Após três semanas de intensas negociações entre Shell, Cosan e BTG Pactual, as conversas para uma injeção de mais de R$ 5 bilhões na Raízen chegaram a um impasse. O rompimento das tratativas joga agora a solução para a situação financeira da companhia diretamente no colo dos credores bancários e detentores de debêntures, que somam R$ 63 bilhões em exposição.
O impasse nas negociações entre Shell e BTG
As negociações fracassaram principalmente pela resistência da Shell em conceder ao BTG a exclusividade que o banco pedia para executar a separação dos ativos de distribuição de combustíveis. A petroleira britânica insistiu que o banco de André Esteves fosse apenas um “stalking horse” – uma proposta inicial que poderia ser superada por outras partes interessadas. Sem essa garantia de exclusividade por até dois anos, o BTG retirou-se da mesa de negociações.
O plano de capitalização que não se concretizou
A proposta em discussão previa que o BTG e a Perfin injetariam capital para controlar o negócio de distribuição de combustíveis, que seria separado da Raízen. O plano de capitalização incluía R$ 3,5 bilhões da Shell, R$ 1 bilhão da Cosan e R$ 500 milhões de Rubens Ometto, somando R$ 5 bilhões em recursos novos. Com a saída do BTG, o valor disponível cai para R$ 4 bilhões, considerado insuficiente para reequilibrar a estrutura de capital da empresa.
As condições financeiras exigidas pelos credores
Fontes próximas aos credores revelam que a proposta atual da Shell não deve prosperar por não trazer capital novo suficiente, o que aumentaria o percentual de conversão de dívida em ações para bancos e bondholders. A alavancagem ideal estabelecida entre Shell e Cosan seria de até 1,5 vezes o EBITDA na Raízen Energia e 3,5 vezes nos combustíveis, tornando os negócios sustentáveis com capacidade de pagar as dívidas em dez anos.
A lógica da separação dos negócios
A separação entre distribuição de combustíveis e produção de energia faz sentido estratégico porque os dois negócios possuem perfis distintos de geração de caixa, requerendo estruturas de capital diferentes. A proposta do BTG resolveria essa questão, transferindo mais de R$ 20 bilhões em dívida corporativa para o negócio de distribuição e depois capitalizando essa unidade com aproximadamente R$ 6 bilhões.
A reação dos credores ao impasse
Credores ouvidos demonstram preocupação com a decisão da Shell de romper as negociações sem consultá-los previamente. “Dá até pra entender que a Shell tenha se irritado com o BTG, mas tirá-los da mesa sem nos consultar não vai funcionar,” afirmou um bondholder. Tanto bancos quanto detentores de debêntures têm pressionado Shell e Cosan por uma solução rápida para a situação da Raízen.
Os próximos passos nas negociações
Com o rompimento das conversas em Londres, a Raízen conduzirá as próximas tratativas com os credores através do banco Rothschild, enquanto a Shell contará com o Lazard como advisor. A Cosan, embora não tenha um advisor formal declarado, está trabalhando em sintonia com seu novo acionista de referência. As partes já deixaram claro que não consideram uma recuperação judicial como opção, preferindo uma solução negociada diretamente com os credores.
O desfecho desse impasse determinará não apenas o futuro da Raízen, mas estabelecerá precedentes importantes para reestruturações de grande porte no mercado brasileiro. A capacidade das partes em encontrar um equilíbrio entre os interesses dos acionistas controladores e os direitos dos credores será testada nas próximas semanas, em um processo que promete redefinir as relações de poder no setor de energia nacional.

