Semiótica revela os limites da IA: falta corpo, afeto e experiência

Em entrevista, Paolo Demuru explica por que a IA nunca será humana: faltam corpo, afeto e vulnerabilidade.

Semioticista defende educação do sentido crítico para enfrentar os riscos da inteligência artificial.
Destaques
  • A IA não possui corpo, afeto ou vulnerabilidade, elementos essenciais para a comunicação humana significativa.
  • A produção de narrativas políticas por IA acelera a criação de fake news e distorce o debate público.
  • Paolo Demuru propõe educação semiótica como política pública para formar leitores críticos de linguagens multimodais.

Em uma entrevista recente, o escritor Ian McEwan sintetizou com precisão cirúrgica o abismo que separa a inteligência artificial da experiência humana: “A IA não transa e não sente dor”. A frase, mais do que uma provocação literária, funciona como um diagnóstico semiótico. A máquina produz linguagem, mas é incapaz de viver a corporeidade, o afeto e a imprevisibilidade que dão sentido à comunicação humana. É a partir dessa premissa que o semioticista Paolo Demuru, doutor pela Universidade de Bologna e professor da Universidade Mackenzie, propõe uma reflexão sobre os limites estruturais da IA e os riscos de uma sociedade que se acostuma com interações algoritmicamente calibradas. Autor de “Políticas do Encanto: Extrema Direita e Fantasias de Conspiração”, Demuru defende que a semiótica — o estudo dos processos de atribuição de sentido — deveria ser incorporada à educação básica como política pública, justamente para que as novas gerações aprendam a reconhecer os mecanismos de linguagem que operam por trás das telas.

O que a inteligência artificial não tem: corpo, afeto e vulnerabilidade

Para Demuru, o problema central não está no fato de a IA “fingir” sentimentos. A comunicação humana, afinal, também é repleta de convenções, performances e encenações. A diferença é estrutural e corporal. “A IA não transa”, repete o pesquisador ecoando McEwan. Ela pode simular presença, escuta e intimidade, mas não possui um corpo que vive na pele a complexidade das relações presenciais. A comunicação humana não se reduz a uma transferência de informações: envolve a epiderme individual e social, a imperfeição, a vulnerabilidade, as surpresas e as imprevisibilidades do encontro com o outro. Quando tudo se torna algoritmicamente calibrado, aquilo que torna a interação significativa se perde. Outro risco apontado é a criação de expectativas artificiais. Um interlocutor real pode frustrar, discordar, se cansar. Uma IA pode ser ajustada para ser sempre paciente, sempre disponível, sempre compreensiva — e isso distorce a nossa relação com o mundo e com as pessoas.

IA e política: quando o extraordinário se torna commodity narrativa

A política, na visão do semioticista, é essencialmente discurso, narrativa, histórias sobre quem somos, o que queremos e quem nos ameaça. A IA não inventou essa dinâmica, mas alterou profundamente a escala e a velocidade de produção dessas narrativas. Antes, gerar uma imagem impactante ou um vídeo convincente exigia equipe, tempo, dinheiro e domínio técnico. Hoje, uma pessoa ou um grupo pequeno fabrica em minutos cenas que parecem extraordinárias: multidões que nunca existiram, políticos dizendo o que nunca disseram, futuros catastróficos ou gloriosos. Donald Trump, por exemplo, já utiliza a IA para se projetar como super-herói ou messias; Flávio Bolsonaro emula Top Gun em um vídeo no qual voa para salvar Neymar e o Brasil numa Copa do Mundo. O impacto é direto: o extraordinário deixa de ser raro. Quando tudo pode parecer espetacular, a disputa política passa a depender cada vez mais da capacidade de produzir atmosferas emocionais — medo, indignação, pertencimento, revanche, esperança, desejo.

Fantasias de conspiração: por que “fantasia” e não “teoria”?

Demuru propõe um deslocamento conceitual importante: ele prefere falar em “fantasias de conspiração” em vez de “teorias da conspiração”. O termo “teoria” sugere hipóteses, argumentos e possibilidade de revisão. As fantasias, por outro lado, são narrativas abertas, participativas e afetivas. As pessoas não apenas acreditam: elas completam, interpretam, remixam, acrescentam personagens, suspeitas e “provas”. Essas fantasias oferecem não respostas simples a questões complexas, mas a experiência do maravilhoso em um mundo onde a maravilha está em falta. A IA intensifica esse processo ao fornecer instrumentos potentes e acessíveis para materializar essas fantasias. Uma suspeita vaga vira um carrossel no Instagram; um ressentimento se transforma em roteiro; uma intuição paranoica gera vídeos, documentos falsos e áudios. A fantasia ganha corpo e produz textos potencialmente infinitos. E o processo não é individual: uma pessoa gera uma imagem, outra interpreta, outra acrescenta uma camada, outra transforma em “prova”. A IA funciona como uma máquina de aceleração da imaginação conspiratória. A pergunta que analistas e jornalistas precisam fazer, segundo Demuru, não é apenas “isso é verdade?”, mas “o que isso produz em termos de pertencimento, crenças e afetos?”.

Deepfakes e a crise do “ver para crer”: como confiar no que vemos?

A imagem já foi considerada prova incontestável. Com deepfakes e clonagem de voz por IA, o ditado “ver para crer” perdeu o sentido. A saída, defende Demuru, não é cair em posicionamentos ingênuos — nem achar que imagens sempre foram provas, nem acreditar que nada mais pode ser verdadeiro. O caminho é deslocar a confiança da imagem isolada para os processos de verificação. Uma foto, um áudio ou um vídeo não podem mais ser tratados como prova autossuficiente. É preciso perguntar: quem publicou? Em que contexto? Há outras fontes? Há metadados? Há veículos confiáveis verificando? A verdade deixa de ser algo que se manifesta imediatamente diante dos olhos e passa a depender mais fortemente de mediações sociais. Ela precisa ser disputada e narrada. O fato não se impõe por si só no debate público.

Educação semiótica: o antídoto contra a paranoia coletiva

Para Demuru, a solução de longo prazo passa pela implementação de políticas públicas de educação semiótica. As novas gerações precisam aprender, já nas escolas, a identificar e entender os mecanismos que regem as linguagens com as quais entram em contato diariamente pelos celulares. Isso inclui princípios narrativos e retóricos, posicionamentos enunciativos, e não apenas na linguagem verbal, mas também na visual, sonora e algorítmica. Diz-se na internet que “falta interpretação de texto”. A crítica é válida, mas precisa ser ampliada: o que falta é interpretação de textos complexos, multimodais. O reconhecimento desses estratagemas não pode ser prerrogativa de acadêmicos e letrados — deve ser de todos. Organismos como a UNESCO já apontam a semiótica como uma das disciplinas fundamentais em programas de literacia midiática, mas o caminho ainda é longo. Em um mundo onde a IA torna cada vez mais fácil produzir o extraordinário, simular a intimidade e acelerar fantasias coletivas, a capacidade de ler criticamente os discursos que nos cercam não é apenas uma habilidade acadêmica: é uma condição para a própria possibilidade de uma esfera pública minimamente racional e democrática.

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