A abertura da Expodireto Cotrijal 2026, uma das principais feiras do agronegócio do país, foi marcada por um protesto carregado de simbolismo e dor. Na manhã de segunda-feira, 9 de março, em Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul, centenas de produtores rurais realizaram um “cortejo fúnebre” denominado “Luto pelo Agro”. O ato, com cruzes negras e um caixão, percorreu seis quilômetros até o parque da feira, transformando a celebração do setor em um palco de denúncia contra a crise financeira que assola o campo.
O protesto que enterra simbolicamente a esperança do produtor
Mais do que um simples protesto, o cortejo representou um grito de desespero contra o endividamento crônico. Os manifestantes carregavam um caixão no qual foram depositados grãos de soja, milho e uma garrafa de leite, símbolos da produção gaúcha. A ação teve um peso trágico adicional: representou os 36 produtores rurais que, segundo os organizadores, tiraram a própria vida em razão das dívidas impagáveis. Placas com os nomes de instituições como o governo federal, o governo estadual e bancos foram colocadas no “funeral” simbólico, acusando-as de negligência.
As raízes da crise: frustração de safras e custos elevados
De acordo com os organizadores do ato, a mobilização buscou chamar atenção para a situação de produtores que enfrentam dificuldades após sucessivas perdas de safra, agravadas por variações climáticas como estiagens, e pelo aumento constante dos custos de produção. Arlei Romeiro, presidente da Associação dos Produtores e Empresários Rurais (Aper), explicou que, embora a lei ofereça garantias, como a prorrogação de dívidas em casos de frustração de safra, essas regras nem sempre são cumpridas pelas instituições financeiras.
Falha no sistema de crédito e descumprimento da lei
“A obrigação de fiscalizá-las é do Banco Central. A maioria delas tira o produtor rural do crédito rural e o joga em um crédito comum, com taxas de juros muito mais elevadas”, denunciou Romeiro em entrevista. Ele se referia ao Manual de Crédito Rural, que estabelece normas de renegociação que, segundo os produtores, são sistematicamente ignoradas pelos bancos, aprofundando a espiral de endividamento.
As propostas de solução paradas no Congresso Nacional
O cerne da reivindicação dos produtores gira em torno de dois projetos de lei. O PL 320/25, que trata da securitização (prorrogação) das dívidas, estabelece prazos de até 20 anos, quatro anos de carência e taxas de juros entre 1% e 3%. Este projeto está parado na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. A outra esperança é o PL 5122/23, que permite a renegociação das dívidas com prazos maiores utilizando recursos do Fundo Social do Pré-sal, e que já passou pela Câmara dos Deputados, mas também aguarda votação no Senado.
Encontro em Brasília busca pressionar por aprovação
O vice-governador do Rio Grande do Sul, Gabriel Souza, anunciou que uma reunião com o governador Eduardo Leite e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ocorreria em Brasília na quarta-feira, 11 de março, para “aumentar a pressão” sobre a aprovação do PL 5122. “Vamos colocar o ‘bode na sala’ junto ao presidente da República”, declarou, sinalizando que levarão a demanda diretamente ao Palácio do Planalto em busca de uma solução definitiva.
O peso econômico do agro gaúcho e o impasse fiscal
O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) destacou a dimensão econômica do problema. Ele revelou que uma proposta de securitização, que previa a prorrogação por 20 anos das dívidas e a emissão de títulos do Tesouro no valor de R$ 150 bilhões para quitar os bancos, foi rejeitada pelo governo federal em 2025. O argumento foi o impacto nas contas públicas. “O Rio Grande do Sul tem quase um PIB inteiro perdido ao longo dos últimos anos”, afirmou Heinze, ressaltando a contradição de negar socorro a um setor que responde por 40% do PIB do estado.
Outras reivindicações: royalties sobre sementes e recepção hostil
Além do crédito, os produtores protestaram contra a cobrança de royalties sobre sementes de soja. Documentos de questionamento sobre taxas e multas na comercialização do grão foram entregues à empresa Bayer, à cooperativa Sicredi e ao Banco do Brasil. A cena no estande do Banco do Brasil foi emblemática: funcionários pediram para fechar a porta quando os manifestantes se aproximaram para entregar o documento, gerando vaias. As outras instituições assinaram o recebimento.
Solidariedade institucional e a feira como caixa de ressonância
A organização da Expodireto Cotrijal manifestou apoio público aos agricultores. Nei César Manica, presidente do evento, expressou solidariedade durante a cerimônia de abertura. Para ele, a feira atua como uma “caixa de ressonância” para os problemas do setor, servindo de palco legítimo para que as dificuldades cheguem às autoridades competentes. O deputado federal Luciano Zucco (PL-RS), que discursou ao lado de autoridades, criticou a falta de políticas permanentes de irrigação e combate à estiagem, problemas que exacerbam a vulnerabilidade dos produtores.
O “Luto pelo Agro” encerrou-se, mas a luta continua. O cortejo fúnebre não foi apenas um protesto, mas um diagnóstico severo de um setor à beira do colapso. Enquanto os projetos de lei aguardam votação, os produtores seguem carregando o peso das dívidas e a incerteza sobre o próximo plantio. O ato em Não-Me-Toque deixou claro que a vitalidade do agronegócio brasileiro, frequentemente celebrada em números de exportação, depende urgentemente de soluções concretas para quem está na linha de frente, na terra, enfrentando não apenas o clima, mas também a asfixia financeira. A esperança é que o simbolismo do caixão não se torne, para mais famílias, uma triste realidade.

