's, JoJo e My Hero Academia revela segredos de suas vozes mais icônicas.

Kellen Goff explica como usou a pandemia e um pote de picles para dar vida a Diavolo, Overhaul e Carnage.
Destaques
  • Kellen Goff usou a pandemia de 2020 como combustível emocional para os gritos de Diavolo em JoJo's Bizarre Adventure.
  • Para interpretar Overhaul, Goff mergulhou na psicologia do trauma e na lógica de 'os fins justificam os meios'.
  • A figura Youtooz de Kellen Goff terá todos os lucros doados para a Jonathan Foundation, que ajuda crianças autistas.

Kellen Goff é um dos dubladores mais versáteis da atualidade, com um currículo que atravessa franquias como Five Nights at Freddy’s, JoJo’s Bizarre Adventure, My Hero Academia e Attack on Titan. Em uma entrevista exclusiva, ele abriu os bastidores de suas interpretações mais desafiadoras, revelando como a pandemia, a psicologia dos personagens e até mesmo um pote de picles ajudaram a moldar vozes que marcaram toda uma geração de fãs de anime e games.

Diavolo e a arte da dualidade vocal

Para Goff, interpretar Diavolo em JoJo’s Bizarre Adventure: Golden Wind foi um verdadeiro exercício de atuação. O grande desafio era contrastar o líder da Passione com sua personalidade alternativa, Doppio, dublado por Griffin Burns. “Quando você interpreta alguém que é o oposto exato de seu contraparte, precisa destacar o máximo de qualidades que o outro não possui”, explicou. Goff optou por um Diavolo mais calculista, reservado e, nas palavras dele, “schemey”, enquanto Doppio transbordava alegria e descontração. A intenção era fazer com que a transição entre os dois, quando Doppio se transforma em Diavolo, fosse ainda mais impactante.

Mas havia uma camada extra: Goff via Diavolo como um personagem mimado, que acreditava ser um deus e, quando desafiado, reagia com birras infantis. “Quanto mais esse deus grita sobre ser destronado, mais parece que ele é um garoto malcriado que sempre conseguiu o que queria”, analisou. A pandemia de 2020 serviu como combustível emocional para os momentos de fúria. “Havia tanta incerteza e desconforto na época. Usei essa energia para alimentar os gritos de Diavolo, convertendo o nervosismo coletivo em pura raiva e desejo de controle.”

Questionado sobre a lógica do Stand King Crimson — famoso pelo meme “It just works” —, Goff admitiu que nunca compreendeu totalmente a habilidade. “Só conseguia justificar com a ideia de linhas do tempo alternativas. Ele pula para uma nova linha onde tudo deu certo. Mas é algo que até hoje me confunde”, confessou, revelando que até postou um TikTok usando um picles para ilustrar a ideia de cortar o tempo.

Overhaul: a psicologia do trauma como motor do vilão

Overhaul, de My Hero Academia, foi o primeiro grande vilão de anime na carreira de Goff, e ele mergulhou fundo na psique do personagem. “Ele foi um órfão jogado na rua por ter uma Individualidade que destruía quem amava. Cresceu em um ambiente brutal, onde a única justiça possível era a que você mesmo cria”, contextualizou. Para Goff, cada ação de Overhaul, por mais cruel que fosse, tinha como motivação central retribuir o pai adotivo, o líder da Shie Hassaikai, que o salvou da miséria.

Essa lógica distorcida de “os fins justificam os meios” explica por que ele não hesitou em torturar uma criança (Eri) e por que, ao mesmo tempo, conseguiu negociar com a Liga dos Vilões de forma pragmática. “Ele não é mal pelo mal. Ele é mau quando se sente desafiado ou quando precisa revidar. Mas, no fundo, tudo era para pagar seu pai”, disse Goff. E a germofobia de Overhaul? “Venho de uma teoria pessoal: ele deve ter ficado doente várias vezes nas ruas, sem ninguém para cuidar. Aquilo gerou um trauma profundo com germes e sujeira.”

O dublador ainda expressou desejo de ver um arco de redenção para o personagem. “Sua Individualidade é incrível: ele pode desmontar qualquer coisa em nível molecular e, se remontar em até dez segundos, cura qualquer doença. Ele poderia curar o câncer. Mas escolheu destruir. Se ele um dia acordar e pedir desculpas para a Eri, usar o poder para restaurar ao invés de aniquilar, seria um final emocionante.”

Carnage em Marvel Tokon: homenagem aos que vieram antes

No game Marvel Tokon: Fighting Souls, Goff assumiu o papel de Carnage, o simbionte psicótico. O processo foi sigiloso — o projeto veio com codinomes — e só quando确认ou o papel soube que era o clássico vilão do Homem-Aranha. “Tentei absorver aspectos de todas as interpretações anteriores: as notas agudas e ruídos de criatura de Bradley Baker, os graves e rosnados de David Sobolov e Woody Harrelson, e a loucura de Scott Cleverdon”, detalhou. O resultado, segundo ele, é um Carnage que incomoda quem enfrenta, mas que também dá imensa satisfação ao ser derrotado. “Quero que os jogadores fiquem irritados ao perder para ele, mas que se sintam realizados ao vencê-lo.”

O sonho shonen e outros papéis marcantes

Goff revelou que ainda não realizou um sonho antigo: interpretar o protagonista de um anime shonen de ação e aventura. “Cresci admirando Naruto, Goku. Quero sentir o que é ser o herói da história, o underdog que supera tudo. Já fui protagonista em Sasaki and Miyano, um anime romântico, mas é diferente”, disse. Em Attack on Titan, ele deu voz a Porco Galliard, o Titã Mandíbula. “Assisti à primeira temporada no ensino médio. Anos depois, fazer parte da conclusão dessa obra lendária, durante o lockdown, foi catártico. E ainda pude trabalhar com Mike McFarland, que está lutando contra uma doença — torço muito por ele.”

Outro papel inusitado foi o Ball Guy em Pokémon Masters. “Sou fã de Pokémon desde o Gold. O Ball Guy era um meme na época: um cara grande e musculoso que só faz trocadilhos com a palavra ‘ball’. Foi bobo e divertido, e adoro papéis assim.”

Youtooz e filantropia: a figura de Kellen Goff

Goff também comentou sobre a figura Youtooz criada em sua homenagem, parte da coleção de Five Nights at Freddy’s. O boneco o retrata segurando o microfone de Funtime Freddy, e todos os lucros serão doados para a Jonathan Foundation, uma instituição que ajuda crianças no espectro autista e com outras deficiências a terem acesso a recursos. “Sempre quis ser um brinquedo. E não queria ficar com o dinheiro. Poder ajudar de alguma forma é incrível”, afirmou. As encomendas se encerraram em 28 de julho.

A entrevista revela um dublador que não apenas domina a técnica vocal, mas que mergulha na psicologia de cada personagem, transformando dados de roteiro em performances que ressoam com o público. Seja na dualidade de Diavolo, na tragédia de Overhaul ou na loucura de Carnage, Goff mostra que o verdadeiro poder da dublagem está em entender o que move cada vilão — e, às vezes, até encontrar um pouco de humanidade dentro do caos.

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