A economia brasileira viveu um período de transformações significativas nos primeiros três anos do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em 2023. Este ciclo político-econômico começou sob a égide de uma das eleições mais polarizadas da história do país, com expectativas divididas entre otimismo e cautela. O governo herdou desafios estruturais complexos – incluindo questões fiscais, inflacionárias e sociais – enquanto tentava reacender o crescimento e reduzir as desigualdades. A equipe econômica, liderada pelo ministro Fernando Haddad, adotou desde o primeiro dia medidas que sinalizaram uma mudança de rota em relação à gestão anterior, revertendo políticas tributárias e priorizando programas de transferência de renda. Nos 36 meses seguintes, uma série de reformas, ajustes e eventos externos moldaram um cenário de contrastes: crescimento do PIB e queda do desemprego convivendo com aumento da carga tributária, pressões inflacionárias e volatilidade cambial. Este artigo analisa em profundidade os principais eixos da política econômica desse período, seus resultados concretos e os reflexos no bolso dos brasileiros e no ambiente de investimentos. A trajetória revela não apenas as escolhas do governo, mas também os limites estruturais da economia brasileira e os dilemas entre crescimento, estabilidade fiscal e justiça social.

A Reconstrução do Arcabouço Fiscal: O Fim do Teto de Gastos e os Novos Paradigmas
Uma das primeiras e mais significativas mudanças estruturais implementadas pelo governo Lula foi a substituição do chamado “Teto de Gastos”, regra instituída durante o governo Michel Temer que limitava o crescimento das despesas públicas à inflação do ano anterior. A PEC da Transição, aprovada ainda em 2022, foi o primeiro movimento, criando uma exceção orçamentária de R$ 145 bilhões para 2023. Esse espaço fiscal foi essencial para viabilizar o aumento do Bolsa Família (rebatizado como Bolsa Família novamente), que passou a atender mais de 20 milhões de famílias com um custo adicional de aproximadamente R$ 14 bilhões por mês.
No entanto, o governo buscava uma regra permanente que permitisse maior flexibilidade para seus projetos sociais e de investimento. A resposta veio com o Novo Arcabouço Fiscal, proposto pelo Ministro Haddad em março de 2023 e aprovado pelo Congresso entre maio e agosto do mesmo ano. Este novo regime flexibilizou o controle de gastos ao permitir que as despesas primárias do governo federal pudessem crescer até 70% da variação da receita corrente líquida, com limites mínimos e máximos definidos em relação à inflação (entre 0.6% e 2.5% acima do IPCA).
A intenção declarada era criar uma âncora fiscal mais “inteligente” e pró-cíclica, que estimulasse o crescimento em momentos de arrecadação robusta, mas impusesse contenção em períodos de vacas magras. Na prática, o novo arcabouço enfrentou críticas de economistas que apontavam para a menor previsibilidade e a possibilidade de brechas para aumento permanente de gastos. O resultado fiscal de 2023, um déficit primário de R$ 230 bilhões, alimentou esse debate. O governo argumentou que parte significativa desse resultado veio de despesas “não recorrentes” e de decisões judiciais, enquanto analistas de mercado destacaram a dificuldade de controlar a expansão do gasto em um cenário político de ampla base de apoio parlamentar, que demanda contrapartidas orçamentárias.
O sucesso ou fracasso desse novo modelo fiscal está intrinsecamente ligado à capacidade do governo de recompor receitas. Isso levou a uma onda de aumentos e recriações de tributos, um movimento que se tornou uma marca registrada do período. A reversão da desoneração de PIS/Cofins sobre combustíveis, a taxação de fundos exclusivos e offshore, a criação do imposto sobre “blusinhas” (compras internacionais de baixo valor) e a tentativa (posteriormente derrubada) de tributar rendimentos de créditos imobiliários e agronegócios (LCI, LCA, CRI, CRA) são exemplos dessa busca por novas fontes de arrecadação. Segundo um manifesto da oposição amplamente divulgado em 2025, o governo teria criado ou majorado impostos 27 vezes em cerca de três anos – uma média de uma mudança a cada 34 dias.
Essa estratégia fiscal revela o dilema central da gestão: como financiar um estado social mais amplo e investimentos em infraestrutura (com o relançamento do PAC) em uma economia com carga tributária já elevada, sem comprometer a competitividade e o consumo? A resposta tem sido um mix de aumento de tributos sobre consumo específico, tentativas de taxar setores financeiros e de maior renda, e uma aposta na expansão econômica para gerar mais receita organicamente.

