A morte de Martha Lillard, aos 78 anos, encerra não apenas uma vida de resiliência, mas um capítulo inteiro da história da medicina. Considerada a última paciente com sequelas da poliomielite a viver dependente de um pulmão de aço nos Estados Unidos, sua trajetória de mais de sete décadas com o equipamento serve como um lembrete poderoso do impacto devastador que doenças evitáveis podem causar e do papel fundamental da vacinação na proteção da saúde pública.
O que era o pulmão de aço e por que ele se tornou obsoleto
O pulmão de aço, também conhecido como pulmão de ferro, é um ventilador mecânico antigo que funciona por pressão negativa. O paciente é colocado dentro de uma câmara metálica hermética, com a cabeça para fora. Uma bomba altera a pressão do ar dentro da câmara, criando uma pressão negativa ao redor do tórax, o que força a expansão dos pulmões e permite a entrada de ar. Essencialmente, o dispositivo substitui a função dos músculos respiratórios, como o diafragma, que podem estar paralisados por doenças como a poliomielite.
Com o avanço da medicina, os ventiladores mecânicos modernos, mais confortáveis, ajustáveis e menos restritivos, tornaram o pulmão de aço obsoleto. Além disso, as campanhas de vacinação em massa contra a pólio, iniciadas em 1955, reduziram drasticamente o número de novos casos, tornando raríssimos os pacientes com sequelas que necessitam de suporte respiratório tão invasivo.
A vida de adaptações de Martha Lillard
Martha contraiu o poliovírus aos cinco anos de idade, em 1953. A infecção afetou seus músculos respiratórios e lhe causou paralisia parcial. Após meses de internação, ela passou a viver dentro do pulmão de aço. Apesar da dependência do equipamento, Martha construiu uma vida cheia de adaptações. Ela conseguia sair do pulmão de aço por períodos curtos, frequentou a escola presencialmente por algumas horas e concluía os estudos em casa. No ensino médio, acompanhava as aulas por um sistema de interfone.
Sua vida também incluiu viagens em família, com um trailer adaptado para transportar o pesado equipamento, e uma veia artística: ela escrevia poemas, compunha músicas e era ativista na proteção animal, especialmente de cães da raça beagle. Mais recentemente, mesmo com as limitações, Martha se casou, em fevereiro deste ano, com Baha Salh, após mais de 20 anos de relacionamento à distância.
Com o envelhecimento, sua condição de saúde se agravou. A síndrome pós-pólio, um conjunto de sintomas que surge décadas após a infecção inicial, reduziu ainda mais sua força muscular. A situação piorou após ela contrair Covid-19 duas vezes durante a pandemia, desenvolvendo um quadro de covid longa que comprometeu severamente sua capacidade respiratória. A certidão de óbito aponta como causas a insuficiência respiratória crônica associada à síndrome pós-pólio.
O impacto da poliomielite e a importância da vacinação
A história de Martha Lillard é um reflexo do terror que a poliomielite representava antes da vacinação se tornar rotina. A doença, causada pelo poliovírus, infecta o sistema nervoso e pode causar paralisia irreversível, principalmente em crianças menores de cinco anos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há 30 anos, a pólio paralisava quase mil crianças por dia em 125 países. No Brasil, até 1980, ocorriam entre 1,1 mil e 3,6 mil casos anuais da doença. Com a vacinação em massa, a transmissão interna do vírus foi eliminada no país em 1989. O mundo saiu de 350 mil casos de paralisia infantil em 1988 para apenas 6 casos reportados em 2021, de acordo com o Instituto Butantan.
O sucesso na erradicação da pólio em praticamente todo o mundo é um dos maiores feitos da saúde pública e se deve exclusivamente às campanhas de vacinação. No entanto, a queda nas taxas de cobertura vacinal observada nas últimas décadas, tanto no Brasil quanto em outros países, acende um alerta. Uma estimativa de pesquisadores da Universidade de Stanford, por exemplo, projeta que, se as vacinas deixassem de ser consumidas nos Estados Unidos, uma em cada 200 crianças que contraíssem poliomielite ficaria paralisada, e entre 5% e 10% morreriam.
O que a despedida de Martha significa para o consumidor brasileiro
A morte de Martha Lillard não é apenas uma notícia de obituário. Ela simboliza o fim de uma era e reforça, de forma contundente, a importância de manter a caderneta de vacinação em dia. Para o consumidor brasileiro, a lição é clara: a prevenção por meio da vacina é a ferramenta mais eficaz e barata para evitar doenças graves que, no passado, condenavam milhares de pessoas a uma vida de sofrimento e dependência de tecnologias obsoletas como o pulmão de aço.
Manter a cobertura vacinal alta, especialmente de doenças como a poliomielite, não é apenas uma questão de saúde individual, mas um ato de proteção coletiva que evita o retrocesso a cenários que pareciam superados. A história de Martha, com sua força e adaptação, é um testemunho da fragilidade humana diante de doenças evitáveis e um alerta para que a sociedade não abra mão de uma das conquistas mais importantes da medicina moderna.
