O mercado de BDRs (Brazilian Depositary Receipts) encerrou fevereiro com um cenário misto, onde a maioria dos recibos de ações estrangeiras negociados na B3 registrou desvalorização, enquanto as recomendações para março continuam fortemente concentradas no setor tecnológico. O índice BDRX, que reúne os BDRs não patrocinados, acumulou queda de 5,06% no mês, somando uma baixa de 7,96% no ano, conforme dados da Economática. A correlação entre a desaceleração momentânea do hype de inteligência artificial nos Estados Unidos e a desvalorização do dólar frente ao real pressionou os ativos, mas analistas apontam que a migração de capital para setores mais tangíveis e mercados emergentes não retirou o protagonismo das gigantes de tecnologia nas carteiras recomendadas.
Redirecionamento de capital pressiona Nasdaq e impulsiona emergentes
A Genial Investimentos observa em relatório uma movimentação significativa de recursos no final de fevereiro. Houve uma migração de ativos de tecnologia e software, tradicionalmente mais voláteis e dependentes de inovação, para setores considerados mais intensivos em capital, como commodities, e para bolsas de mercados emergentes. Este movimento refletiu diretamente nos índices: enquanto o Nasdaq, referência em tecnologia, caiu 3,38%, bolsas europeias e de mercados emergentes renovaram máximas históricas. A explicação, segundo a corretora, reside na busca por empresas com ativos tangíveis e barreiras reais de entrada, vistas como mais resilientes frente à disrupção acelerada pela inteligência artificial, em contraste com modelos de negócio puramente digitais.
Guerra e política monetária adicionam camadas de risco ao cenário
Além dos fatores de mercado, um elemento geopolítico passou a demandar atenção redobrada dos investidores. A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã introduz um novo risco sistêmico. Um conflito mais prolongado no Oriente Médio tem o potencial de afetar os preços do petróleo por um período extenso, o que poderia reacender pressões inflacionárias globais. Este cenário, por sua vez, complicaria os planos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) para cortes na taxa de juros, mantendo o custo do capital elevado por mais tempo. Paralelamente, a busca por proteção em momentos de incerteza tende a valorizar o dólar, o que, ironicamente, pode ter um impacto positivo na conversão dos resultados das empresas listadas em BDRs para o investidor brasileiro neste mês.
Amazon lidera recomendações com diversificação além do varejo
Com seis indicações entre nove grandes corretoras e bancos consultados, a Amazon (BDR AMZO34) surge como a principal recomendação para março. A análise do BTG Pactual vai além do conhecido core de comércio eletrônico da empresa. A tese de investimento é sustentada pelo crescimento robusto e pela lucratividade dos serviços de computação em nuvem da AWS (Amazon Web Services), que são fundamentais para a infraestrutura de IA. Novas oportunidades de expansão em inteligência artificial aplicada aos seus próprios negócios e o avanço contínuo das operações do Amazon Prime, incluindo streaming e logística, completam o panorama positivo apontado pela instituição.
Apple é destaque por ecossistema fechado e receita recorrente
A Apple (BDR AAPL34), também com seis indicações, é apontada pelo Santander Brasil como uma holding com qualidades defensivas em meio à volatilidade. O banco ressalta o ecossistema otimizado e integrado da empresa, que cria uma “armadilha” para reter os usuários dentro de seu universo de produtos e serviços. Além disso, a Apple tem conseguido aumentar consistentemente os preços médios de venda de seus hardwares. Mais importante, a expansão do segmento de serviços (como Apple Music, iCloud e App Store) dentro da receita total mitiga o caráter cíclico das vendas de iPhones e cria um fluxo de receita mais previsível e recorrente.
Microsoft e TSMC aparecem como oportunidades de compra em queda
As ações da Microsoft (BDR MSFT34) sofreram uma desvalorização significativa, chegando a quase 20% após a divulgação de seus últimos resultados, conforme destacado pela Empiricus Research. No entanto, a corretora enxerga a reação do mercado como exagerada, dado que os fundamentos e as perspectivas de longo prazo da empresa permanecem sólidos. Por isso, classificam o momento atual como uma oportunidade para aumentar a posição a um preço considerado atrativo, apostando na correção futura e na força contínua de seus negócios em nuvem (Azure) e software.
Fabricante de chips taiwanesa se beneficia da demanda por IA
A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC, BDR TSMC34) apresentou um desempenho resiliente. A XP Investimentos destaca que, após resultados robustos em janeiro, a empresa manteve a trajetória positiva em fevereiro. O anúncio de um acordo entre a AMD e a Meta (Facebook) para o fornecimento de chips impulsionou as ações, alimentando a perspectiva de demanda crescente pelos semicondutores de ponta fabricados pela TSMC. Os resultados trimestrais excepcionais da Nvidia, uma de suas maiores clientes, reforçaram ainda mais um cenário otimista para a fabricante, posicionando-a como peça central na cadeia de suprimentos da revolução da inteligência artificial.
Alphabet, Micron e Nvidia completam a lista de techs favoritas
A controladora do Google, Alphabet (BDR GOGL35), foi indicada pelo BTG Pactual. A tese inclui sua liderança consolidada e quase monopolista no mercado de buscas online, os pesados investimentos em inteligência artificial e machine learning integrados a seus produtos principais, a expansão competitiva do Google Cloud no segmento de computação em nuvem e o crescimento contínuo do YouTube, que vem ganhando participação de mercado tanto em publicidade quanto em assinaturas de streaming.
Micron e Nvidia são apostas diretas na infraestrutura de IA
A Micron Technology (BDR MUTC34), maior empresa americana de memória e armazenamento com 45 anos de história, é uma aposta direta na demanda por hardware especializado. O Santander Brasil ressalta que a empresa vem se beneficiando da forte procura por memórias de alta performance, essenciais para data centers e aplicações de IA. A demanda é tão aquecida que a Micron já teria vendido toda a sua capacidade de produção de memória de alta largura de banda para este ano.
Por fim, a Nvidia (BDR NVDC34) permanece como a estrela inconteste do ciclo atual. O Santander Brasil a descreve como a fornecedora de infraestrutura fundamental para o avanço da inteligência artificial, líder em tecnologia com potencial para redefinir indústrias. Os catalisadores para a empresa incluem o progresso contínuo da IA, a adoção crescente de seus chips da arquitetura Blackwell Ultra, parcerias estratégicas e a expansão do uso de sua plataforma de programação CUDA. A expectativa para o segundo semestre é o lançamento da arquitetura Rubin, uma nova geração de chips projetada para sustentar a próxima onda de inovações em IA.
O cenário para março, portanto, é de uma aposta concentrada, porém seletiva, em tecnologia. As empresas escolhidas pelas maiores casas de análise não são apenas “puras” em IA, mas sim gigantes com modelos de negócio diversificados, fluxos de caixa robustos e, em muitos casos, componentes defensivos ou de infraestrutura essencial. Isso reflete uma maturação na abordagem dos investidores, que, mesmo mantendo o foco no setor que deve ditar o ritmo da inovação na próxima década, buscam resiliência diante de ventos macroeconômicos e geopolíticos contrários. A mensagem é clara: a revolução tecnológica continua, mas o capital está sendo alocado com um critério mais rigoroso, privilegiando empresas com lastro real e capacidade de gerar valor além do hype momentâneo.
