A Sony divulgou seus resultados fiscais completos para o exercício encerrado em 31 de março de 2026, e o quadro geral é de contrastes marcantes. Se por um lado a gigante japonesa registrou receita estável e crescimento no lucro operacional do segmento de Games & Network Services (G&NS), por outro enfrenta uma desaceleração significativa nas vendas do PlayStation 5 e teve que contabilizar um impairment bilionário relacionado à aquisição da Bungie. O mercado reagiu com atenção aos números que mostram uma companhia navegando entre a maturidade do ciclo do console e os desafios de integrar estúdios de alto perfil.
Os números do ano fiscal de 2025
No consolidado do ano, a Sony apresentou resultados sólidos em nível corporativo. A receita líquida total atingiu ¥12,5 trilhões (cerca de US$ 79,7 bilhões), um crescimento de 3,7% em relação ao ano anterior. O lucro operacional subiu 13,4%, para ¥1,4 trilhão (US$ 8,9 bilhões). No segmento de Games & Network Services, que é o coração dos negócios de entretenimento interativo da companhia, a receita líquida ficou praticamente estável em ¥4,7 trilhões (US$ 29,9 bilhões), com alta marginal de 0,3%. O lucro operacional do segmento, no entanto, cresceu 12%, atingindo ¥463,3 bilhões (US$ 2,9 bilhões).
O quarto trimestre fiscal, porém, expõe as fragilidades. A receita líquida total da empresa subiu 8,3% para ¥3,03 trilhões (US$ 19,3 bilhões), e o lucro operacional geral cresceu 24% para ¥163,5 bilhões (US$ 1,04 bilhão). No recorte de G&NS, a receita caiu 2,8% para ¥1,02 trilhão (US$ 6,5 bilhões), enquanto o lucro operacional despencou 41,6%, chegando a apenas ¥54,1 bilhões (US$ 345,1 milhões). A queda expressiva no trimestre reflete diretamente o impacto dos ajustes contábeis na Bungie e a desaceleração nas vendas de hardware.
PS5: vendas em declínio e base acumulada robusta
As vendas anuais do PlayStation 5 caíram de 18,5 milhões de unidades no ano anterior para 16 milhões no exercício de 2025. O quarto trimestre foi particularmente fraco: apenas 1,5 milhão de consoles vendidos, contra 2,8 milhões no mesmo período do ano passado. A receita de hardware também sentiu o golpe, com queda anual de 12,1% para ¥1,4 trilhão e recuo trimestral de 28,4% para ¥209,1 bilhões (US$ 1,3 bilhão). Apesar disso, a base instalada acumulada do PS5 já ultrapassou 93 milhões de unidades, o que ainda representa uma plataforma enorme para a geração de receita recorrente com software e serviços.
A Sony atribui a resiliência dos lucros do segmento justamente à expansão dessa base de usuários, que permite monetizar cada vez mais por meio de vendas de jogos, assinaturas e conteúdo digital. A receita com software totalizou ¥2,6 trilhões (US$ 16,5 bilhões), impulsionada por um aumento de 5,5% nas vendas digitais e complementos, que chegaram a ¥2,4 trilhões (US$ 15,3 bilhões). As vendas de software de terceiros cresceram de 303,3 milhões para 317,9 milhões de unidades, enquanto os títulos first-party saltaram de 28,9 milhões para 32,1 milhões de cópias.
Diante do cenário de custos de componentes e pressão inflacionária, a Sony já anunciou aumentos de preço do PS5 em mercados como Estados Unidos, Reino Unido, Europa e Japão em março, e na Coreia do Sul e sudeste asiático em abril. A empresa sinalizou que novos reajustes não estão descartados: “Planejamos basear as vendas de hardware do PS5 no FY26 no volume de memória que conseguimos adquirir a preços razoáveis, e esperamos que a rentabilidade do hardware seja essencialmente a mesma do FY25. Se as circunstâncias mudarem, planejamos gerenciar o impacto na rentabilidade ajustando de forma flexível, entre outros fatores, os planos de vendas e promoções”, afirmou a companhia.
O impairment bilionário da Bungie e o lançamento de Marathon
Um dos destaques negativos dos resultados foi o registro de uma perda por impairment (baixa contábil) de ¥120,1 bilhões (US$ 765 milhões) relacionada à Bungie, estúdio adquirido pela Sony em 2022 por aproximadamente US$ 3,6 bilhões. O valor reflete a revisão das expectativas para o portfólio de títulos do estúdio, que inclui Destiny 2 e o recém-lançado Marathon. A Sony já havia reportado um impairment de ¥31,5 bilhões (US$ 204,2 milhões) no segundo trimestre fiscal, após o desempenho abaixo do esperado de Destiny 2. Agora, no quarto trimestre, foi registrado um impairment adicional de ¥88,6 bilhões (US$ 565 milhões).
O extraction shooter Marathon foi lançado durante o quarto trimestre, e a Sony afirma que “a recepção dos jogadores é forte” e que “métricas de engajamento, como retenção, também permanecem em um nível elevado”. “Seguindo em frente, nosso objetivo é melhorar o desempenho do jogo, trabalhando para reter usuários altamente engajados por meio da introdução de conteúdo adicional, melhorias na experiência de jogo e expansão da base de usuários”, declarou a empresa. O sucesso de Marathon é crucial para justificar o investimento na Bungie e para demonstrar que a aquisição pode gerar valor no longo prazo, especialmente após os reveses com Destiny 2.
Serviços de rede em alta e usuários ativos recordes
Enquanto o hardware enfrenta ventos contrários, o segmento de serviços de rede mostrou resiliência. As vendas de network services cresceram 13,9% no ano, atingindo ¥763,1 bilhões (US$ 4,8 bilhões). O número de usuários ativos mensais aumentou no quarto trimestre para 125 milhões, um recorde para a plataforma. Esse crescimento é alimentado pela expansão da base de consoles, pelo engajamento em títulos como Marathon e pelo ecossistema de assinaturas PlayStation Plus. A Sony também destacou que o lucro operacional do segmento G&NS atingiu um recorde histórico no ano, impulsionado por maiores vendas e taxas de câmbio favoráveis, mesmo com o impacto negativo do impairment da Bungie.
Perspectivas para o FY26: receita menor, mas lucro maior
Para o ano fiscal de 2026, a Sony projeta uma redução de 6% na receita do segmento G&NS, para ¥4,4 trilhões (US$ 28 bilhões), mas um aumento expressivo de 30% no lucro operacional, para ¥600 bilhões (US$ 3,8 bilhões). Essa previsão sugere que a empresa espera compensar a queda na receita de hardware com maior eficiência operacional, crescimento dos serviços de rede e melhora na rentabilidade do software. O guidance indica que a Sony está focada em extrair valor da base instalada existente, mesmo que o ritmo de vendas de consoles continue desacelerando.
O cenário para a Sony no curto prazo é de gestão cuidadosa entre ciclos. O PS5 está entrando em uma fase madura, e a empresa precisa equilibrar a pressão sobre preços e margens com a necessidade de manter o ecossistema aquecido para a próxima geração. Ao mesmo tempo, a integração da Bungie e o desempenho de Marathon serão observados de perto como indicadores da capacidade da Sony de transformar aquisições de estúdios em franquias lucrativas de longo prazo.
