Prefeitura de São Paulo mapeia riscos climáticos com plataforma do mercado segurador

Parceria inédita entre Prefeitura de São Paulo e seguradoras cria ferramenta para prevenir desastres com base em dados de risco.

Plataforma do SindsegSP e Guy Carpenter cruza dados públicos com modelos de risco para mapear vulnerabilidades urbanas.
Destaques
  • A plataforma divide São Paulo em quadrantes para simular impactos de eventos climáticos extremos.
  • Dezenas de milhares de estudantes e leitos hospitalares estão em áreas de risco elevado na capital paulista.
  • O modelo inovador mede impactos sociais e urbanos, não apenas perdas econômicas, para orientar políticas públicas.

O mercado segurador e a Prefeitura de São Paulo formalizaram uma parceria inédita que promete redefinir a forma como a maior metrópole do país se prepara para enfrentar eventos climáticos extremos. Durante evento realizado na manhã da última sexta-feira (12), foi apresentada a plataforma “São Paulo mais resiliente às mudanças climáticas”, um sistema tecnológico desenvolvido pelo SindsegSP em parceria com a administração municipal e execução técnica da Guy Carpenter. A ferramenta cruza dados públicos com modelos de risco usados pelo setor de seguros para identificar, com precisão inédita, as áreas mais vulneráveis da capital paulista — e, mais importante, orientar investimentos e políticas públicas antes que os desastres aconteçam.

Como a plataforma de riscos climáticos funciona na prática

O coração do projeto é um sistema capaz de simular diferentes cenários de risco a partir da integração de bases de dados do GeoSampa, IBGE, Receita Federal, universidades, centros meteorológicos e informações fornecidas pela própria prefeitura. Diferente de modelos tradicionais do mercado segurador, que focam em perdas econômicas e financeiras, a plataforma foi adaptada para medir impactos sociais e urbanos — algo que, segundo os envolvidos, representou o principal desafio técnico da iniciativa.

O CEO da Guy Carpenter Brasil, Pedro Farme, explicou que a equipe optou por não utilizar apenas o histórico de sinistros pagos pelas seguradoras como base. Em vez disso, trabalhou com informações sobre a exposição real da cidade, garantindo que regiões com baixa cobertura de seguros ou populações mais vulneráveis também fossem contempladas na análise. “Construir um modelo voltado para o poder público foi um dos principais desafios. O grande diferencial foi conseguir medir os impactos sociais e compreender como esses eventos afetam diretamente a vida das pessoas”, afirmou Farme.

Para viabilizar essa abordagem, São Paulo foi dividida em quadrantes de um quilômetro quadrado, embora a plataforma permita um nível de detalhamento ainda maior. O estudo considera cinco pilares fundamentais: infraestrutura social, educação, saúde, mobilidade e logística, atividade econômica e vulnerabilidade social. A partir dessa metodologia, é possível identificar exatamente quantos hospitais, escolas, centros de assistência, empresas e vias de circulação estariam sujeitos a impactos severos em caso de eventos extremos — e, de quebra, projetar como intervenções como construção de piscinões, galerias de drenagem ou criação de áreas verdes podem reduzir a vulnerabilidade de regiões específicas.

Dados impressionantes sobre a vulnerabilidade de São Paulo

Os primeiros resultados da plataforma já trazem números que acendem um alerta. A análise indica que dezenas de milhares de estudantes, milhares de leitos hospitalares e centenas de milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade estão localizados em áreas classificadas como de risco elevado para alagamentos em cenários extremos. Em um evento equivalente ao registrado no Rio Grande do Sul em 2024 — considerado um fenômeno de recorrência centenária — os danos materiais apenas na capital paulista poderiam alcançar bilhões de reais.

As projeções se tornam ainda mais preocupantes quando incorporados cenários de aquecimento global de 2°C. Nessa hipótese, as perdas estimadas praticamente triplicam. “O dinheiro investido em prevenção evita múltiplos gastos com reconstrução. Cada real destinado à mitigação pode representar uma economia muito maior no futuro”, observou Pedro Farme ao apresentar os dados.

O papel da prefeitura em um orçamento climático bilionário

Representando o prefeito Ricardo Nunes, o secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, Marcos Monteiro, destacou que a cidade já desenvolve um conjunto robusto de ações voltadas à adaptação climática. Entre elas estão o Plano Diretor de Drenagem, o Plano Municipal de Redução de Riscos, investimentos em contenção de encostas, canalizações, proteção de margens de rios e construção de reservatórios para retenção de águas pluviais. Desde 2021, mais de R$ 10 bilhões foram aplicados nessas iniciativas, enquanto o orçamento climático da prefeitura contempla aproximadamente R$ 30 bilhões distribuídos entre diferentes projetos relacionados à sustentabilidade e resiliência urbana.

