Paulinho da Costa recebe estrela em Hollywood e documentário na Netflix após 50 anos de carreira

A exigência foi categórica. A cantora e pianista de jazz Diana Krall não aceitou qualquer substituto: queria o percussionista brasileiro Paulinho da Costa em seu disco e DVD que seriam gravados em Paris. O músico, porém, estava em Los Angeles, em um intervalo da turnê com Eric Clapton. Sem hesitar, Krall, certa de que Paulinho “dá sorte”, colocou o brasileiro em um Concorde e o hospedou no melhor hotel parisiense. O resultado foi o álbum Live in Paris (2001), que vendeu impressionantes cinco milhões de cópias, um marco para o jazz. “É algo muito difícil de acontecer nesse mercado de nicho”, comentou Paulinho da Costa ao Brazil Journal.

O percussionista mais requisitado da música internacional

A insistência de Diana Krall é apenas um capítulo em uma trajetória de cinco décadas. O instrumentista carioca, de sorriso largo e criatividade infinita, coleciona colaborações com nomes fundamentais da música. Sua lista inclui jazzistas como Dizzy Gillespie e Herbie Hancock, arquitetos do pop e soul como Quincy Jones e Earth, Wind & Fire, e ícones como Michael Jackson, Madonna, Elton John e Lionel Richie. No total, são mais de 1.020 artistas, cerca de 7.000 músicas gravadas e 161 indicações ao Grammy, consolidando-o como um dos músicos de estúdio mais prolíficos e respeitados do mundo.

Dupla homenagem histórica em 2026

Este ano, Paulinho da Costa, aos 77 anos, é alvo de duas grandes homenagens. A primeira é uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, tornando-se o primeiro brasileiro nato a receber essa honraria. Paralelamente, sua vida e obra são celebradas no documentário The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, disponível na Netflix. Dirigido por Oscar Rodrigues Alves, o filme levou quinze anos para ser concluído e oferece um retrato íntimo e emocionante da relação do músico com sua arte.

De Irajá para os estúdios de Los Angeles

A história de Paulo Roberto da Costa é a de quem superou estatísticas. Criado em Irajá, no Rio de Janeiro, viu a família se separar por dificuldades financeiras. Sua primeira paixão foi o pandeiro, que o levou a excursões pela Europa. Nos anos 1970, tornou-se figura conhecida nas boates cariocas, onde conheceu sua esposa, Arice, e impressionou bandas como Os Novos Baianos. Sua fama local chegou aos ouvidos de Sérgio Mendes, que o convidou para integrar sua banda em Los Angeles em 1974. Paulinho aceitou, desembarcando nos EUA e indo direto para uma sessão de gravação.

A consolidação como lenda dos estúdios

O trabalho com Sérgio Mendes foi o trampolim. O produtor de jazz Norman Granz, indicado por Dizzy Gillespie, não só o ajudou a obter o green card como o contratou para a Pablo Records. Foi o início de uma era dourada nos estúdios. Um de seus primeiros grandes sucessos foi Love Machine, do grupo The Miracles. A partir daí, seu telefone não parou de tocar. “Nunca tive um cartão de visitas ou pedi para ser recomendado. Eles é quem ligavam”, relembra.

O toque brasileiro em clássicos do pop

Entre as ligações, estava a de Quincy Jones, que simplesmente disse “é Quincy” ao se identificar. O produtor o recrutou para a trilha de The Wiz. Outro marco foi o trabalho com The Jacksons e, posteriormente, com Michael Jackson em sua carreira solo. Paulinho foi o responsável pela cuíca brasileira em I Wanna Be Startin’ Somethin’ (do álbum Thriller) e pelo icônico som de colher em uma garrafa de Coca-Cola em Don’t Stop ‘Til You Get Enough (de Off the Wall). Seu método era intuitivo: ouvia a faixa pronta e acrescentava as camadas rítmicas que sentia necessárias.

Disciplina e identidade inabaláveis

Em meio ao ambiente hedonista dos estúdios nas décadas de 1970 e 1980, Paulinho manteve uma postura disciplinada. “As drogas eram dadas de presente nos estúdios. Mas sempre fui caseiro, nunca fui de frequentar boteco. Eles ofereciam, e eu dizia: ‘Tá tudo certo’. Ficava no vácuo”, conta, sem assumir um tom moralista. Sua sonoridade, profundamente brasileira, também nunca se perdeu. “Não perdi o sentimento da nossa percussão, que vem da África, do Rio, da escola de samba. Sempre pratiquei em casa para não perder o nosso ritmo”, afirma.

O legado e a autoridade do senhor do ritmo

Apesar de mais afastado das gravações, Paulinho ainda aceita projetos especiais, como uma participação póstuma em uma faixa de Elis Regina. Sua simpatia proverbial não esconde, porém, a consciência de seu valor. O documentário na Netflix mostra um episódio em que ele abandonou uma sessão após ser destratado por um engenheiro de som. “O americano é marrento, mas o carioca é marrento também. Eu digo: ‘Olha, vou para casa, tomar café e ficar na minha piscina. Depois manda o rapaz me ligar’”, relata, com a segurança de quem construiu uma carreira intocável. A sorte que Paulinho da Costa carrega, afinal, é um privilégio concedido apenas àqueles que, como ele, dominam com maestria a arte do groove.

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