A proteção veicular brasileira ganhou espaço em um dos palcos mais relevantes do setor de seguros global. Durante o ITC Vegas 2026, realizado entre 29 de setembro e 1º de outubro no Mandalay Bay Resort and Casino, em Las Vegas, a experiência do modelo mutualista nacional foi apresentada a um público composto por seguradoras, empresas de tecnologia, startups e especialistas em inovação e gestão de riscos. A participação no evento norte-americano colocou sob os holofotes uma operação que, hoje, já reúne cerca de 300 mil associados em todo o Brasil, distribuídos entre aproximadamente 285 mil veículos leves e 15 mil caminhões.
Modelo mutualista ganha musculatura com regulação e tecnologia
A apresentação no ITC Vegas não se limitou a exibir números. O foco principal foi demonstrar como a tecnologia, o uso de dados e a inteligência artificial estão sendo aplicados para operacionalizar um modelo de proteção patrimonial que, por décadas, operou à margem de uma regulação unificada. O cenário mudou com a Lei Complementar nº 213, sancionada em 15 de janeiro de 2025, que passou a disciplinar as operações de proteção patrimonial mutualista no país. A legislação definiu regras de estruturação, criou condições para a regularização de associações já atuantes nos segmentos de proteção veicular e benefícios mútuos, e inseriu essas operações no ambiente regulatório supervisionado pela Superintendência de Seguros Privados (Susep).
Kleber Vitor, superintendente da APVS — associação que representou o segmento no evento —, destaca que a regulamentação estabelece parâmetros essenciais para governança e transparência. “Em um ambiente internacional, apresentar essa evolução permite contextualizar o modelo brasileiro e mostrar que o setor está passando por uma etapa importante de estruturação”, afirmou. Para ele, a participação no ITC Vegas também serviu para colocar a experiência brasileira em diálogo com as tendências globais de distribuição, eficiência operacional e inteligência artificial.
Como a tecnologia sustenta uma operação de 300 mil associados
Gerir uma base de associados distribuída por um país de dimensões continentais, com realidades socioeconômicas e necessidades muito distintas, exige mais do que capilaridade geográfica. A APVS, que opera há mais de 15 anos no Brasil, vem incorporando tecnologia de ponta em atividades de atendimento, gestão de sinistros, análise de informações e tomada de decisão. A inteligência artificial, nesse contexto, aparece como ferramenta para integrar associados, demandas e prestadores de serviços com agilidade, sem perder a capacidade de resposta conforme a operação cresce.
“A tecnologia sustenta essa operação, mas são as pessoas e a confiança que dão sentido a ela. Nosso desafio é fazer com que o crescimento venha acompanhado da capacidade de atender às necessidades dos associados”, explica Vitor. A afirmação reflete uma realidade comum a grandes operações de proteção veicular: o volume de dados gerado por centenas de milhares de contratos e chamados de assistência exige sistemas robustos de análise preditiva e automação, mas a entrega final ainda depende de prestadores de serviço qualificados e de uma relação de confiança com o associado.
O que a regulação muda para o associado e para o mercado
Antes da LC 213/2025, o segmento de proteção veicular mutualista operava em uma zona cinzenta, sem a supervisão direta de órgãos reguladores como a Susep. A nova lei trouxe exigências de capital, transparência contábil e obrigações de prestação de contas que, na prática, elevam o nível de segurança para o consumidor. Para o associado, isso significa ter a garantia de que a associação segue regras claras de funcionamento e está sujeita a fiscalização. Para o mercado, a regulamentação abre portas para a profissionalização do setor e para a entrada de investimentos em tecnologia e infraestrutura.
Durante a apresentação no ITC Vegas, ficou claro que a regularização não é vista como um obstáculo, mas como um catalisador para a inovação. Com regras definidas, as associações podem planejar investimentos de longo prazo em plataformas digitais, análise de dados e automação de processos, sem o risco de mudanças regulatórias abruptas.
Distribuição, experiência do consumidor e o valor real do produto
Um dos pontos mais enfatizados na exposição foi a relação entre distribuição, tecnologia e qualidade no atendimento. Em um mercado onde a concorrência com seguradoras tradicionais é cada vez mais acirrada, o diferencial do modelo mutualista não está apenas no preço, mas na experiência proporcionada ao consumidor no momento da necessidade. “O valor de um produto não está apenas em suas características ou em sua capacidade de alcançar o mercado, mas também na experiência que proporciona quando o consumidor precisa dele”, resumiu Vitor.
A afirmação toca em um ponto central para o setor: a entrega do serviço — seja um guincho, um reparo ou o pagamento de indenização — é o momento da verdade para o associado. E é justamente aí que a tecnologia aplicada à gestão de prestadores, ao rastreamento de veículos e à análise preditiva de riscos pode fazer a diferença entre uma experiência positiva e a frustração.
Dados da operação brasileira em perspectiva
| Indicador | APVS (Brasil) |
|---|---|
| Total de associados | ~300 mil |
| Veículos leves | ~285 mil |
| Caminhões | ~15 mil |
| Tempo de mercado | Mais de 15 anos |
| Regulação atual | LC 213/2025 (Susep) |
Olhar para o futuro: IA, eficiência e o papel da confiança
A passagem da APVS pelo ITC Vegas 2026 não foi apenas uma vitrine para o modelo brasileiro. Ela sinaliza um movimento de maturidade do setor, que busca se alinhar às melhores práticas internacionais de distribuição e gestão de riscos. Em um ambiente onde inteligência artificial e automação já são realidade nas seguradoras globais, o desafio brasileiro é adaptar essas ferramentas a uma realidade de escala continental, com infraestrutura desigual e alta capilaridade de prestadores.
Para o associado final, o resultado esperado é um serviço mais ágil, transparente e confiável. A tecnologia, nesse cenário, não substitui a relação de confiança — ela a viabiliza em uma escala que, até poucos anos atrás, era impensável para o mutualismo brasileiro. O caminho, como indicou a apresentação em Las Vegas, passa por integrar distribuição, tecnologia e gestão com um foco claro: fazer com que o crescimento da operação ande lado a lado com a capacidade de atender bem cada um dos 300 mil associados espalhados pelo país.

