A inteligência artificial tem sido protagonista nos debates econômicos globais, mas a narrativa mais urgente para os próximos meses pode estar em um indicador bem mais tradicional. Para Bruno Bak, head da mesa Artax da Itaú Asset, o verdadeiro termômetro da economia americana em 2026 não é o avanço da IA, mas a saúde do mercado de trabalho. Em análise apresentada ao programa Stock Pickers, o gestor com quase 25 anos de experiência aponta esse cenário como o maior ponto de interrogação e a principal fonte de risco e oportunidade para os próximos meses.
Paradoxo do crescimento americano intriga economistas
A tese de Bak parte de uma anomalia que tem desafiado analistas: os Estados Unidos cresceram cerca de 2,5% ao ano – ligeiramente acima do potencial –, mas a geração de empregos em 2025 foi a mais fraca já registrada fora de períodos recessivos. O próprio governador do Federal Reserve, Christopher Waller, reconheceu a discrepância em discurso recente. Essa desconexão entre atividade econômica robusta e criação de vagas morna estabelece um cenário complexo para o banco central americano definir sua política monetária.
Recuperação gradual do emprego é cenário-base do Itaú Asset
A mesa Artax projeta uma correção gradual desse desequilíbrio ao longo de 2026. Segundo Bak, o payroll mensal – que na média revisada de 2025 deve ficar próximo de zero – deve subir para uma faixa entre 50 mil e 100 mil vagas por mês neste ano. Três fatores principais sustentam essa projeção: o estímulo fiscal da chamada One Big Beautiful Bill do governo Trump, os três cortes de juros já realizados pelo Fed e a resiliência contínua do consumidor americano, que continua sustentando a demanda interna.
Acadêmica rejeita cenário apocalíptico para empregos com IA
Quando o tema muda para inteligência artificial, Bak apresenta uma visão calibrada que distancia-se dos cenários mais catastróficos. Ele cita pesquisas acadêmicas recentes que, em sua maioria, não projetam desemprego em massa decorrente da tecnologia. “A academia, na sua maior parte, acha que não vai ter um desemprego em massa”, afirma o gestor. “Ela acha que vai ter um aumento de produtividade do trabalhador.” Essa perspectiva baseia-se em paralelos históricos com revoluções tecnológicas anteriores.
Revoluções tecnológicas anteriores transformaram, mas não eliminaram empregos
Bak recorre à história econômica para contextualizar o impacto da IA. Tanto na Revolução Industrial quanto no advento da internet, o temor inicial de desemprego em massa não se concretizou. O que ocorreu foi uma transformação profunda no perfil das ocupações. “Na internet, não é que foi uma revolução enorme, mas tem um monte de posto de trabalho que não existe mais, mas criaram-se outros”, observa. Segundo a literatura acadêmica que fundamenta sua análise, a inteligência artificial seguiria essencialmente a mesma lógica de transformação setorial.
Disrupção real já afeta setores específicos como software
O gestor não ignora os impactos concretos que a tecnologia já está causando. Empresas do setor de software sofreram correções expressivas em suas avaliações porque investidores passaram a questionar a viabilidade de seus modelos de negócio diante da ascensão da IA. Esse movimento ilustra como a tecnologia pode redefinir setores inteiros, deslocando valor e exigindo adaptação rápida por parte das empresas estabelecidas. A disrupção, portanto, é real e mensurável nos mercados financeiros.
CEOs usam IA, mas ainda não relatam ganhos significativos de produtividade
Um dado revelador sobre o estágio atual de adoção da tecnologia vem de pesquisas com executivos americanos. Bak cita estudos que mostram que aproximadamente 80% dos CEOs já utilizam inteligência artificial em suas operações, mas a maioria ainda não percebe ganhos reais e mensuráveis de produtividade. Essa lacuna entre adoção tecnológica e resultados tangíveis sugere que a transformação prometida pela IA pode ser mais gradual do que alguns entusiastas preveem.
Cenário alternativo preocupa: crescimento sem geração de empregos
O gestor não descarta completamente um cenário mais preocupante. Se a produtividade de fato disparou de forma silenciosa – sem ser adequadamente capturada pelas métricas tradicionais – e as empresas simplesmente não voltarem a contratar na mesma proporção histórica, os Estados Unidos poderiam continuar crescendo com geração de emprego próxima de zero. Nesse caso, o Fed seria forçado a cortar juros com mais agressividade para estimular a criação de vagas. “É um cenário que a academia está errada”, reconhece Bak, com cautela. “Mas a gente acha que esse cenário é menos provável.”
Mercado de trabalho como principal indicador para política monetária
A análise reforça que, independentemente do debate sobre IA, o mercado de trabalho permanece como o principal norte para a política do Federal Reserve. A capacidade da economia americana de gerar empregos em ritmo saudável determinará não apenas os próximos movimentos de juros, mas também a trajetória do crescimento econômico e a confiança do consumidor. Nesse contexto, indicadores como taxa de desemprego, participação na força de trabalho e crescimento salarial ganham importância renovada.
Geopolítica e IA formam duplo vetor de transformação global
Bak situa sua análise dentro de um contexto mais amplo de dois grandes vetores que movem o mundo atual: a revolução da inteligência artificial e a reconfiguração geopolítica global. Essas forças atuam simultaneamente, criando um ambiente de negócios particularmente complexo para gestores. Enquanto a IA redefine setores e processos, as tensões geopolíticas remodelam cadeias de suprimentos, fluxos de comércio e alianças estratégicas entre nações e blocos econômicos.
A visão apresentada pelo gestor do Itaú Asset sugere que, apesar do fascínio midiático pela inteligência artificial, investidores e formuladores de política econômica não podem perder de vista os fundamentos tradicionais. O mercado de trabalho continua sendo o coração da atividade econômica, e seu comportamento nos próximos meses determinará não apenas o sucesso das empresas, mas a direção das principais economias globais. A capacidade de equilibrar a atenção entre inovação tecnológica e indicadores econômicos consagrados pode ser o diferencial para navegar um período de transição tão complexo quanto o atual.