A Reforma Tributária Histórica e seus Desdobramentos no Sistema Nacional
Dentro do contexto de busca por receita e modernização do Estado, a aprovação da Reforma Tributária em dezembro de 2023 se consolidou como um dos maiores feitos legislativos do período e uma vitória política significativa para o governo Lula. Após mais de três décadas de discussões frustradas, o Congresso Nacional conseguiu promulgar uma emenda constitucional que simplifica drasticamente o sistema de impostos sobre consumo no Brasil.
O sistema anterior era notoriamente complexo e fragmentado, composto por cinco tributos principais (PIS, COFINS, ICMS, ISS e IPI), cada um com regras, alíquotas e bases de cálculo distintas, variando entre estados e municípios. Essa “guerra fiscal” e a cumulatividade (imposto sobre imposto) geravam ineficiência, custos de compliance bilionários para as empresas e um ambiente hostil aos investimentos.
A reforma propõe uma simplificação radical com a criação de dois novos tributos:
- CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços): de âmbito federal, que unificará PIS, COFINS e o IPI.
- IBS (Imposto sobre Bens e Serviços): de âmbito estadual e municipal, que substituirá o ICMS e o ISS.
O grande avanço técnico é a adoção do modelo IVA (Imposto sobre Valor Agregado), padrão internacional utilizado em mais de 160 países. No modelo IVA, o imposto é cobrado em cada etapa da cadeia produtiva, mas com mecanismo de crédito, de forma que apenas o valor agregado em cada fase seja tributado, eliminando o efeito cascata. Isso deve reduzir distorções, aumentar a neutralidade fiscal e tornar o sistema mais transparente.
Entretanto, a reforma também gera preocupações. A carga tributária sobre consumo pode convergir para uma alíquota total próxima de 28%, o que colocaria o Brasil entre os países com as maiores taxas do mundo nesse tipo de tributo. O desafio será implementar a transição sem gerar um choque inflacionário significativo, já que alguns setores podem ter aumento da carga, enquanto outros terão redução.
A implementação será gradual, ao longo de anos, e seu sucesso dependerá de uma complexa coordenação entre União, estados e municípios, além da criação de um órgão gestor do IBS. Se bem-sucedida, a reforma tem o potencial de aumentar a produtividade, reduzir litígios e atrair investimentos. Se mal gerida, pode onerar ainda mais o consumo final e complicar a vida dos contribuintes. O governo Lula apostou sua credibilidade reformista nessa mudança estrutural, cujos efeitos plenos só serão sentidos nas próximas décadas.
A Política Monetária em Tensão: O Duelo entre Planalto e BC
Paralelamente às batalhas fiscais, outro front econômico crítico foi o relacionamento entre o governo e o Banco Central (BC), agravado pela figura do presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, indicado pelo governo anterior. A política monetária tornou-se um campo de tensão pública quase constante.
O ciclo começou com otimismo em 2023. Com a inflação em trajetória de desaceleração, o BC iniciou um ciclo de cortes da taxa Selic, que saiu de 13,75% ao ano e chegou a 11,75% no final do ano. Isso alinhava-se aos desejos do governo por crédito mais barato e crescimento acelerado.
No entanto, 2024 trouxe ventos contrários. Pressões inflacionárias internas (como nos preços de alimentos) e externas (a valorização do dólar frente a moedas emergentes) forçaram o BC a interromper o ciclo de cortes e, posteriormente, a elevar os juros novamente. A taxa Selic atingiu patamares superiores a 15% em 2025, a maior em quase duas décadas. O IPCA fechou 2024 em 4,83%, acima do teto da meta (4,5%), obrigando o BC a publicar a carta aberta explicativa.
O governo reagiu com duras críticas públicas. O presidente Lula chegou a afirmar que Campos Neto “tinha lado político” e trabalhava mais para prejudicar do que ajudar o país. A narrativa do Planalto era de que juros altos eram um “prêmio para rentistas” e estrangulavam a economia real. O BC, por sua vez, sustentava sua decisão com base no regime de metas de inflação e na necessidade de ancorar expectativas em um cenário fiscal expansionista e de risco cambial.
O ápice da crise cambial ocorreu em dezembro de 2024, quando o dólar atingiu a máxima histórica de R$ 6,26, forçando o BC a realizar a maior intervenção no mercado de câmbio em 25 anos, vendendo bilhões de dólares de reservas para conter a desvalorização do real. Esse episódio evidenciou a vulnerabilidade externa da economia.
A tensão só começou a se dissipar com o fim do mandato de Campos Neto e a posse do indicado pelo governo Lula, Gabriel Galipolo, em janeiro de 2025. Contrariando expectativas de um diretor mais “dócil”, Galipolo manteve a política de juros altos para combater a inflação residual, demonstrando a independência operacional da autarquia. Aos poucos, com o controle da inflação e a melhora do cenário externo, a Selic começou uma trajetória de queda em 2025, e o dólar recuou para patamares próximos de R$ 5,40.

