Após uma década de mercado duro, o setor de seguros para energia renovável está passando por uma virada significativa. Proprietários de parques solares, eólicos e sistemas de armazenamento de baterias, que por anos enfrentaram prêmios crescentes e coberturas mais restritas, agora se veem em uma posição de força. As seguradoras ampliaram seu apetite por riscos renováveis, e as reduções nas taxas de prêmio já atingem dois dígitos, um movimento que permite aos segurados recuperar proteções que haviam sido perdidas ou reduzidas.
De acordo com George Fine, sócio de renováveis, energia e utilities na corretora McGill and Partners, o mercado de seguros para o setor entrou em uma fase de forte suavização. “O apetite das seguradoras está mais forte do que esteve em sete ou oito anos”, afirma Fine. Ele relata que cortes de dois dígitos nas taxas são agora comuns e podem ser obtidos “com relativamente pouco esforço” pelos compradores.
Esse movimento é impulsionado pelo crescimento acelerado do próprio setor de energia limpa. Dados da Administração de Informações de Energia dos EUA (EIA) indicam que a energia solar e o armazenamento em baterias devem representar cerca de 81% da nova capacidade de geração de energia em escala de utilidade no país em 2025. A capacidade de armazenamento em baterias, por sua vez, cresceu impressionantes 59% nos 12 meses até o final de 2025. Para Fine, a viabilidade econômica dessas tecnologias sustenta a oportunidade de seguro, independentemente de incentivos fiscais. “Economicamente, eólica, solar e armazenamento em baterias nunca foram tão viáveis comercialmente como são hoje”, destaca.
O que está mudando no seguro para energia renovável?
O principal risco para o setor continua sendo o de catástrofes naturais, com o granho se destacando como a maior ameaça para usinas solares. Uma análise da AXIS Capital revelou que o granizo foi responsável por cerca de 55% do valor total de sinistros de catástrofes naturais em energia solar na América do Norte, apesar de representar apenas 1% dos sinistros registrados. As perdas seguradas nos EUA com tempestades convectivas severas ultrapassaram US$ 50 bilhões tanto em 2023 quanto em 2024.
No entanto, em vez de se retirarem de regiões de maior risco, como o Texas, as seguradoras estão adotando uma abordagem mais sofisticada. “Não acho que muitas seguradoras diriam hoje: ‘Não subscrevemos solar no Texas’”, explica Fine. “Em vez disso, diriam: ‘Subscrevemos, mas precisamos de uma certa franquia ou sublimite estabelecido’.” A gestão de risco agora passa por recompensar a resiliência, como a adoção de protocolos de inclinação contra granizo, que posicionam painéis solares em um ângulo mais acentuado para minimizar danos durante tempestades.
Como os proprietários de ativos devem aproveitar este momento?
O mercado duro deixou marcas profundas. Fine lembra que uma franquia de uma fazenda solar que antes era de US$ 25.000 pode ter saltado para US$ 250.000. Agora, com o poder de negociação de volta, o conselho do especialista é usar essa alavancagem de forma estratégica. “Agora é uma oportunidade para eles identificarem seus maiores pontos de dor e resolvê-los”, orienta. Isso pode significar negociar limites de cobertura mais altos, franquias menores, uma redação mais ampla da apólice ou, claro, um alívio no valor do prêmio.
Fine alerta, no entanto, que essa janela não ficará aberta para sempre. Com poucos ciclos completos em seu histórico, o mercado de seguros para renováveis é difícil de prever, mas ele espera que os cortes de taxas desacelerem e que a competição migre para a estrutura das apólices — com melhores termos e condições — em vez de apenas preço.
Riscos emergentes e o futuro do setor
Olhando para o futuro, Fine identifica alguns riscos emergentes que merecem atenção. A exposição cibernética, por meio dos sistemas SCADA que controlam remotamente grandes portfólios, é uma vulnerabilidade real, mas ainda não produziu grandes perdas para os clientes. A natureza distribuída da geração renovável limita o contágio de uma interrupção de negócios. “Ainda recomendamos que os clientes adquiram cobertura cibernética e reflitam seriamente sobre a exposição, mas o foco principal continua sendo os riscos de danos materiais e interrupção de negócios”, afirma.
A maior preocupação de Fine é um ponto único de falha mais acima na cadeia: um evento cibernético que atinja simultaneamente a frota de um grande fabricante de turbinas eólicas. “Isso seria um problema muito maior do que a interrupção de uma única fazenda eólica”, alerta.
Por outro lado, o descomissionamento de ativos antigos está se mostrando menos problemático do que o esperado. A maioria dos desenvolvedores prefere modernizar e reutilizar seus ativos, como parques eólicos mais antigos que recebem equipamentos novos, em vez de encerrá-los completamente. “Ainda há muito valor nesses locais”, conclui Fine.
O que este cenário significa para o mercado brasileiro?
Embora os dados e a análise sejam focados no mercado norte-americano, as tendências são relevantes para o Brasil, que vive uma expansão acelerada de sua matriz de energia renovável, especialmente solar e eólica. O movimento de suavização do mercado global de resseguros e o aumento do apetite por riscos renováveis podem, em médio prazo, se refletir em condições mais competitivas para projetos brasileiros. Proprietários e operadores de ativos no país devem ficar atentos a este ciclo de mercado para negociar renovações com mais informação e poder de barganha, buscando não apenas redução de prêmio, mas também a melhoria de coberturas e condições contratuais que foram sacrificadas nos últimos anos.

