A atividade de fusões e aquisições (M&A) no setor de seguros registrou uma queda no volume de negócios nos últimos seis meses, e a inteligência artificial (IA) é apontada como um dos principais fatores por trás desse movimento. De acordo com o relatório US Deals 2026 midyear outlook, da consultoria PwC, o mercado de seguros contabilizou 191 transações divulgadas entre 1º de dezembro de 2025 e 31 de maio de 2026, totalizando quase US$ 30 bilhões. No semestre anterior, encerrado em 30 de novembro de 2025, foram 207 transações, somando aproximadamente US$ 32 bilhões.
O que está por trás da desaceleração das fusões e aquisições?
Apesar da redução tanto no número de negócios quanto no valor total movimentado, os analistas da PwC destacam que os fundamentos do setor seguem sólidos. O aumento das taxas de prêmios, a inflação dos custos de sinistros e as melhorias na subscrição estão gerando maior lucratividade em diversas linhas de seguro, o que continua a atrair o interesse de investidores. No entanto, a ascensão da inteligência artificial está criando um novo cenário de incerteza.
O relatório aponta que os mercados público e privado estão divididos sobre o impacto da IA. De um lado, há o receio de que a tecnologia capacite novos concorrentes, reduzindo comissões e barateando os serviços de corretagem. De outro, existe a expectativa de que a IA, ao melhorar a eficiência operacional e a precisão na análise de riscos, possa ampliar as margens das seguradoras e corretoras estabelecidas.
IA como motor de transformação no mercado segurador
O debate sobre o papel da inteligência artificial está diretamente ligado à avaliação das empresas do setor. Segundo Mark Friedman, líder de negócios em seguros da PwC e coautor do relatório, “após vários anos de forte atividade em negócios, 2026 tem apresentado incerteza sobre como a IA pode transformar o setor, resultando em maior escrutínio nas transações e queda nas avaliações de corretoras listadas em bolsa”. Isso significa que os investidores estão mais cautelosos, analisando com mais profundidade como cada empresa está se posicionando em relação à tecnologia antes de fechar um acordo.
Por outro lado, a inteligência artificial também pode impulsionar o mercado de M&A. Muitas seguradoras e resseguradoras estão investindo ativamente em áreas como subscrição habilitada por IA, automação de sinistros e otimização de fluxos de trabalho. A PwC aponta que essas inovações podem melhorar as avaliações das empresas e, no médio prazo, contribuir para um novo aumento na atividade de fusões e aquisições.
O que significa para o mercado de seguros no Brasil?
Embora o relatório tenha como foco o mercado norte-americano, as tendências apontadas pela PwC são relevantes para o contexto brasileiro. A transformação digital e a adoção de IA são movimentos globais que também impactam o setor no Brasil. Seguradoras locais e insurtechs (startups de tecnologia para seguros) já estão investindo em soluções de análise de dados para precificação de riscos, chatbots para atendimento ao cliente e sistemas de regulação de sinistros mais ágeis.
Para o consumidor final, esse cenário de transformação pode trazer benefícios, como processos mais rápidos, produtos mais personalizados e, potencialmente, prêmios (mensalidades do seguro) mais competitivos. A cautela dos investidores, no entanto, sugere que as empresas precisarão demonstrar resultados concretos com a aplicação da IA para manterem suas avaliações e atraírem novos negócios.
Glossário rápido: entenda os termos
- Prêmio: valor pago pelo segurado à seguradora para ter direito à cobertura do seguro. É a mensalidade ou o pagamento único do seguro.
- Sinistro: é a ocorrência do evento coberto pela apólice, como um acidente de carro, um incêndio ou o diagnóstico de uma doença grave no seguro de vida.
- Subscrição (ou underwriting): processo pelo qual a seguradora avalia os riscos de oferecer cobertura a um cliente ou a um grupo, determinando se aceita o risco e qual será o valor do prêmio.
- Fusões e Aquisições (M&A): operações em que duas ou mais empresas se unem (fusão) ou uma empresa compra outra (aquisição), movimentando o mercado e alterando o cenário competitivo do setor.
O que observar nos próximos meses?
Para quem atua ou acompanha o mercado de seguros, a palavra de ordem é atenção. O relatório da PwC indica que estamos em um momento de reavaliação. A capacidade de uma seguradora de integrar IA de forma eficiente e lucrativa será um diferencial competitivo crucial. As empresas que conseguirem traduzir a adoção tecnológica em melhor performance operacional e financeira tendem a se destacar, enquanto aquelas que ficarem para trás podem ver seu valor de mercado diminuir.
O fechamento de negócios de M&A, embora em queda, não deve parar. As transações devem continuar, mas com um foco maior em empresas que já demonstram vantagens competitivas claras, seja por sua base de clientes, por sua tecnologia ou por sua eficiência operacional. O mercado de seguros, um dos pilares da proteção financeira, está escrevendo um novo capítulo, e a inteligência artificial é uma das protagonistas dessa história.

