Três dos principais nomes do Partido Social Democrático (PSD) para a sucessão presidencial travaram um debate público que expôs divergências fundamentais sobre como o Brasil deve enfrentar a violência e o crime organizado. Os governadores Ronaldo Caiado (Goiás), Ratinho Jr. (Paraná) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) participaram do evento “Propostas PSD: Modelo para o Brasil”, realizado no Clube Atlético Monte Líbano, em São Paulo, na última sexta-feira. O encontro, organizado pela Fundação Espaço Democrático, teve como foco central a análise da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, enviada ao Congresso Nacional pelo governo Lula em 2025.
Ratinho Jr. defende federalização do direito penal com penas mais severas
O governador do Paraná adotou um tom mais agressivo durante o debate, centrando sua crítica no que chamou de “revolving door” do sistema penal brasileiro. “O problema do Brasil não é prender bandido. As polícias prendem todos os dias. O problema é soltar bandido”, afirmou Ratinho Jr., em declaração que sintetiza sua visão sobre a falha estrutural na Justiça criminal. Sua proposta presidencial mais concreta é a criação de uma emenda constitucional que permita aos Estados legislar sobre penas para crimes graves, como homicídio, feminicídio e estupro. Segundo sua argumentação, os governos estaduais, por estarem mais próximos da realidade local, poderiam estabelecer punições mais rígidas e adequadas às dinâmicas criminais de cada região, quebrando a uniformidade imposta pela legislação federal.
Caiado critica centralização e defende autoridade estadual sobre o território
Em contraponto, o governador de Goiás, que ingressou no PSD em janeiro após deixar o União Brasil, posicionou-se contra qualquer medida que, em sua visão, amplie o controle da União sobre as políticas estaduais. “Não existe governabilidade sem segurança pública”, afirmou Caiado, alertando que a PEC da Segurança em discussão no Congresso poderia reduzir a autonomia dos Estados. Para ele, a solução passa por fortalecer a autoridade do Estado sobre seu próprio território, citando como exemplo medidas implementadas em Goiás para enfrentar facções criminosas. Sua fala reflete uma visão de que a segurança é um pilar da governabilidade e que estratégias centralizadas de Brasília podem ser ineficazes ou mesmo contraproducentes.
Eduardo Leite aposta em coordenação institucional e políticas sociais
O governador gaúcho apresentou uma terceira via, focada na integração e na eficiência do sistema como um todo. Eduardo Leite defendeu uma maior coordenação entre as forças de segurança e as instituições do sistema de Justiça, argumentando que o combate ao crime exige uma ação sinérgica entre governos, polícias, Judiciário e Ministério Público. Ele citou o programa “RS Seguro” como um case de sucesso que teria contribuído para a redução de indicadores de criminalidade no estado. Além da repressão, Leite destacou a necessidade de investimentos na melhoria do sistema prisional e em políticas de reinserção social de detentos, abordando o problema também pela perspectiva da prevenção e da ressocialização.
A PEC da Segurança avança no Congresso enquanto debate político se acirra
O debate ocorre em um momento crucial no Legislativo. A Câmara dos Depostos aprovou, em 24 de fevereiro, a PEC da Segurança Pública em segundo turno, e o texto agora segue para análise do Senado Federal. A proposta, que altera dispositivos constitucionais relacionados à organização da segurança pública e ao sistema de Justiça criminal, tornou-se um dos principais pontos de disputa política no país. As divergências entre os pré-candidatos do PSD espelham um debate nacional mais amplo sobre o equilíbrio de poder entre União e Estados, a eficácia do sistema penal e os modelos de policiamento e prevenção.
Apesar das diferenças de enfoque, os três governadores concordaram que o combate ao crime organizado deve ser uma prioridade absoluta para o próximo governo. O evento em São Paulo serviu menos para apresentar uma posição unificada do partido e mais para evidenciar os diferentes eixos que podem compor o discurso de segurança pública na campanha presidencial. As propostas variam da ênfase na severidade penal e na autonomia legislativa estadual, passando pela defesa intransigente da autoridade local, até a aposta na integração operacional e em políticas complementares. O debate demonstrou que, mesmo dentro de uma mesma sigla partidária, não há consenso sobre qual caminho o Brasil deve seguir para superar uma de suas crises mais profundas e persistentes.