Os Resultados Macroeconômicos e o Dilema Social: Crescimento, Desemprego e Pressões Inflacionárias
Analisando os indicadores macroeconômicos dos três anos, é possível observar um cenário de contrastes marcantes, onde conquistas sociais e de atividade econômica convivem com desequilíbrios fiscais e pressões de custo.
No campo positivo, os números de crescimento e mercado de trabalho se destacam. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu acima de 3% ao ano em 2023 e 2024, performance robusta considerando o cenário global de desaceleração. Esse crescimento foi puxado pelo consumo das famílias, influenciado pela recomposição de programas sociais e pela valorização real do salário mínimo, e por investimentos públicos via novo PAC. O reflexo mais direto na vida das pessoas foi a drástica redução do desemprego, que atingiu seus menores patamares históricos no período. Milhões de brasileiros retornaram ao mercado formal de trabalho, e segundo o IBGE, cerca de 8,7 milhões de pessoas saíram da pobreza apenas em 2023. Programas como o Bolsa Família ampliado e o “Gás do Povo” tiveram impacto direto no orçamento das famílias mais vulneráveis.
No front dos investimentos e do mercado financeiro, o panorama foi misto. O relançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com a promessa de investir R$ 1,7 trilhão até 2026, sinalizou a intenção de retomar obras de infraestrutura. O mercado de capitais viveu um ano de 2023 exuberante, com o Ibovespa subindo mais de 20% e o dólar cedendo para abaixo de R$ 5,00, refletindo otimismo inicial com a transição política e o ciclo de cortes de juros. No entanto, 2024 foi um ano de correção brusca. A escalada do dólar, os juros em alta e as incertezas fiscais levaram o Ibovespa a derreter mais de 10% em determinados momentos, e o real se tornou uma das moedas mais desvalorizadas do mundo naquele ano. A recuperação em 2025, com a bolsa atingindo máximas históricas acima dos 160 mil pontos, demonstrou a resiliência do mercado, mas também sua sensibilidade às políticas econômicas.
Por outro lado, os desequilíbrios e as pressões inflacionárias permaneceram como pontos de atenção crítica. A inflação, medida pelo IPCA, embora dentro da meta em 2023 (4,62%), fugiu do controle em 2024 (4,83%), forçando o Banco Central a apertar a política monetária. A alta foi alimentada por uma combinação perversa: pressão de alimentos (como carne e café), custo do dólar (que encarece importações e commodities) e um mercado de trabalho aquecido, que aumenta o poder de barganha por salários e sustenta o consumo. O grande fantasma, no entanto, foi o déficit fiscal persistente. O rombo nas contas públicas, que atingiu R$ 230 bilhões em 2023 e R$ 68 bilhões em 2024, mesmo com sucessivos aumentos de impostos, levantou dúvidas sobre a sustentabilidade da trajetória de gastos. A meta de déficit zero prometida pelo ministro Haddad para 2023 mostrou-se inatingível, corroendo parte da credibilidade da equipe econômica.

Os Desafios Rumo a 2026
Os primeiros três anos do terceiro mandato do governo Lula delinearam um modelo econômico claro: um Estado mais ativo na redistribuição de renda e no investimento direto, financiado por uma carga tributária crescente e uma flexibilização das regras fiscais. Esse modelo gerou resultados sociais tangíveis na redução da pobreza e do desemprego, além de entregar um crescimento econômico consistente.
No entanto, os trade-offs são evidentes. O crescimento tem um custo fiscal alto, a pressão inflacionária é uma reação recorrente, e o aumento da tributação sobre o consumo pode, no longo prazo, pesar sobre a competitividade e o poder de compra da classe média. A independência do Banco Central foi testada e, no fim, preservada, mas a constante tensão política em torno da taxa de juros gerou volatilidade nos mercados.
Os legados mais permanentes deste período serão provavelmente institucionais: a Reforma Tributária, se bem implementada, pode modernizar a economia brasileira por gerações; e o Novo Arcabouço Fiscal redefine as regras do jogo para o controle de gastos públicos. A capacidade do governo de equilibrar sua agenda social com a sustentabilidade fiscal nos próximos anos determinará o sucesso final dessas reformas.
Com 2026 sendo um ano eleitoral, a economia estará novamente no centro do debate. A pergunta que fica para investidores, empresários e cidadãos é se o modelo atual consegue gerar crescimento de qualidade, com aumento da produtividade e equilíbrio macroeconômico, ou se os desajustes fiscais e a alta tributação podem limitar o potencial de desenvolvimento do país no médio prazo. A continuação dessa história dependerá não apenas das escolhas políticas em Brasília, mas também da capacidade da economia brasileira em assimilar tantas mudanças em um curto espaço de tempo.