Monteiro também ressaltou o funcionamento do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), que monitora em tempo real as condições meteorológicas por meio de radares, sensores e sistemas digitais. Na avaliação dele, o compartilhamento de dados com o setor segurador tende a tornar ainda mais eficiente o planejamento das intervenções públicas. “O acesso a essas informações permitirá aperfeiçoar nossos critérios técnicos e tornar ainda mais assertiva a priorização das obras de maior impacto para a cidade”, afirmou.

Investimentos em drenagem, arborização e frota elétrica

O secretário municipal das Subprefeituras, Fabricio Cobra Arbex, detalhou o conjunto de medidas executadas para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Ele destacou o reforço das equipes de zeladoria responsáveis pela limpeza de galerias, córregos e bocas de lobo, além da realização de obras corretivas em sistemas antigos de drenagem espalhados pela capital. São Paulo conta atualmente com 58 reservatórios de contenção em operação, oito em construção e outros seis em fase de licitação.

No eixo ambiental, Arbex mencionou a ampliação da frota de ônibus elétricos, projetos de aproveitamento energético de resíduos sólidos e ações de arborização urbana. Aproximadamente 170 mil árvores foram plantadas apenas no último ano, e as áreas verdes protegidas já representam cerca de 26% do território do município.

Cooperação público-privada como caminho para a resiliência

Durante o painel de debates que encerrou o evento, mediado pela conselheira de sustentabilidade Denise Hills, a tônica foi a necessidade de integrar esforços entre iniciativa privada e poder público. A secretária municipal das Subprefeituras, Tatiana Robles, destacou que preparar uma metrópole do porte de São Paulo para enfrentar eventos extremos é um desafio complexo porque envolve competências compartilhadas. “É um problema de todos nós e só vamos conseguir resolvê-lo se atuarmos juntos”, afirmou.

Robles ressaltou ainda que o estudo revelou riscos que até então recebiam pouca atenção, como os chamados corredores de vento, responsáveis pelo aumento de quedas de árvores em diferentes regiões. “A cidade sempre se preocupou muito com enchentes e alagamentos, mas agora percebemos que existem novos desafios que também precisam ser enfrentados”, lembrou.

Uma das falas mais marcantes veio do presidente do Conselho Diretor da CNseg, Roberto Santos. Ele afirmou enxergar uma mudança histórica no posicionamento do mercado segurador. “Pela primeira vez vejo o segurador sair de uma posição reativa para uma atuação verdadeiramente proativa”, pontuou. Para Santos, proteger não significa apenas indenizar prejuízos depois que eles acontecem, mas utilizar conhecimento técnico e inteligência de dados para evitar que os danos ocorram. “O seguro vende proteção. E proteger prevendo é algo muito mais avançado”, frisou, defendendo ainda a incorporação da educação ambiental à formação da sociedade.

Por que essa parceria representa um marco para o setor

A presidente do SindsegSP, Patrícia Chacon, lembrou que o ecossistema segurador sempre teve como propósito cuidar das pessoas, do patrimônio e das cidades, mas que o aumento dos eventos climáticos extremos tornou necessário ampliar esse papel. Ela recordou que o mercado já participa do processo de recuperação por meio de indenizações e assistências, mas que a oportunidade agora é atuar antes que os prejuízos aconteçam. “Quando colocamos essas informações juntas nasceu uma plataforma tecnológica capaz de mostrar, por quadrantes da cidade, onde estarão os maiores riscos dos eventos climáticos, considerando não apenas o patrimônio, mas também escolas, hospitais e a população”, explicou.

Na avaliação de Patrícia, a iniciativa demonstra que a colaboração entre iniciativa privada e administração pública pode produzir soluções concretas diante de um problema que afeta toda a sociedade. “A preocupação é da população, é do mercado de seguros e é do governo. Por isso, esse tipo de parceria tem potencial para transformar a realidade e garantir que o Brasil esteja cada vez mais protegido”, concluiu.

São Paulo se torna a primeira cidade brasileira a utilizar uma ferramenta desse porte construída em parceria com o setor segurador. A plataforma já está em operação e seus dados começam a ser incorporados ao planejamento urbano e às estratégias de prevenção da capital, sinalizando um novo paradigma na gestão de riscos climáticos no país.

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